Defender ideias em dia de goleada

Numa Liga Portuguesa onde a competitividade é um problema ainda longe de estar resolvido, a forma como se enfrenta os grandes pode definir a ideia que se tem de uma equipa. Mas, esse dia, mais do que um tribunal, pode transformar-se numa oportunidade para perceber como os processos de jogo podem ser testados com vista aos jogos futuros. Neste texto, Luís Cristóvão aborda a possibilidade de uma goleada sofrida não chocar com o processo de desenvolvimento de uma ideia de jogo.

Devemos criticar ou podemos elogiar um treinador que procura transformar um jogo, não numa necessidade de somar pontos, mas numa oportunidade para construir equipa? O futebol profissional afasta-nos demasiadas vezes deste processo que, necessariamente, tem riscos e pode ter leituras que quebram o desenvolvimento do trabalho de um treinador num clube. Mas, na realidade, qualquer treinador saberá aceitar que, no decorrer de uma competição, existem momentos diferentes e formas diferenciadas de abordas as partidas, numa lógica que pretende, no final das contas, encontrar o melhor compromisso entre ideia de jogo e pontos somados.

Essa questão coloca-se de forma mais acentuada quando abordamos a competitividade dentro de um campeonato. Na Liga Portuguesa, o nível de talento dos três principais clubes está bastante distanciado dos restantes clubes. Um pouco como viver numa realidade onde existem duas provas dentro da mesma, algo que até se comprova pela capacidade de deter a bola. Ao contrário das ligas do Top 5 europeu, na Liga Portuguesa, ao fim de quinze jornadas, só cinco equipas têm uma média de posse acima de 50%.

Numa Liga de menor competitividade, grande parte das equipas são incentivadas a transformar-se em conjuntos de mentalidade defensiva. Os jogos com maior audiência são os jogos dos três grandes e é nesses encontros que se “decide” quais as equipas que conseguem lutar frente aos melhores. Naturalmente, a forma como se avalia tem quase sempre que ver com boa organização defensiva, capacidade de saída no contra-ataque, conhecimento e domínio das bases das transições – como não se desequilibrar quando passamos do ataque para a defesa e da defesa para o ataque. Se estas podem ser consideradas unidades de base da construção de uma equipa, não serão necessariamente aquelas que levarão as equipas a serem mais fortes na maioria dos jogos do campeonato, onde a exigência de construção e as ideias de ataque mais pousado serão reivindicadas.

Mudar a forma como se abordam estes jogos pode trazer custos de imagem. Sair goleado por 0-4 ou por 7-1 nunca é um resultado que fique bem na análise mais fria e afastada daquilo que acontece em campo. Nenhum adepto se demonstra satisfeito por ver a sua equipa goleada. Mas a realidade das equipas pode trazer-nos outras leituras. Podemos dizer que uma equipa que perdeu por 7-1, abordando um jogo com risco na pressão, explorando ideias de jogo ofensivo e agressividade na distribuição dos elementos em campo, expondo-se, naturalmente, na forma como organiza o seu bloco e como pode fazer as readaptações para a transição defensiva e ofensiva, está melhor do que a mesma equipa, com outro treinador, que optou por defender-se a perder por poucos há uns meses atrás. Perante este quadro, não serei daqueles que vai hesitar na forma como as equipas se podem comportar.

Tal como Eduardo Galeano, por vezes encontro-me como um mendigo do bom futebol, esperando que alguma coisa aconteça que me estimule a emoção ou o intelecto. Qualquer coisa que acentue a diferença para o que recebemos habitualmente. A normalização do futebol não contribui muito para isso. O jogo perdeu as suas características regionais e transforma-se num processo igual um pouco por todo o mundo, agarrado à ideia de uma eficácia que nem sempre é a forma mais eficiente de retirar o melhor rendimento de cada jogador. Prefiro equipas que procuram processos de identidade correndo riscos para crescer, do que equipas que temem o seu crescimento e se mantém sempre agarradas à segurança do não sair do guião. E, em cada momento, o dever do treinador é o saber sempre procurar o melhor para o seu conjunto. Por vezes, sair goleado, não deixa de ser uma forma de encontrar respostas para as perguntas que ainda lhes vão fazer. Creio que terá sido isso que aconteceu ao Vizela de Álvaro Pacheco e ao Marítimo de Vasco Seabra.

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