25 ANOS DO TETRA - O ESPINHOSO CAMINHO ATÉ A COPA

Por Rodrigo Coutinho Há 25 anos, no Soldier Field, em Chicago, começava a 15ª edição da Copa do Mundo. Disputada pela primeira vez nos Estados Unidos, a competição marcou o quarto título mundial da história da seleção brasileira. Este especial se dedica a contar e contextualizar a trajetória daquela equipe. Dissecar a conquista. Um time subvalorizado […]

Por Rodrigo Coutinho

Há 25 anos, no Soldier Field, em Chicago, começava a 15ª edição da Copa do Mundo. Disputada pela primeira vez nos Estados Unidos, a competição marcou o quarto título mundial da história da seleção brasileira. Este especial se dedica a contar e contextualizar a trajetória daquela equipe. Dissecar a conquista. Um time subvalorizado pela opinião pública nacional, e que muitas vezes é lembrado somente pelas brilhantes atuações de Romário naquela ocasião. O Brasil de 1994, do estigmatizado Carlos Alberto Parreira, é muito mais do que se costuma dizer.

 

O time que foi campeão em 17 de julho passou por muita coisa. E você verá todos os detalhes aqui. Crédito: CBF
O time que foi campeão em 17 de julho passou por muita coisa. E você verá todos os detalhes aqui. Crédito: CBF

 

Dividimos o especial em oito textos. Neste primeiro, vamos abordar a preparação, explicar o porquê da extrema pressão em cima daquele grupo de jogadores. Detalhar as transformações táticas promovidas no time, e os jogadores que participaram do conturbado ciclo. Dispa-se de preconceitos e ditados populares, mergulhe conosco nessa história pra lá de especial.

Jejum de Copas

Antes de mais nada é necessário contextualizar o momento histórico pré-Copa 94. O Brasil completava 24 anos sem vencer um Mundial. Algo que hoje não parece tão absurdo, na época era tratado como calamidade. Mesmo ganhando a Copa América de 1989 e possuindo uma geração muito talentosa, as ‘’decepções’’ com grandes craques na década de 80, as atuações irregulares do restante da década de 70, eram um peso desumano nos ombros dos jogadores e da comissão técnica comandada por Parreira.

Pudera, desconsiderando a visão romântica e distante da realidade que acompanhamos até hoje em grande parte da mídia esportiva brasileira, havia uma geração de torcedores forjada ouvindo histórias de um tempo em que o Brasil venceu três de quatro Mundiais. Craques como Pelé, Garrincha, Nilton Santos, Didi, Gérson, Rivelino, Jairzinho, Tostão, Amarildo, Vavá e Carlos Alberto Torres eram uma grande ‘’sombra’’. Para completar, a década de 80 deixou a sua ‘’contribuição’’ com um futebol mágico praticado pela equipe de Telê Santana e o talento de Zico, Falcão, Sócrates, Junior, Leandro, Cerezo, Edinho, Careca, Oscar, Luizinho e companhia.

 

O time do Brasil na Copa América de 1993, eliminado pela Argentina, e sem poder contar com as principais peças que atuavam no futebol europeu. Crédito: CBF
O time do Brasil na Copa América de 1993, eliminado pela Argentina, e sem poder contar com as principais peças que atuavam no futebol europeu. Crédito: CBF

 

Fazendo uma imersão no cenário traçado acima, podemos também acrescentar um ciclo repleto de fatores que contribuíram para o caos instaurado. A começar pelo desempenho nas duas Copas América do período. Em 1991, ainda comandada por Paulo Roberto Falcão, a seleção brasileira, em processo de renovação, acabou se classificando em 2º lugar em seu grupo na 1ª fase, atrás da Colômbia. Na fase final, perdeu o título para a Argentina. Resultado normal, mas que foi mal ‘’digerido’’ pela opinião pública na época. Já em 1993, com Parreira, mas sem poder usar os principais jogadores que atuavam na Europa, o Brasil caiu novamente para a Argentina. Desta vez na disputa por pênaltis, nas quartas de final. O que acabou ficando em ambos os casos, porém, foi o desempenho inconsistente do time, algo natural mediante a realidade.

Carlos Alberto Parreira

Depois da queda de Paulo Roberto Falcão na Copa América de 91, Carlos Alberto Parreira assumiu o time em outubro daquele mesmo ano. Ele estava longe de ser o mais cotado ou preferido da torcida. Muita gente pedia o retorno de Telê Santana, que iniciava mais um grande trabalho no São Paulo, mas a responsabilidade ficou mesmo a cargo do professor de educação física nascido na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Parreira não era nenhum menino. Tinha 47 anos e uma vasta experiência em comissões técnicas. Foi auxiliar de preparação física com apenas 26 anos na conquista do tri em 1970. Iniciou sua carreira no São Cristóvão em 1967. Havia feito muitos trabalhos no Oriente Médio e passado por Fluminense, onde foi campeão brasileiro em 1984, e também no Bragantino (vice-brasileiro em 1991). Chegou a treinar a Seleção num curto período em 1983, na época uma aposta do então presidente da CBF, Giulite Coutinho, mas não suportou as pressões e foi demitido.

