Carlos Amadeu abre o jogo: formação, Seleção de base, Bahia, psicologia do esporte e falta de respeito com profissionais

Em entrevista exclusiva, Carlos Amadeu abriu o jogo sobre suas ideias, a forma como vê o futebol, a formação de vencedores na base, o trabalho no Bahia e a falta de respeito com profissionais do esporte

*em parceria com Mairon Rodrigues

Aos 54 anos, Carlos Amadeu é um treinador com muitas ideias, desde a formação dos atletas como pessoa até a literatura futeboleira. Na última semana, o atual treinador do Bahia sub-20 nos atendeu para falar um pouco sobre futebol neste período de quarentena.

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Dentro de campo, sua carreira como jogador foi curta. Formado no Bahia, o lateral esquerdo Amadeu fez parte do elenco que conquistou o Campeonato Brasileiro de 1988. Entretanto, uma fratura no braço – e que necessitou três cirurgias – o afastou dos gramados cedo e, após um ano sem jogar, decidiu se aposentar.

Desde 1992 como treinador, foram diversas passagens por Vitória (profissional e base), Bahia (profissional e base) e Seleção Brasileira sub-17 e sub-20.


A conversa iniciou falando sobre contexto. Apesar de ter ideias bastante claras sobre a forma que quer a sua equipe, Amadeu confirma que é necessário observar todo o entorno para colocar em prática o futebol mais adequado para o momento.

“É preciso analisar o momento e o contexto. Você está assumindo um clube ou seleção? Profissional ou base? Se for base, qual categoria? Quais os objetivos do clube naquele momento? É preciso analisar tudo para começar um trabalho”

Adepto de um jogo mais posicional, Amadeu não se considera alguém “radical” com as ideias de jogo e preza pela flexibilidade dentro da proposta. “Eu prefiro a forma mais posicional, que os jogadores não precisem baixar suas posições no campo para buscar a bola em espaços já preenchidos. Pra mim, tudo está relacionado ao espaço – seja para cobrir os espaços livres ou atacar os espaços fracos do adversário. A grande questão é convencer os atletas e fazê-los comprar a nossa ideia”, finalizou.

Carlos Amadeu (Foto/Divulgação CBF)
Divulgação/CBF

Dentro deste trabalho de “vender suas ideias”, nem sempre é um processo fácil. No Brasil, onde a cultura é de um jogo mais “livre”, principalmente no terço final, há uma cultura, crença e valores acerca desta ideia. De qualquer forma, Amadeu ressalta que “o jogador brasileiro é muito inteligente e sabe se adaptar a diferentes modelos de jogo”.

Além disso, vivemos na era da geração Z que, para Amadeu, é a mais questionadora dentro do vestiário. “Desde as categorias mais inferiores eles tem trabalho tático, então eles possuem muito conhecimento do assunto. Se você chegar com argumentos sólidos sobre a utilização de um esquema, eles vão te questionar”, destacou o treinador do Bahia.

Porém, um dos problemas que Amadeu enxerga neste excesso de informação é que alguns treinadores tentam “controlar o incontrolável” e acabam não estimulando os jogadores a resolverem problemas dentro e fora de campo. O grande desafio para ele é fazer esta mescla entre a intuição e a instrução.


Aprendemos tática apenas na Europa?

Dentro deste processo de formação, muitas pessoas acreditam que o jogador brasileiro evolui muito na Europa, algo que Carlos Amadeu discorda e, para isso, utiliza como exemplo José Boto, diretor de scouting do Shakhtar Donetsk, que já falou sobre o jogador brasileiro ser inteligente taticamente. “A única questão que me parece, sim, uma grande mudança do Brasil para a Europa é a intensidade e o comportamento dos jogadores”, afirmou Amadeu.

“Existe, claro, aqueles jogadores mais experientes que, quando são comandados por um técnico mais novo, acabam não dando muita bola para ensinamentos táticos, técnicos e criar uma certa resistência. Então, quando eles vão pra Europa ou pegam um treinador mais velho, que respeitem, eles começam a ouvir. Por isso eu acho balela esse negócio de que se aprender a jogar taticamente na Europa”

Para completar, o treinador ainda fala que o Brasil vive um período de transição nas ideias. Se por muito tempo adotamos marcações por encaixe, os últimos anos tem apresentado mais equipes com marcações zonais; então, ainda estamos neste período. “Como convencê-los? Com as vitórias”.


A passagem na Seleção Brasileira

Outro momento importante na sua carreira como treinador, foi na Seleção Brasileira sub-17 e sub-20, onde trabalhou com uma geração recheada de grandes jogadores como Vinicius Jr., Paulinho, Danilo,Vitão e Gabriel Brazão

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Dentro deste trabalho, o maior desafio sempre foi a observação dos jogadores. Antes da saída de Erasmo Damiani, a base do Brasil possuía 5 observadores e 1 coordenador de captação. Depois disso, o número diminui para apenas 3 observadores.

