A DERROCADA DE UM TIME EM AGONIA

Por Eduardo Madeira O dia 15 de maio de 2010 está gravado na memória de cada torcedor do Auxerre. Todos lembram com carinho e fidelidade de fatos da arrancada de Maxime Bourgeois pela esquerda e do cruzamento preciso na cabeça de Cedric Hengbart, que venceu o goleiro adversário Teddy Richert e anotou o gol da […]

Por Eduardo Madeira

O dia 15 de maio de 2010 está gravado na memória de cada torcedor do Auxerre. Todos lembram com carinho e fidelidade de fatos da arrancada de Maxime Bourgeois pela esquerda e do cruzamento preciso na cabeça de Cedric Hengbart, que venceu o goleiro adversário Teddy Richert e anotou o gol da vitória por 2 a 1 sobre o Sochaux, aos 45 minutos do 2º tempo.

Dos mais de 180 jogos que fez pelo clube, aquele, certamente, foi o mais marcante para o lateral-direito. Era a última rodada do Campeonato Francês e o gol de Hengbart, que foi o segundo dele na partida, colocou o Auxerre à frente do Lille, na terceira colocação, qualificado para a Liga dos Campeões na temporada 2010/11.

O AJA está longe de ser um time inexpressivo e sem carreira internacional. Disputava torneios europeus desde 1984/85 e chegou a ser semifinalista da antiga Copa da Uefa em 1992/93. Porém, o gol de Hengbart significou a primeira classificação para a Liga dos Campeões desde 2002/03 e a volta a torneios continentais após quatro temporadas.

Mas como diria o velho jargão: quanto mais alto o salto, maior a queda. Não muito tempo depois, o Auxerre, que em 2011 recebia Ronaldinho, Cristiano Ronaldo e Suárez em partidas contra Milan, Real Madrid e Ajax, respectivamente, pela Liga dos Campeões, hoje se atola na segunda divisão francesa e com futuro sombrio pela frente.

REBAIXAMENTO PRECOCE

Se todo 15 de maio é motivo para o torcedor do Auxerre lembrar da cabeçada certeira de Hengbart, o dia 13 do mesmo mês entrou para o quadro negativo de memórias. Nesse dia, em 2012, o AJA foi atropelado pelo Marseille, perdeu por 3 a 0 e sacramentou, com uma rodada de antecedência, o rebaixamento para a segunda divisão francesa.

Não dá para dizer que foi injusto. O time entrou na zona de rebaixamento na 21ª rodada e, dali em diante, conseguiu ficar apenas uma vez fora dela. Somado a isso, a campanha em casa foi a terceira pior e fora venceu somente um jogo.

Um fato histórico por vários recortes. O Auxerre, campeão nacional em 1996, era presença certa na primeira divisão do país desde 1980/81. Quase sempre com posição de destaque, como bem descreve o site L’Obs, o que o clube fez foi praticamente um milagre.

“Em uma cidade provinciana, de menos de 40 mil habitantes, o milagre durou temporada após temporada. Famosa em toda a Europa pelo futebol, tanto pelo seu centro de treinamento quanto pelo icônico ex-treinador Guy Roux, a AJA conseguiu cultivar milagrosamente sua imagem do futebol ao longo dos anos”.

Como aconteceu com boa parte dos clubes franceses, o Auxerre foi vítima de erros administrativos brutais de donos gananciosos que tomaram atitudes que muito prejudicaram seus rumos. No caso do AJA, o personagem em questão é Jean-Claude Hamel.

De 1963 a 2009, foi ele quem presidiu o clube e decidiu cada passo dado. Indiscutivelmente, foi um presidente importante na gestão econômica e que ajudou a construir a grandeza do clube. Indiscutivelmente, é o presidente mais importante de sua história, mas o processo de transição entre a aposentadoria e o sucessor foi turbulento. Hamel apoiou Alain Dujon, um desconhecido empresário que foi alçado ao status de presidente após três meses como dirigente.

Não tardou muito no posto. Em 2011, ainda antes do rebaixamento, o ex-vice-presidente Gérard Bourgoin, apoiado por Hamel, além do ex-treinador Guy Roux, derrubou Dujon da presidência após polêmica assembleia que até hoje gera controvérsias no clube.

Bourgoin foi presidente até 2013, sendo substituído por Guy Cotret, que ficou no clube até 2017, quando foi substituído pelo experiente Francis Graille, que já foi mandatário de clubes como Lille e PSG. Bom frisar que desde 2016, o AJA pertence ao grupo chinês ORG Packaging, vendido por 7 milhões de euros.

INEXPRESSIVIDADE EM CAMPO

As conturbações internas pesaram dentro de campo. O imediato retorno à primeira divisão, que seria previsível para um clube do porte do Auxerre, não aconteceu. O AJA nunca conseguiu lutar pelo acesso desde seu rebaixamento, e para piorar, bateu a porta da terceira divisão em dois momentos.

Em 2013/14, o flerte com a terceira divisão foi intenso. Entretanto, vitórias sobre Le Havre e Arles Avignon na 36ª e 37ª rodada fez com que chegasse a partida decisiva dependendo das próprias forças para evitar a queda. Em casa, no mítico Abbé Deschamps, o empate sem gols com o Nancy foi suficiente para se manter na segunda divisão. Tropeços do Laval e do Chateauroux, que foi rebaixado, ajudaram também na combinação de resultados.

O susto voltou três temporadas depois. O AJA ficou na zona de rebaixamento por 18 rodadas, mas uma sequência invicta no mês de abril, com três vitórias e um empate, deixou a situação menos desesperadora e o rebaixamento foi evitado após vitória pelo placar mínimo sobre o Red Star na rodada final.

No meio do caminho, o único respiro aliviado do Auxerre foi em 2014/15, quando chegou à final da Copa da França. Facilitado por um caminho onde só encontrou time de primeira divisão na semifinal, o AJA só foi brecado pelo poderoso Paris Saint-Germain na grande decisão.

Olhando para agora, o começo da atual temporada não é nada animador. O elenco foi totalmente reformulado e o time perdeu muitos titulares, como o goleiro Zacharie Boucher, emprestado ao Angers, e o jovem zagueiro Evan N’Dicka, de apenas 18 anos, que foi vendido ao Eintracht Frankfurt e nem bem jogou pelo clube que o formou.

Além disso, a fórmula de misturar jovens promessas, como o argentino Daniel Mancini, de 21 anos, e Lamine Fomba, de 20, com atletas experientes, como Julien Féret, de 36, e Romain Phillippoteaux, de 30, não tem dado o tempero esperado, mesmo com a presença do tarimbado técnico uruguaio Pablo Correa no banco de reservas. Até agora, em 14 rodadas, apenas quatro vitórias, dois empates e oito derrotas, ocupando a 16ª colocação.

O plano de retorno para a primeira divisão está em stand by. No momento, o Auxerre pede socorro. O clube que formou Eric Cantona, Basile Boli e Djibril Cissé, de história tão rica e torcida tão fanática, está à beira do caos e agonizando em busca de um norte para seguir.

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