GUIA DA CHAMPIONS: Tottenham e RB Leipzig

Treinadas por Mourinho e Nagelsmann, as equipes de Tottenham e RB Leipzig têm conquistado bons resultados na temporada.

Após se classificar em primeiro em um grupo equilibrado, ao lado de Lyon, Benfica e Zenit, o RB Leipzig terá a missão de enfrentar o atual vice-campeão da Champions League. O Tottenham, entretanto, não é mais o mesmo em relação ao time que escreveu uma de suas mais belas histórias no cenário europeu. De um lado, a experiência de José Mourinho; do outro, a intensidade e a versatilidade de Julian Nagelsmann. O duelo tem equipes de características diferentes, mas que gostam de acelerar o jogo, cada um de sua maneira.

Para detalhar taticamente as equipes de Tottenham e RB Leipzig, temos dois analistas da casa: Henrique Letti e Vinícius Dutra.


UM TOTTENHAM RENOVADO E AINDA MAIS DIRETO

Depois de cinco temporadas, o Tottenham se despediu de Maurício Pochettino. A consistência da equipe treinada pelo argentino apresentou resultados no cenário europeu – não à toa, foi finalista da última Champions League. Essa regularidade sumiu, e José Mourinho, o novo comandante, tem buscado entregá-la de uma maneira diferente.

Mesmo com muito desfalques, Mourinho tem dado uma cara ao time (Arte/TacticalPad)

Aos trancos e barrancos, os Spurs chegam no mata-mata do campeonato europeu querendo surpreender, assim como em 2018/19. A tarefa será complicada, visto que as atuações em jogos mais fáceis não têm sido convincentes, tampouco nas partidas diante de rivais mais fortes. A vitória frente ao Manchester City, por 2 a 0, no início de fevereiro, foi a primeira contra uma equipe do top 6 na temporada, o que pode dar um “boost” de confiança nos jogadores.

Desde que o português assumiu a equipe, ainda que a mentalidade dele já esteja na cabeça dos jogadores, um modelo de jogo consistente ainda está longe de ser estabelecido – e essa nem parece ser a principal intenção de Mou. Não ter Kane e Sissoko, lesionados, além do vendido Eriksen, faz com que o encaixe dos reforços se torne uma das principais metas do técnico.

Mourinho busca, sobretudo, fazer com que a equipe seja competitiva novamente. E essa ideia será posta à prova diante do RB Leipzig.

Velocidade na definição

O Tottenham apresenta duas formas bastante distintas de sair jogando durante quase todas as partidas. Quando o adversário não pressiona alto, o time tenta trabalhar por baixo, com saídas curtas, utilizando Harry Winks e Lo Celso como os conectores da defesa com o ataque. Por razões como essa, o primeiro é um dos principais progressores com a bola, quantitativamente, na Europa.

Com a primeira linha formada por três jogadores, Winks e Lo Celso dão opção no meio. Na frente, a movimentação é grande, com Dele quase sempre se projetando para lançamentos

A equipe se arma em um 3-4-2-1, tendo Aurier oferecendo amplitude de um lado, e o extremo pela esquerda do outro. O trio de ataque é bastante móvel, com os dois jogadores atrás do atacante (que pode ser Son ou Lucas) buscando trocas de posição e tabelas rápidas. Os Spurs não apresentam tanta paciência para trabalhar a bola. Se o adversário não dá espaço desde a defesa, a equipe busca ele de modo mais direto.

Nesses casos, entra o importante papel de Alderweireld: com bolas longas, o zagueiro busca infiltrações de jogadores como Son e, principalmente, Dele Alli nas costas dos defensores rivais. Ele é o “quarterback” dos Spurs, e os números provam isso: já são 12 key passes do belga na Premier League, além de duas assistências em lançamentos.

50,2% – é a posse de bola média do Tottenham comandado por Mourinho, em 12 jogos da Premier League. Com Poch, no mesmo número de jogos nessa edição, o time ficava com a bola em 55,8% do tempo.

Sem a presença de um centroavante como Kane, que desce para organizar o jogo, a ideia é sempre acelerar os ataques. Com Dele atacando a área, Son, Lucas e Bergwijn sempre buscando a jogada individual, o Tottenham raramente mantém a bola por mais de dez segundos no campo ofensivo. Por isso, as perdas de posse são recorrentes, o que deixa, muitas vezes, os defensores expostos.

