Arthur Elias: “O processo de formação no feminino precisa ter a mesma estrutura que se tem para os meninos”

Em entrevista ao Footure, o treinador do Corinthians Feminino destrinchou sua equipe taticamente, planejou a temporada 2020 e revelou o desejo de trabalhar no futebol masculino

Orquestrando a manutenção e montagem do elenco, Arthur Elias, de 38 anos, é o técnico da melhor equipe do futebol feminino brasileiro. Totalmente padronizado, o Corinthians foi responsável por, em 2019, vencer duas das três decisões disputadas. Com a conquista do Campeonato Paulista e da Copa Libertadores e uma invejável sequência de 34 vitórias consecutivas, o time quebrou recordes, dominou premiações e envolveu sua torcida.

No Corinthians desde 2016, quando o Audax fez parceria com o clube, o treinador passou a implantar suas ideias e dispôs de melhor material humano. Não demorou muito para que passasse a se destacar. Trabalhando com futebol desde os 20 anos, Arthur se vê em início de carreira, revela o sonho de assumir a seleção brasileira e confessa que sempre pensou em atuar no futebol masculino.

Em seguida, a conversa de 45 minutos concedida no Parque São Jorge, casa do Corinthians Feminino:

Footure: Como vem sendo a preparação para uma temporada que deve ser ainda mais competitiva? Como tem sido o mapeamento de possíveis reforços?

Arthur Elias: Está no término. O ideal seria tudo isso acontecer com mais antecedência, mas o futebol feminino ainda tem esse caráter de a maioria dos clubes serem contratos anuais. Eu gostaria de, nesse momento, ter praticamente tudo certo, mas as conversas têm encaminhado bem. É um momento muito importante, porque a montagem de um grupo de trabalho é fundamental para o sucesso da temporada.

O Corinthians Feminino tem apenas 3 derrotas sob o comando de Arthur Elias (Foto: Agência Corinthians)

Com os títulos, sua equipe tende a ser ainda mais estudada. Como manter a identidade e, ao mesmo tempo, trazer elementos novos?

Espero que eles estudem, mesmo, e que o futebol feminino seja cada vez mais bem treinado, mais bem jogado. Eu vejo que o nível tem crescido, então isso enriquece a qualidade do jogo. Em relação ao que a gente pretende para o próximo ano, é não fugir das nossas ideias de trabalho, mas sempre aprimorar. Você tem sempre algo a melhorar, evoluir e construir.

Ao colocar 28 mil pessoas na Arena Corinthians, a torcida do seu time foi responsável pelo maior público em um jogo de futebol feminino. Qual a importância disso e como crescer ainda mais?

É importante. Eu fiz questão de dizer isso porque, até pouco tempo atrás, os torcedores só conheciam a seleção brasileira de futebol feminino e só conheciam a Cristiane, a Marta e a Formiga, no máximo. Isso era muito ruim para o futebol feminino porque as pessoas tinham um olhar muito distante.

O que aconteceu de a gente colocar mais de 28 mil pessoas é o reflexo desse desenvolvimento a curto prazo, com clubes de camisa, clubes um pouco mais organizados, a gente conseguindo dar treinamentos melhores a uma quantidade de atletas maior e, principalmente, informar o público, divulgar aquilo que está acontecendo. São fatores bem importantes que culminaram nesse público, mas espero que seja algo mais comum de a gente ver. É só assim que a gente vai poder falar de um desenvolvimento maior e que, depois, isso possa gerar um pouco mais de receita. As receitas vão ser um fator que vai fazer com que o desenvolvimento seja mais rápido ou mais lento.

Qual a importância de valorizar e investir no futebol feminino desde a infância, criando e estruturando um processo de aprendizagem?

Praticamente não existe o processo de formação. Ele atinge uma parcela muito pequena das meninas que querem jogar futebol. Você, primeiro, precisa ter um processo de massificar, mais cultural, de as meninas jogarem futebol em todos os ambientes que os meninos jogam. Isso tem, em certo ponto, acontecido mais. A mentalidade das pessoas está um pouco mais aberta, mudando, e isso é um facilitador.