Para dar respaldo e ter mais experiência na comissão técnica, trouxe de volta Mario Jorge Lobo Zagallo, que em 1994 chegaria ao seu quarto título mundial, os dois primeiros como atleta, e o outro como técnico em 1970. Ao contrário do que se prega, Parreira não era um técnico adepto de equipes defensivas. Como veremos abaixo, escalou em boa parte do ciclo, Raí como segundo homem de meio-campo. Na verdade, o Brasil de 1994 tinha características específicas de controle do jogo. Detalharemos tudo ao longo desta série.

 

Zagallo e Parreira trocam ideis antes de um jogo na Copa de 1994. Foto: CBF
Zagallo e Parreira trocam ideis antes de um jogo na Copa de 1994. Foto: CBF

 

Desafios do ciclo e problemas com Romário

Era outra época no futebol. Não haviam as ‘’Datas Fifa’’. As Seleções ao redor do mundo marcavam os seus amistosos de forma mais aleatória e contavam com a boa vontade dos clubes europeus na liberação dos atletas. A grande maioria não cedia, apenas em jogos de Eliminatórias, quando o calendário do ‘’Velho Mundo’’ também contemplava compromissos das seleções locais. Dá pra imaginar então as dificuldades de montar uma equipe, ter sequência de jogos e alguns treinamentos com o grupo completo. Ao todo naquele ciclo foram convocados 73 jogadores. Em muitas partidas era um selecionado montado apenas por jogadores que atuavam no futebol brasileiro.

 

Nesta foto temos um exemplo do que foi citado acima. Raí observa o abraço de Valdeir e Palhinha, dois jogadores que eram destaques no futebol nacional, mas que com os 'estrangeiros' no grupo, não teriam chances. Foto: CBF
Nesta foto temos um exemplo do que foi citado acima. Raí observa o abraço de Valdeir e Palhinha, dois jogadores que eram destaques no futebol nacional, mas que com os ‘estrangeiros’ no grupo, não teriam chances. Foto: CBF

 

Por mais que o êxodo para a Europa não fosse tão forte no início da década de 90, já havia um número considerável de estrelas brasileiras fora do país. Basicamente o time titular inteiro por exemplo. Não bastasse essa questão, Parreira ainda entrou em rota de colisão com um dos principais nomes da geração. Romário se queixou de ficar no banco para Careca e Bebeto em um amistoso contra a Alemanha em 1992. O técnico não gostou e só voltou a chamá-lo no último jogo das Eliminatórias, a vitória por 2×0 contra o Uruguai no Maracanã, em setembro de 1993. O que o Baixinho fez naquele jogo é digno de filme. Uma das maiores atuações individuais de um atleta na história do futebol brasileiro. Garantiu na ‘’marra’’, no clamor popular e, especula-se, na pressão da diretoria da CBF, um lugar no time.

Eliminatórias

Se marcou a arrancada anímica e o início do ajuste da equipe para o Mundial, as Eliminatórias de 1993 deixaram também um incômodo parágrafo na história daquele time. O Brasil nunca havia perdido um jogo na competição. Acabou derrotado pela competitiva seleção boliviana em La Paz, logo na segunda partida da campanha. Novamente algo que poderia ser tratado de forma mais complacente pela opinião pública. Aquela seleção boliviana não era um time horroroso. Etcheverry, Baldivieso, Erwin Sanchez e Cristaldo eram alguns dos bons jogadores do selecionado. Se somarmos às condições de gramado e os efeitos da altitude, teremos um cenário bem complicado. Mas a repercussão foi a pior possível. A pressão aumentou demais naquele momento!

O empate na estreia contra o Equador, também na altitude, mas em Quito, colaborava para colocar mais ‘’lenha na fogueira’’. Na sequência, uma vitória por 5×1 contra a Venezuela, em San Cristóbal, fez pouca diferença pelo nível do adversário. O grande oponente do grupo era o Uruguai. A seleção havia perdido dois amistosos para a Celeste naquele ciclo e empatou em Montevideo jogando mal. Depois de quatro jogos fora, era a vez de decidir em casa. Àquela altura, a Bolívia liderava a chave com quatro pontos de diferença para Brasil e Uruguai, empatados na segunda colocação. Dois se classificavam.

O primeiro jogo em casa foi contra o Equador, no Morumbi. A Seleção venceu por 2×0, mas o futebol novamente não convenceu e vaias foram ouvidas. Mais até do que o ajuste tático necessário para uma equipe que mal havia jogado junto em sua totalidade no ciclo, a parte psicológica pesava muito. A pressão era imensa e a maioria dos jogadores sentia a realidade. A proposta então foi levar os jogos para o Nordeste, onde a torcida teoricamente era menos crítica na visão dos dirigentes brasileiros. De uma certa forma, acabou dando certo.

