Jogo com os pés: a evolução dos goleiros no Campeonato Brasileiro

Números mostram que, no Brasileirão, os goleiros têm acertado cada vez mais passes. A edição de 2019 apresenta exemplos que vão ao encontro dos dados.

Até pouco, a posição de goleiro vivia um paradoxo. Mesmo sendo a que mais evoluiu tecnicamente ao longo dos anos, seus profissionais não eram tão valorizados como os outros — ao menos no âmbito das transferências. O goleiro mais caro de todos os tempos foi, até 2018, Gianluigi Buffon, que custou pouco mais de €50 milhões à Juventus no início do século 21. A ida de Alisson ao Liverpool quebrou o recorde, e abriu a porteira para novas grandes contratações na função.

O recente boom nas transferências de goleiros pode ser explicado, claro, pelo aumento considerável dos valores pagos pelas equipes de maior poderio financeiro. A transcendência do papel do atleta para além de guardar a meta, entretanto, precisa entrar na conversa. Muitas equipes ao redor do mundo contam com o arqueiro como não somente o iniciador da construção do jogo, mas também como uma das peças chaves para sustentar a saída de bola ou para armar contra-ataques.

Melhor goleiro da última temporada, Alisson é seguro com as mãos e com os pés (Foto: Lucas Figueiredo/CBF)

Principais goleiros brasileiros na Europa, Alisson e Ederson foram escolhidos por seus times por apresentarem — além da qualidade debaixo das traves —  louvável capacidade de jogar com os pés, e são um reflexo de como o próprio Brasil tem lidado com a questão. Não à toa, o Campeonato Brasileiro de 2019 tem demonstrado diferentes cases de goleiros que são escolhidos e adaptados de acordo com o modelo de jogo da equipe. Será que os números comprovam a proeminência dessa característica na posição?

GOLEIROS MAIS PASSADORES

Comparando dados das últimas quatro edições do Campeonato Brasileiro, nota-se um avanço no número de passes certos dados por goleiros a cada jogo. Além disso, a taxa de acerto apresenta uma evolução notável: foram quase dez pontos percentuais a mais no torneio de 2019, até a 32ª rodada, em relação ao de 2016. Isso pode até não significar que eles têm sido mais utilizados, até porque o número de passes tentados é similar — mas prova que o trabalho dos arqueiros com os pés tem gerado melhores resultados quantitativamente

Os números, extraídos dos vinte goleiros considerados titulares em cada campeonato, mostram a tendência de aumento tanto da média de passes certos como do percentual de acerto. Em 2019, uma parte considerável do aumento se deu pela presença de jogadores com números muito acima da média. Santos, do Athletico, é o terceiro atleta da posição com mais passes certos por jogo. A inventividade de Tiago Nunes fez com que o camisa 1 se tornasse ainda mais importante para a saída de bola da equipe, aproveitando a nova regra que permite companheiros dentro da área desde o tiro de meta.

Everson e Felipe Alves, jogadores de Santos e Fortaleza, respectivamente, são bastante utilizados por conta do modelo de jogo de seus treinadores, e correspondem com um aproveitamento destacável. Cruamente, os números não distinguem a dificuldade desses passes (se foram para o lado ou para a frente, curtos ou longos), o que pode trair o goleiro mais “ousado”. No entanto, os dois atletas da posição mais estimulados a darem toques para frente são, justamente, os líderes no quesito geral.

Aos 29 anos, Everson foi escolhido a dedo por Jorge Sampaoli. O treinador argentino conta com o goleiro para sustentar a saída de bola, atraindo as linhas de marcação do adversário para si. Quando encontra um espaço à frente, o Santos busca verticalizar e acelerar a jogada, encontrando situações de igualdade ou até superioridade numérica. Muitas vezes, quem dá esse passe na direção do ataque é o próprio guarda-metas.

Como mantém muitos jogadores no ataque durante a construção da jogada, o Santos precisa de um goleiro que some como um jogador de linha na defesa. Por conta disso, o ídolo santista Vanderlei, mesmo entregando um ótimo nível debaixo das traves, foi preterido pelo favorito do treinador.

O Fortaleza de Rogério Ceni é outro time que gosta de sair com calma de trás. Felipe Alves não é o goleiro do campeonato com mais passes certos por jogo à toa. Com enorme qualidade trabalhando com os pés, o jogador oferece opção de retorno após cobrar o tiro de meta, quase sempre, curto. Facilmente, ele costuma inverter o lado da jogada ou encontrar o passe à frente. Essa habilidade permite que o técnico utilize-o quando a construção se dá quase no setor de meio-campo, como no exemplo abaixo, em que ele é o personagem central de uma linha de três.

ACELERAR TAMBÉM É OPÇÃO

O trabalho dos goleiros com os pés não se resume a toques para jogadores próximos. No Brasil, tanto equipes que saem curto como as que optam por acelerar os ataques garantem vantagens com arqueiros que possuem qualidades com os pés. Weverton, do Palmeiras, Fernando Miguel, do Vasco e Douglas Friedrich, do Bahia, são os três que mais acertaram lançamentos para o terço final do campo. O primeiro se destaca por puxar os contra-ataques da equipe, com bolas de distância média e longa, e se mostra extremamente valioso nesse aspecto.

A possibilidade de criar lances como esse explicam o fato de alguns torneios europeus apresentarem números similares aos do Campeonato Brasileiro. Na Premier League de 2018/19, por exemplo, o percentual de acerto nos passes foi menor que o do Brasileirão deste ano, e o de passes certos foi muito próximo. As transições rápidas que caracterizam o futebol inglês podem justificar o aproveitamento menor, já que os goleiros são instigados a lançarem ataques diretos. 

A equiparação do Brasileirão aos torneios de ponta mostra uma vontade de fazer diferente. O esforço de goleiros que, até pouco, não eram acostumados (ou exigidos) a trabalharem com os pés também é destacável. O vídeo de Cássio, do Corinthians, treinando passes curtos após tiro de meta, que repercutiu nas redes na última semana, é um exemplo disso. O aproveitamento do jogador melhorou consideravelmente nos últimos anos, e prova que a adaptação é fundamental no jogo atual.

Sejam longos ou curtos, os passes dados por goleiros têm sido, bem como eles próprios, cada vez mais valorizados. Exemplos positivos da utilização dos camisas 1 na saída de bola não faltam; nem na Europa, nem no Brasil. A tendência é que, no futuro, os números sejam ainda maiores. O crescimento visto no Campeonato Brasileiro é um pequeno reflexo das revoluções que, de tempos em tempos, a posição sofre — ou melhor, desfruta.

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