A dúvida do AS Monaco: quantidade ou qualidade?

Com janelas lucrativas, os negócios fora de campo tocaram as últimas temporadas do Monaco. Mas, desconsiderando qual tipo de jogo jogar, a equipe teve uma queda vertiginosa em seu nível atingindo o limite com Leonardo Jardim no comando.

A temporada de 2016/2017 ficará marcada na história do AS Monaco e do futebol francês como uma das mais especiais da história. Além da grande campanha na Ligue 1 da época, a equipe treinada por Leonardo Jardim e liderada por jogadores como Benjamin Mendy, Bernardo Silva e Radamel Falcao García foi semifinalista da UEFA Champions League. Mas, a partir daí, a postura da equipe em relação ao elenco e qual filosofia adotar foi clara: o negócio ganhou prioridade sobre o jogo e o clube monegasco teve uma atividade financeira digna de um banco.

Com milhões sendo arrecadados, ficou claro que deixaram o aspecto esportivo de lado e isso se refletiu no desempenho da equipe com o passar dos anos. Falcao continuou a empilhar gols, dando sequência à sua recuperação como atleta, e Rony Lopes, ponta que representou bem o verdadeiro estilo que Jardim defende, teve uma grande temporada. Mas, ao desconsiderar o jogo adotado pelo seu treinador, que se baseia bastante na solidez defensiva para atacar através do talento de forma agressiva, o Monaco se perdeu.

Entre as contratações de jovens de perfil diferente e aleatório visando o encaixe dos mesmos no onze (Tielemans é um jogador mais envolvido com um jogo de posse do que de físico e impacto, por exemplo) e ao desaparecimento gradativo dos jogadores que realmente sustentavam o sistema ofensivo (Sidibé e Mendy para empurrar e agredir com cruzamentos, Bernardo e Lemar para adicionar criatividade e fluidez por dentro, Fabinho e Bakayoko para garantir equilíbrio e movimento na faixa central, Falcao com seu posicionamento, jogo de costas e capacidade finalizadora e a explosividade de Mbappé), o ASM de Leonardo Jardim, que sempre foi um treinador de ideias e estilo definido, fato que também pode caracterizar o mesmo como inflexível, esteve condenado ao fracasso.

A janela de 2018/2019 foi a mais lucrativa em termos de saídas, mas totalmente desastrosa em relação aos jogadores contratados.

Após um ano de 2018-19 trágico, com a demissão, o período tragicômico de Thierry Henry e o retorno de Jardim para escapar do rebaixamento, o próprio técnico português disse ao L’Équipe que precisava de uma resposta da diretoria em relação aos jogadores e ao mercado para seguir no comando da equipe e assim competir bem na temporada 19/20. Entre mais contratações e vendas, considerando que os principais nomes (Ben Yedder, Slimani e Bakayoko) chegaram já na reta final da janela de transferências e da pré-temporada, sem ignorar que jovens promissores como Han-Noah Massengo e Khéphren Thuram deixaram o clube em busca de minutos, o time monegasco seguiu com um sério problema competitivo.

Buscando uma reação de seus jogadores dentro do futebol que defende e numa tentativa de reforçar a problemática faixa central da defesa, Leonardo Jardim adotou de forma definitiva o esquema de três zagueiros. Se, no papel, a intenção era clara ao improvisar dois jogadores de perfil ofensivo nas alas, com Gelson Martins na direita e Gil Dias na esquerda para adicionar poder de fogo aos ataques visando alimentar WBY e Slimani nas zonas de definição, a execução do sistema mostrou um resultado precário.

Com Ben Yedder e Slimani ausentes no processo, a organização defensiva era um verdadeiro convite para o adversário atacar explorando a largura.

Com encaixes e o exercício da pressão para tentar recuperar a bola de forma imediata, as intenções do ASM eram positivas, mas não eram viáveis dentro de sua filosofia. Sem um grande trabalho defensivo de Wissam e Islam para proteger o meio-campo e com os alas incapazes de bloquear o acesso pelos lados, enquanto a linha defensiva mostrava sérios problemas competitivos no aspecto individual com Jemerson e Kamil Glik, o desempenho da equipe esteve minado. Com seu sistema defensivo sendo superado de forma clara, a utilização da bola também não colaborou para a manutenção do mesmo ao longo dos jogos e, mesmo com Ben Yedder e Slimani produzindo de forma absurda (somados, os dois têm 21 gols e 13 assistências), o jogo da equipe acabou se caracterizando pelo caos total.

Segundo Kevin Jeffries, analista de dados da Opta, o Monaco teve a média de 2,5 passes antes de marcar um gol no primeiro turno da Ligue 1.

Adotando um jogo direto pautado pelo ritmo alto, sem se preocupar muito com os processos de construção de forma mais elaborada tendo jogadores como Cesc Fàbregas e Alexandr Golovin no meio-campo, era simplesmente impossível para o ASM sustentar um placar a seu favor durante noventa minutos, independentemente do nível do adversário (a partida contra o Strasbourg é um exemplo evidente) e o lado mais fraco, o sistema defensivo no individual e coletivo, sempre estourava.

Por fim, pelo alta quantidade de transferências e pela baixa qualidade de jogo, o tempo de Leonardo Jardim definitivamente acabou no Principado. Com dois grandes cheques e duas demissões num intervalo de duas temporadas, o treinador português acabou, de certa forma, ofuscando todo o bom trabalho realizado com a equipe nas temporadas passadas e Robert Moreno, antigo auxiliar de Luis Enrique na Espanha, foi o eleito para elevar o nível do jogo da equipe. Só resta saber se a diretoria, que há três temporadas faz mercados completamente incoerentes visando o planejamento dentro de campo, também mudará de postura.

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