Defesa reforçada

Quando o time de Mourinho perde a bola em um momento que está estabelecido no ataque rival, há a tentativa de pressionar para retomar a posse na sequência. O papel de Lo Celso é muito importante nessa pressão pós-perda: o argentino, que normalmente está à frente de Winks, tem precisão nos botes para atacar o portador, e ótima visão de jogo para armar o ataque na sequência.

O 4-1-4-1 tem aparecido quando o time defende no próprio campo

Diferentemente do que ocorria com Poch, o Tottenham de Mou não se preocupa em baixar as linhas para controlar o jogo sem a bola. Os números defensivos da equipe, nessa temporada, melhoraram bastante com o português, o que mostra que a estratégia tem gerado frutos. Ora com duas linhas de quatro, ora em um 4-1-4-1, o time tem a incumbência de proteger a área e suas redondezas de maneira zonal, mas com encaixes individuais em situações esporádicas (como nos jogos diante do Liverpool e do City).

51 – é o número de chutes permitidos pelo Tottenham, na Premier League, sob o comando de Mourinho. São praticamente 4 por jogo, contra os 6 chutes que o time sofria, por partida, quando comandado por Poch neste campeonato.

Atuando assim, cresceram defensores como Sánchez e Tanganga, que se estabeleceram na equipe titular. O segundo, inclusive, tornou-se o coringa de Mourinho, atuando em todas as posições da defesa e sempre entregando um bom senso de cobertura e antecipação. No entanto, ele deve ser reserva de Davies na Champions League, já que o lateral pode tanto formar a linha de três como partir para o ataque pelo flanco.

A fragilidade na defesa segue sendo a proteção à entrada da área. Winks tem ótima leitura para cortar passes, mas não é uma presença física como os primeiros volantes do técnico português costumavam ser. Por ter um grande campo para proteger, ele pode deixar espaços que não são tão bem cobertos por Lo Celso, que não é um meia defensivo por essência.

Um duelo frenético

Assim como o Tottenham, o RB Leipzig é um time que busca ganhar partidas se aproveitando de suas rápidas transições ofensivas. Ao mesmo tempo, os alemães pressionam alto, praticamente o tempo todo, o que vai obrigar o time de Mourinho e trabalhar de modo direto. Essas características levam a crer que o jogo será “acelerado”, com muitas chances de gol e alternações de posse.

Caso opte por uma postura mais conservadora, para travar a velocidade do time de Nagelsmann, o Tottenham terá sua área bastante atacada, já que conta com pouca proteção à sua frente. Grandes performances dos defensores são mais do que exigidas para que o time saia em vantagem desde o primeiro duelo.


A VERSATILIDADE DE JULIAN NAGELSMANN

Por filosofia da instituição esportiva e estilo de jogo, o Red Bull Leipzig possui um dos projetos mais entusiasmantes do futebol europeu. E, em um 2019/20 repleto de expectativas com a chegada do jovem treinador Julian Nagelsmann, o time da famosa multinacional das bebidas energéticas vai completando uma temporada verdadeiramente sólida em termos de resultados: atualmente ocupa a segunda colocação da Bundesliga com 45 pontos, um a menos em relação ao atual líder Bayern München. Na Champions League, por sua vez, o Leipzig terminou como campeão do seu grupo com 11 unidades conquistadas e conta com apenas uma única derrota na competição continental.

Nagelsmann formata a equipe de diferentes formas

RB Leipzig e Nagelsmann funciona como um casamento que tem tudo para dar certo. Isso porque o projeto da Red Bull envolve a captação e o desenvolvimento de jovens jogadores promissores, além de visar, em um futuro não muito distante, interromper a dinastia bávara no futebol alemão.

A chegada do jovem treinador é bastante importante no processo para dar o passo adiante no planejamento, considerando especialmente que Julian ficou marcado pela influência na evolução de diversos jogadores durante sua passagem pelo Hoffenheim, como nos casos de Niklas Süle, Kevin Vogt, Sebastian Rudy, Karem Demirbay e entre outros.

Outra escalação comum tem Nkunku e Adams como titulares
Os touros camaleônicos

Se em Sinsheim, Julian Nagelsmann construiu três versões bem distintas do Hoffenheim em três temporadas diferentes – sendo um time de contragolpes, o outro de domínio através da posse de bola e o último caracterizado pelo jogo direto -, as constantes mudanças também estão sendo aplicadas no Leipzig, sobretudo no que diz respeito aos sistemas táticos utilizados.