“Já não era um número ideal e sempre fizemos um sacrifício bem grande para cobrir o maior número de jogos possíveis. Mas acabamos cometendo injustiças porque nem sempre é possível observar tudo. Além do mais, sempre fica aquela questão: será que convocamos o jogador que já vimos com a camisa da Seleção ou aquele que está bem no seu clube, mas nunca vimos aqui?”

Para fechar uma convocação, Carlos Amadeu também precisa observar outras situações. Nem sempre os jogadores atuam em equipes com o mesmo estilo da Seleção, por isso é importante destacar os jogadores mais versáteis, como Paulinho, atualmente no Bayer Leverkusen, citado pelo próprio treinador.

Divulgação/CBF

A formação dos atletas vencedores e a psicologia no esporte

Quando falamos sobre categorias de base, uma dúvida acaba pairando no ar: ganhar ou formar? Nesta ceara, Carlos Amadeu vê o futebol de maneira menos simplista. “Não gosto dessa dualidade, é muito simplista. Nem sempre o jogador que conquistou títulos na base se torna um vencedor, como também é possível alguém que ganhou pouco na base se tornar um multicampeão. Eu trabalhei com Daniel Alves e Vampeta. Eles não ganharam nada na base e são dois vencedores”, completou.

E será que ser um “vencedor” é apenas reduzido aos títulos conquistados?

“Temos que levar em consideração que praticamente todos os jogadores são vencedores. Chegar a Seleção Brasileira na base não é uma vitória? Subir de categoria e permanecer, não é uma vitória? Chegar ao profissional, não é vitória? Eu não posso falar que um jogador que sai do nada, chega no profissional ou vai pra Europa não é vencedor mesmo que não ganhe títulos”

E num país onde a dicotomia vencedor e perdedor e tão grande, trabalhar a mentalidade dos jogadores para lidar com esta pressão desde cedo é muito necessário. Trabalhar as questões psicológicas, mas também pensar no jogador como um ser humano. “A psicologia é utilizada mais do que outrora, mas menos do que deveria. É preciso cuidar muito do jogador nesse sentido. Precisamos pensar que muitos vão morar sozinho no clube, ficam longe de suas famílias e que muitas vezes vivem estruturas complicadas com os pais abandonando as mães e depois querendo se aproveitar”, ressaltou Carlos Amadeu.

Além disso, para o treinador do Bahia sub-20, é primordial que o jogador não deixe os estudos.

“Eles não podem deixar de estudar. Os jogadores precisam entender que eles irão se tornar ex-atletas, podem vir a parar precocemente ou se aposentar com 36, 37 anos e não dá pra ficar sem trabalhar por tanto tempo. E se esse jogador não ganhou o suficiente? O que ele vai fazer? Por isso, nesse período de quarentena, também estamos com aulas de educação financeira para muitos jogadores. Eles precisam conhecer mais sobre isso”


O processo de prospecção no Bahia

Chegando ao seu momento atual, a conversa foi para o trabalho nas categorias de base do Bahia. O primeiro estudo feito no clube era saber o jogador ideal para o torcedor e, a primeira observação está dentro do hino do clube: “ninguém nos vence na vibração”.

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Dentro do processo de prospecção há um importante processo hierárquico. Na ordem, o clubes busca jogadores: de Salvador, da região metropolitana, da Bahia, do Nordeste e, por fim, do Brasil. Ou seja, o clube prioriza atletas formados localmente por sua adaptação se tornar mais fácil.


Por fim, em tempos de quarentena, nada melhor do que um livro sobre futebol. O problema, é que a literatura no esporte ainda não é algo cultural no país, segundo acredita Carlos Amadeu. “A falta disso é um processo educacional, nunca fomos acostumados e ler tanto, não há essa cultura de escrever e registrar sobre a história de nossas vitórias”.

Por outro lado, Amadeu vê um problema ainda maior: falta de respeito com os profissionais do esporte.

“A história rica do Zagallo nós não temos registrada e tem mais: Luxemburgo e Felipão, por exemplo. Como não vamos respeitar caras multicampeões. O Felipão foi campeão de Copa do Mundo, finalista de Euro com Portugal. Não se respeitam os profissionais nos principais meios”

Ainda não sabemos quando o futebol irá voltar no Brasil, é verdade. Entretanto, ao final da conversa ficamos com uma certeza: para o futuro do futebol precisamos falar ainda mais sobre o jogo e Carlos Amadeu, anotem este nome, estará marcado como um dos técnicos que pode ajudar neste processo de evolução.

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Gabriel Corrêa

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