30 anos da Copa do Mundo de 1990: três regras que mudaram o jogo

Há exatos 30 anos, a Itália descalçava as botas para colocar as chuteiras da 14ª edição da Copa do Mundo. Entre 8 de junho e 8 de julho de 1990 foi disputado um Mundial emocionante, mas de nível técnico questionável, o que não o impediu que deixasse marcas indeléveis para o jogo de futebol e na memória de quem viveu aqueles dias de verão italiano. Para celebrar a efeméride, apresentamos uma série de cinco textos publicados ao longo da semana que tentam extrair a essência daquele torneio, tratando de sua influência nas regras do futebol, a participação do Brasil e os principais personagens daquela Copa.

A versátil música italiana explica um pouco o que se passou durante a Copa do Mundo de 1990. Se a FIFA tem ideias duvidosas sobre como gerir o seu produto, o futebol, imagine para escolher músicas-tema de seus torneios. Nem tarantela nem ópera,  “Un’ Estate Italiana” (Um verão Italiano) foi o pop sem sal selecionado para ser a trilha sonora oficial daquelas partidas disputadas entre 8 de junho e 8 de julho. A canção não é das mais empolgantes, é quase como comer um fast food na terra da massa, mas a primeira estrofe toca um pouco do que seria o legado daquele verão italiano. 

Forse non sara’ una canzone (Talvez não seja uma canção)

A cambiare le regole del gioco (A mudar as regras do jogo)

Ma voglio viverla cosi’ quest’avventura (Mas quero viver assim esta aventura)

Senza frontiere e con il cuore in gola  (Sem fronteiras e com o coração na boca)

A canção de Gianna Nannini e Edoardo Bennato não foi capaz de modificar as regras do futebol, mas a Copa, uma aventura que precisou ser vivida com o coração na boca, sim. Tecnicamente, o Mundial foi uma lasanha com pouco recheio. Enfim, um futebol com poucos gols (isso explica que, exceto pela final, a Copa tenha sido esquecida na maratona de reprises de jogos durante a quarentena). O ruim (na qualidade) acabou tendo o seu lado positivo.  Mesmo que não seja o Mundial que será lembrado pelo futebol jogado, foi um dos que mais impactou o futebol. O jogo de bola como conhecemos atualmente – sem conceituar como melhor ou pior – começou no apito final da final entre Alemanha e Argentina

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Ainda está por surgir uma Copa do Mundo com média de gols tão baixa como aquela disputada na terra de Pavarotti. Foram 115 gols em 52 partidas. Média de 2,21 gols por jogo. Não se pode sequer dizer que esse foi o índice de gols marcados a cada 90 minutos porque alguns deles saíram em prorrogações. O tempo extra teve um papel central para a dramaticidade daquelas noites. Nada menos que oito partidas eliminatórias não foram decididas nos 90 minutos.

Para tentar aumentar o apetite ofensivo, a International Board e a FIFA realizaram três modificações importantes na regra do jogo no ciclo que culminou na Copa do Mundo dos Estados Unidos. Em 25 de julho, 17 dias depois de Andreas Brehme ter mercado, de pênalti, o gol do título alemão, entrou em vigor a nova regra do impedimento. A partir daquele dia, o atacante que estivesse na mesma linha do penúltimo defensor passaria a estar em condição de jogo. Depois de 65 anos, a lei do impedimento foi descongelada para que os telespectadores fossem inundados de imagens congeladas para saber se o atacante estava em posição legal ou não – mais adiante naquela década surgiu o impedimento passivo, em que um jogador que não interferisse na jogada passaria a estar em posição de impedimento sem que o lance fosse invalidado.

Essa, teoricamente, mínima vantagem concedida aos atacantes deixou as defesas mais expostas, criando uma maior dificuldade para se jogar com a linha defensiva alta, especialidade do Milan de Arrigo Sacchi, melhor time europeu daqueles tempos e de todos os tempos. A armadilha da linha do impedimento se tornou uma alternativa defensiva ainda mais ousada.

Após a final entre Alemanha e Argentina, muita coisa mudou nas regras do jogo (Getty Image)

Outra mudança realizada naquele período está uterinamente ligada à marcação pressão do futebol atual. Além da lei do impedimento, outra regra facilitava a vida dos zagueiros. Até os Jogos Olímpicos de 1992, quando o goleiro deixou de poder pegar a bola com as mãos quando recuada com o pé por um companheiro, o sucesso de uma pressão nas proximidades da área do adversário tinha que contar com uma dose de inaptidão técnica dos defensores.Nas horas de aperto, o passe para o camisa 1 sempre era uma solução segura, transformando, na maioria das vezes, a marcação pressão em um desgaste físico desnecessário. 

A situação servia como um artifício para ganhar tempo. O zagueirão e o goleiro ficavam deixando os ponteiros do relógio avançarem tocando a bola um para o outro, em uma cera entediante protegida pelas diretrizes do jogo. Além de facilitar o serviço dos esforçados atacantes, a nova regulação passou a exigir que os goleiros passasem a ter alguma perícia com a bola nos pés, o que também oferece aos treinadores mais um jogador para realizar a saída de bola. A primeira figura a indicar o rumo da posição seria o holandês Van der Sar, no Ajax da metade dos anos 1990. Mas não era só.

Na Copa da Espanha, em 1982, a campeã Itália passou para a segunda fase sem vencer uma única vez na primeira etapa da competição. Na Itália, Holanda e Irlanda, ambas no Grupo E, avançaram para as oitavas de final após empatarem três vezes em três jogos, em uma época que a vitória valia dois pontos. Para tentar evitar que essas estranhas situações voltassem a se repetir, foram instituídos, a partir do Mundial dos Estados Unidos, os três pontos por vitória. A intenção era que, com uma recompensa maior, as equipes fossem ao ataque em busca de gols e das vitórias.A regra não era exatamente uma novidade. A Inglaterra já a implementara em 1981. Outros países esses de menor tradição futebolísticas também já tinham adotado a medida. 

As três modificações tinham como objetivo tornar o futebol mais dinâmico e ofensivo. A primeira parte foi atingida de imediato. De certo modo, a segunda também foi atendida, já que a média de gols em Copas não tocou mais o fundo do poço alcançado na Itália, embora existam uma avalanche de variáveis que influenciam a ofensividade do jogo. 

Com essas mudanças é inegável que o futebol nunca mais foi o mesmo depois da Copa de 1990. Nos próximos dias mostraremos como o Mundial de 1990 foi uma aventura que levou o coração à boca dos torcedores. 

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