Só para se ter uma ideia, 5-4-1, 5-3-2, 3-4-2-1, 4-3-3 e 4-4-2/4-2-2-2 já foram utilizados neste ano. E apesar dessa ser a maior diferença na comparação com os treinadores anteriores (Ralph Hasenhüttl e Ralf Rangnick), o comportamento agressivo contra saída de bola adversária, o ritmo altíssimo com o esférico e o jogo vertical baseado transição, os pilares futebolísticos da filosofia do clube, permanecem os mesmos.

Outro ponto importante, tem sido a utilização de sistemas híbridos por parte de Julian Nagelsmann, variando taticamente em fases com e sem a bola e aproveitando do elenco polivalente que tem em mãos.

Neste exemplo, o time ataca em um 3-4-2-1
Para defender, a equipe varia a marcação para um 4-2-3-1

Sobre o comportamento em fase ofensiva, é necessário destacar que o Leipzig não é uma equipe não se sente confortável dentro de longos períodos de ataque posicional. E por mais que seja um conjunto um pouco horizontal em seus primeiros toques na saída de bola com seus zagueiros e laterais, quando os passes encontram jogadores como Konrad Laimer, Christopher Nkunku, Marcel Sabitzer ou o recém-chegado Dani Olmo, a tendência é que a bola não voltar mais.

Isto ocorre por causa da clara tendência vertical dos Roten Bullen para buscar o ritmo alto com o esférico em campo contrário, com o objetivo de acelerar as jogadas a partir de combinações rápidas para ativar determinadas peças, como Timo Werner e Sabitzer ao espaço.

Se trata de uma equipe bastante ameaçadora quando encontra os espaços necessários para alternar o ritmo, tabelar e utilizar o conceito do terceiro homem para produzir ocasiões:

Gol de Schick diante do Fortuna Düsseldorf é criado a partir de bola longa de Klostermann

Outro ponto interessante nesta temporada, é o posicionamento aberto de Timo Werner em muitos momentos das partidas, especialmente em situação de transição, para poder oferecer desmarques de ruptura e chegar à máxima velocidade na meta adversária. O jovem atacante de 23 anos está sendo letal no último terço de campo, tendo anotado 25 gols e dado outras 10 assistências em 31 partidas por todas as competições.

Além disso, Werner evoluiu bastante em termos associativos, pois está presente nos apoios e constante nas combinações fora da área. E recentemente o camisa 11 tem formado uma dupla de ataque bastante complementária com o centroavante tcheco Patrik Schick, que, ademais de ser um receptor do jogo direto e das bolas longas, também está movendo-se bem sem a bola e vive um inspirado momento goleador, registrando cinco tentos marcados nas suas últimas seis titularidades.

Agressão para recuperar

O trabalho sem bola do Red Bull Leipzig é marcado por uma série de comportamentos agressivos. É a partir de sua pressão alta/média-alta em fase defensiva que a equipe busca se adaptar para neutralizar as principais peças adversárias  já logo nos primeiros toques, induzindo e forçando erros em zonas delicadas do campo, para, na sequência, recuperar e iniciar contragolpes/ataques já próximo da baliza contrária.

O intenso trabalho de pressão pós-perda, por sua vez, exige um acerto técnico notável dos defensores, sobretudo após a saída do meio-campista Diego Demme, um ativo lançando pressões e roubando bolas de imediato.

As debilidades da equipe comandada por Julian Nagelsmann, passam pelo timming na questão da pós-perda e da correção de problemas na transição defensiva. Com a bola, os problemas estão relacionados pela dificuldade que o Leipzig apresenta quando precisa ter a iniciativa em um evidente e longo cenário de ataque posicional contra equipes recuadas – como no caso do duelo contra o Eintracht Frankfurt, no início deste mês.

E por fim, reduzir as constantes perdas cometidas quando o necessita sair de maneira curta e elaborada desde a base será importante. O clube da Red Bull cometeu diversos erros próximos de sua própria meta, algo manifesto nos dois gols sofridos durante a  derrota por 0-2 para o Olympique Lyonnais e no empate em 2-2 com o Borussia Mönchengladbach.

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