O processo de formação precisa estar dentro dos clubes, com a mesma estrutura, a mesma metodologia que se tem dentro dos clubes para os meninos. Obviamente, por uma questão de mercado, eu vejo que algum tempo vai prevalecer, agora, as meninas precisam ter esse espaço. Isso é fundamental para melhorar o nível de jogo lá em cima. Muitas não vão se tornar jogadoras e, as que forem se tornar, vão se tornar jogadoras mais inteligentes, mais bem preparadas fisicamente, com mais lastro de jogo. Há muito tempo se fala “O Brasil não está preparado para as grandes decisões pelo aspecto mental”, “Elas sentem quando tomam algum gol”. Isso não é a jogadora que vai conseguir mudar. Isso precisa ser um processo onde ela passou várias vezes por aquela situação.

De todos os títulos no comando do Corinthians, qual o mais especial?

É difícil te dizer porque foram duas Libertadores, uma Copa do Brasil, que foi o primeiro título e a gente sabia que ia encaminhar bem o projeto, o Campeonato Brasileiro, por ter sido o primeiro do clube, o Paulista, da forma que foi, de a gente ter vencido os 20 jogos, ter feito 66 gols, tomado 7… todos são especiais, não é todo dia que você ganha um título. Você está todo dia trabalhando para isso, mas, quando se ganha, é muito especial.

Arthur Elias: “Tenho essa vontade de trabalhar com o futebol masculino” (Foto: Agência Corinthians)

Como funciona o momento defensivo do Corinthians? Qual o sistema tático e o modo de marcação?

Cada um tem entendimento do que é tática. Para mim, tática é tudo o que está envolvido durante o jogo. Se a atleta está para receber um cruzamento e se posiciona atrás, é uma tática que está usando naquele momento. Se você, para marcar, posiciona o seu corpo de um lado ou de outro, ou você induz quem está com a bola para um lado ou para o outro, isso é uma tática. O que eu tento fazer é com que a tática seja um facilitador para as jogadoras se sentirem confortáveis.

O que eu treino todos os dias e não abro mão de ter dentro do nosso trabalho: a parte de comunicação, de participação, técnica com intensidade e leitura de jogo. Esses são os pilares que a gente tem dentro da ideia de trabalho. Nessa situação mais defensiva, existem várias ideias. O que eu posso te colocar como as principais para nós é a gente ser uma equipe bem compacta, que pressione a bola independente da altura de marcação, que consiga fazer uma boa pressão pós-perda e, dentro desses conceitos principais, vai desdobrando. Aí tem as coberturas, a recomposição e várias situações que nós vamos treinando.

Como criar um time tão consistente defensivamente?

A ideia é que a equipe seja bem equilibrada. Quando a gente está esperando o adversário para marcar, seja alto ou seja baixo, a gente não quer que progridam. Uma coisa muito importante nesses anos tem sido a nossa linha de baixo. A interação da goleira nas coberturas e a linha de baixo sempre com muita consistência, com muita sincronia, com bom posicionamento do corpo, bom combate… quando a adversária consegue passar a linha do meio do campo, a gente tem uma linha de baixo que sabe muito bem o que fazer em todos os momentos. Se você pegar, principalmente nos últimos 2 anos, a gente não sofre ataque do adversário com igualdade ou superioridade numérica mesmo com a gente chegando com muitas atletas ao gol do adversário.

A parte ofensiva do seu time é o que mais chama a atenção. Como ele ataca e por que valorizar a posse?

Eu sempre gostei da bola. Para mim, futebol é com a bola. Todo mundo que começa a jogar não pensa em estar sem a bola e “vou correr para caramba para marcar”. Você até vai adquirindo um gosto também, mas é sua relação com a bola que te faz apaixonar pelo futebol. Todos os movimentos com a bola são muito importantes, são treinados com uma comunicação verbal e gestual. Eu sempre gostei de um futebol ofensivo, onde a gente busca o gol a todo o momento, que chegue com muitas jogadoras, mas nem sempre tive material humano para conseguir ficar muito tempo com a bola. Depende do contexto. Mas, hoje, eu vejo muito favorável de a gente fazer um jogo de imposição e de ter o controle com a posse como a gente tem.

Suas saídas de bola alternam entre sustentada (com 6 jogadoras) e com mais gente no campo de ataque (com apenas 3). Por que?

A gente tem treinado as duas situações. Eu preparo a equipe para eu ter esse recurso dentro do jogo. A partir do momento em que a gente avalia como o jogo está acontecendo, a gente se prepara para a adversária, mas nunca tem certeza de como vai ser o jogo. De acordo de como o jogo vai se desenvolvendo, eu tomo a minha decisão de trocar ou não o início da construção e também da distribuição delas em campo. Não tenho uma preferência. Para mim, é rico você ter essa variação porque eu penso que, quando a gente está com a bola, uma das coisas mais importantes é você gerar dúvida na adversária.

