30 anos da Copa do Mundo de 1990: os três tenores

O Footure publica hoje o terceiro de uma série de cinco textos sobre os 30 anos da Copa do Mundo de 1990. Depois de apresentar as mudanças das regras do futebol e suas consequências dentro de campo, e a campanha da Seleção Brasileira naquela mundial, chegou o momento de contextualizar o futebol europeu naquele momento e o seu reflexo no torneio.

Berço da ópera, a Itália também viu o seu Mundial servir como catapulta para que a música clássica se aproximasse um pouco mais das camadas populares. Na véspera da final entre Alemanha e Argentina, os três tenores líricos Luciano Pavarotti, Plácido Domingos e José Carreras dividiram o palco pela primeira vez. O show nas ruínas das Termas de Caracala, erguidas no ano de 256 em Roma, os transformou em astros pop e foi o início de uma parceria que percorreu o mundo nos anos seguintes. Em tempos pré-União Europeia, os times italianos também contavam com seus três tenores em campo.

Mais badalado torneio do futebol mundial há 30 anos, o Campeonato Italiano tinha o limite de três jogadores nascidos em outros países por clube. O trio de estrangeiros era o diferencial nas equipes em uma época em que os italianos produziam talentos como Franco Baresi, Paolo Maldini, Roberto Baggio, Gianluca Vialli, Roberto Mancini, Giuseppe Giannini, entre outros. 

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A importação dos grandes talentos  era permitida pela, então, pujante economia italiana. O Milan foi à Holanda comprar Rijkaard, Van Basten e Gullit. A Inter de Milão despejou sua liras para tirar Klinsmann, Matthaüs e Brehme da Alemanha. Essa peculiaridade deixou alguns confrontos tão apimentados quanto um pepperoni. Holandeses, de campanha abaixo das expectativas, e alemães se encontraram nas oitavas de final. A partida disputada em Milão foi quase uma extensão de um derby entre Milan e Inter. Os germânicos avançaram com uma vitória por 2 a 1, em um  jogo marcado mais pela cusparada de Rijkaard em Völler, então jogador da Roma, do que pelo que duas das seleções favoritas ao título apresentaram com a bola. Foi a única Copa que os três compatriotas da Van Gogh atuaram juntos. Artilheiro contumaz, Van Basten nunca marcou gol em uma Copa.

A Juventus era mais ou menos como Pavarotti. Buscava parcerias um pouco mais inusitadas. No decorrer dos anos, o tenor italiano dividiu o microfone com uma variedade de artistas. Spicie Girls, Sting, Bryan Adams, Bono Vox, Elthon John e uma série de outros ilustres da cena musical fizeram parceria com o tenor. A Juve experimentava nomes de países excêntricos. Na temporada 89/90, o técnico holandês Leo Beenhakker contava com os soviéticos Oleksandr Zavarov e Sergei Aleinikov e o português Rui Barros. Nos anos anteriores, o dinamarquês Michael Laudrup e o galês Ian Rush fizeram parte do elenco bianconero. 

Um dos times que conseguiu quebrar a hegemonia dos três tenores do norte (Milan, Inter e Juventus), o Napoli veio à América do Sul atrás dos brasileiros Careca e Alemão e tirou Maradona do Barcelona. ‘El Pibe de Oro’ foi o responsável por uma das situações mais inusitadas da Copa do Mundo de 1990. A trôpega Seleção Argentina esculhambou com o Mundial de muitas equipes, entre elas a do Brasil, como visto ontem.

Caso a Albiceleste tivesse feito o que dela se esperava na primeira fase, seu caminho até a final teria Colômbia, Inglaterra e Alemanha. Evitaria todo o drama italiano na semifinal. Não bastasse eliminar os donos da casa, Maradona o fez em Nápoles, a cidade que o amava.

Copa do Mundo de 1990
Em Napoles, cidade que lhe amava, Maradona eliminou a Itália na Copa do Mundo de 1990 (Getty Images)

O camisa 10 tentou causar uma querela e, quem sabe, agregar alguns locais para torcer para os hermanos. Envolvida em diversas guerras, a cidade foi anexada à Itália somente em 1861, mas nunca foi bem recebida pelos fratelli do norte. Os nortistas, região mais rica do país, acham que os italianos do sul são preguiçosos e menos trabalhadores, entre outros preconceitos. “Os napolitanos precisam lembrar uma coisa: a Itália os faz sentir importante um dia por ano, mas esquecem deles nos outros 364”, disparou Maradona antes do confronto.

Talvez se a partida tivesse sido em Turim ou Milão, o apoio para a Azzurra tivesse sido mais efusivo. No fim, uma falha do goleiro Walter Zenga levou a partida para a prorrogação e, depois, para os pênaltis, culminando na primeira das três eliminações seguidas que os italianos tiveram nas cobranças de pênalti em Copas. 

Um dos pontos altos daquele show de Pavarotti, Carreras e Domingos se deu quando o italiano inflou os pulmões para cantar Nessun Dorma (Ninguém Durma). A ária composta por  Giacomo Puccini em 1926 foi uma escolha com um verso profético. “Tramontate, stelle!” (Desaparecem, estrelas), ordena um dos últimos versos. As estrelas do mundo da bola não cintilaram como o esperado, quem brilhou foi uma gama de jogadores menos prestigiados como veremos nos próximos dois dias.

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