 

Romário deixa o goleiro uruguaio pra trás em uma de suas maiores atuações da carreira. Vitória brasileira por 2x0 carimbou a vaga para o Mundial. Foto: CBF
Romário deixa o goleiro uruguaio pra trás em uma de suas maiores atuações da carreira. Vitória brasileira por 2×0 carimbou a vaga para o Mundial. Foto: CBF

 

Com mais carinho do público, já no Estádio do Arruda, a Seleção, que entrou em campo de mãos dadas pela primeira vez, enfiou um 6×0 na Bolívia, com cinco dos gols ainda no 1º tempo. Na sequência, no Mineirão, um 4×0 sobre a Venezuela aumentou a confiança para o grande jogo do Maracanã na rodada derradeira. Por mais que o empate classificasse a Seleção, o fantasma do ‘’Maracanazo’’ de 1950, com a mesma seleção uruguaia e condições idênticas, assombrava a todos. O show de Romário garantiu a vaga!

Parte Tática

Muitos apontam aquela seleção como um time que produzia um futebol sem brilho, distante até mesmo de um padrão ofensivo. Não é verdade! Ao longo deste especial você terá motivos para desmistificar esta realidade distorcida por um olhar excessivamente estereotipado. O primeiro indício é a escalação do principal jogador da equipe no início do trabalho de Carlos Alberto Parreira. Raí era o atleta do momento em solo brasileiro entre 1991 e 1993. Meia de origem, atuava mais recuado, como uma espécie de segundo homem de meio muitas vezes. Organizando de trás, infiltrando, fazendo o jogo girar a partir da sua movimentação. Pelos lados, jogadores bem agudos. E uma dupla de ataque de respeito sempre.

 

A base do time que atuou só com jogadores que atuavam no Brasil no início do trabalho de Parreira
A base do time que atuou só com jogadores que atuavam no Brasil no início do trabalho de Parreira

 

A ideia era ter a bola sempre. Não havia estratégia reativa, de contra-ataque, como muita gente acaba dizendo daquela seleção. O Brasil jogava com a posse, liberava os laterais ao mesmo tempo, prendia um dos volantes junto aos zagueiros e dava liberdade posicional aos quatro homens mais avançados. Bem ao estilo do futebol brasileiro, não era um ataque mais ‘’posicional’’. Os atacantes alternavam entre a profundidade e a movimentação na intermediária, também caíam para os lados. Os meias pisavam na área, entrando em diagonal, e fazendo movimentos para o centro do campo, se aproximando para articular.

 

Quando podia contar com os 'estrangeiros', o time base era esse
Quando podia contar com os ‘estrangeiros’, o time base era esse

 

Há muitos gols feitos em tabelas pelo centro do campo, trocas de posição, plasticamente muito bonitos em todo aquele ciclo. Quase sempre com Raí como protagonista num primeiro momento, e tendo outros atletas crescendo na sequência. Luís Henrique perdeu força na reta final, mas foi primordial no início da montagem do time. Careca, Evair, Renato Gaúcho, Antônio Carlos, Roberto Carlos, Edmundo, César Sampaio, Luis Carlos Winck e Elivélton são outros nomes que acabaram ficando de fora na lista final, mas em algum momento foram protagonistas.

Defensivamente era uma equipe que marcava como a grande maioria dos times da época. Trabalhava com encaixes e perseguições. Como muitos times jogavam com dois atacantes, Mauro Silva grudava em dos ”avantes” rivais para que um dos zagueiros ‘’sobrasse’’ e fizesse as coberturas na última linha defensiva. O camisa 5 foi, ao longo de todo o ciclo, o ponto de equilíbrio da equipe. Muita pegada na marcação, velocidade, e uma saída de bola que não era brilhante, mas  não comprometia.

 

O time que enfrentou o Uruguai no Maracanã, na última rodada das Eliminatórias. Arte: Filipe Borin
O time que enfrentou o Uruguai no Maracanã, na última rodada das Eliminatórias. Arte: Filipe Borin

 

Pré-Copa

Mesmo com a classificação conquistada com grande atuação no Maracanã no ano anterior, a Seleção chegou à Copa desacreditada. Como sempre acontece, havia muita contestação em torno de alguns nomes convocados por Parreira. O grupo tinha vários jogadores que haviam fracassado em 1990, e isso aumentava ainda mais o tom das cobranças. Esses atletas acabaram ganhando importância naquele grupo, o que não soava tão bem para quem ainda tinha na memória a eliminação para a Argentina.

Alguns percalços de última hora também contribuíram para o cenário de histeria coletiva. O Brasil fez três amistosos na preparação já em solo americano. Empatou em 1×1 com o semi-amador Canadá, e goleou Honduras e El Salvador. Parreira acabou fazendo muitos testes na equipe, o que dificultou uma impressão coletiva mais contundente antes da estreia. Para completar, perdeu dois de seus principais zagueiros por lesão. Mozer e Ricardo Gomes foram cortados. Aldair, que acabaria com um dos destaques da conquista, e Ronaldão foram chamados. Branco, Romário e Raí também tiveram problemas físicos antes do início do Mundial.

No próximo episódio: A estreia contra a Rússia.

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Rodrigo Coutinho

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