A gente vê alguns elementos posicionais no seu Corinthians: saídas limpas, triangulações, amplitude e profundidade. De onde vem essas ideias? Tem alguma inspiração?

Elas não são fixas, não são copiadas. A gente usa algumas coisas, mas eu adapto. É uma coisa que a gente constrói com as jogadoras. Para mim, o trabalho não é só construído com a ideia que o treinador ou a comissão tem. A partir do momento em que elas estão executando no dia a dia, isso tem uma via de mão dupla. Elas também trazem coisas e isso vai se construindo naturalmente. Eu posso ter as mesmas ideias com o grupo que eu tenho no Corinthians, se eu for para outro time, não significa que os mecanismos vão ser os mesmos, que a equipe vai jogar exatamente igual, mas pode ser que ela seja tão eficiente ou mais.

Como fazer com que as jogadoras entendam suas ideias e repitam o que você apresenta diariamente nos treinos?

Resumidamente, são mudanças de estratégia. Se você cair muito numa rotina, isso é ruim. A atleta vai para o treino, você explica o objetivo do treino, faz o fechamento, coloca de maneira verbal e gestual… são situações que funcionam, mas você precisa ter um feeling, um conhecimento do teu grupo, porque tem dia que não vai absorver tanto, tem dia que você precisa se comunicar de uma outra forma. Isso é importante perceber. Acho que, com a minha experiência, eu consegui otimizar o número de informações para que seja bem recebido pelas jogadoras.

O treinador tem 9 títulos conquistados com o Corinthians (Foto: Agência Corinthians)

O lado esquerdo do Corinthians é visto como o mais forte. É algo treinado ou acabou acontecendo?

Não é algo treinado porque eu busco sempre um equilíbrio. Acho que, se eu treinar mais o lado esquerdo, obviamente eu vou fazer com que ele seja melhor em relação ao lado direito, e não tem nenhum sentido porque, em muitos jogos, vai ser melhor atacar um pouco mais pelo lado direito. Essa questão do lado esquerdo é uma construção que vem vindo. Principalmente quando a Tamires chegou, acabou se entendendo muito bem com a Juliete ou a Su, quando jogou. Foi um lado que criou muito para a gente, mas em outros tantos jogos a gente fez o lado direito com a atacante e funcionou bem.

Você ainda tem algum sonho a ser realizado dentro do futebol?

Tem vários. Eu pretendo ser cada vez melhor, pretendo me tornar um treinador ainda melhor. Um treinador que consiga estar à frente dos outros, que eu consiga impactar mais pessoas, quem está comigo, o meu grupo, os profissionais, as atletas… mais para frente, de repente, os atletas, porque tenho essa vontade de trabalhar com o futebol masculino. Isso é um sonho de crescer. Masculino, seleção, trabalhar em outras grandes equipes…

Sempre teve essa vontade de trabalhar com o futebol masculino?

Sim, sempre tive.

Você se considera o melhor treinador do país no futebol feminino?

Não fico pensando muito nisso, não. Tento contribuir o máximo, me dedico demais, quero ser melhor a cada dia, trabalho pensando dessa maneira, mas eu não fico me comparando com os outros.

A questão do masculino é algo que eu sempre pensei porque eu penso que sou um treinador de futebol. Até acho que é um desafio nessa situação, de mudança na mentalidade das pessoas, porque ainda tem muito preconceito com quem trabalha no feminino, e é uma grande bobagem porque o futebol é um só e as ideias que eu tenho, como trabalho, como executo, isso dá certo com o masculino ou feminino.

Você tem o plano de assumir a seleção a curto, médio prazo ou deixa na mão do destino? Teve esperança de ser chamado antes da Pia Sundhage?

Acho que ainda tem uma carreira longa ainda, né. Eu via que tinha possibilidades de ser chamado, mas também acho que a CBF fez uma boa escolha com a Pia, então faz parte do futebol. Eu penso em um dia, quem sabe. As coisas vão acontecendo, os sonhos a gente vai realizando, e o importante é trabalhar com dedicação, honestidade, cooperando, fazendo o bem, e as coisas vão acontecendo.

Colaboração de Corinthians Scouts

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Caio Alves

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