A falta de ar

A velocidade da vida e do jogo de futebol empurra-nos para uma situação onde parece que nos falta o ar. O jogo é tão rápido que a importância do oxigénio é cada vez mais percebida por todos, quando ainda vamos a tempo de definir o que queremos para o nosso futuro.

Num mundo onde tudo acontece cada vez de forma mais imediata, sem nos deixar tempo para a reflexão, a nossa procura por momentos de pausa é cada vez mais essencial para planear o passo seguinte. Mas quantas vezes nos deixamos enredar na necessidade de, também no que toca à reflexão, alimentar essa velocidade e imediatez que nos convoca a cada momento? É nessas alturas que a falta de ar nos obriga a olhar para trás e a perceber onde nos vamos encontrar no futuro.

O jogo rápido

O jogo decorre à máxima velocidade. A bola cada vez mais leve puxa o atleta para realidades de maior rapidez na decisão, na aproximação, na definição. Corpo e mente unem-se nessa corrida onde a sensação é a de estar sempre a ser ultrapassado. Os melhores jogadores, aqueles que dizíamos ser capazes de ver os lances com algum tempo de antecedência, não dependem já apenas do seu cérebro. São necessárias capacidades físicas específicas para corresponder ao que os olhos vêem, ao que o cérebro aponta.

As regras do jogo adaptam-se a estas necessidades. Contamos os segundos para repor a bola em jogo, perante um coro de protestos perante qualquer jogador que tente definir um outro ritmo. Esperamos que todos corram como se a sua vida disso dependesse – há os que falam em orgulho por representar o emblema, mas, no fundo, apenas querem que tudo aconteça numa concentração de fúria que nos afaste do pensamento. A forma como se pode jogar a bola dentro da área no momento do pontapé de baliza é um isco para uma pressão cada vez mais intensa, espalhada por todo o campo, não dando tempo ao jogador que levanta a cabeça sequer para levantar a cabeça.

E depois 2020/2021 oferece-nos ainda um calendário que poucos conseguem explicar de outra forma que não seja através da fúria. O extremismo de querer cumprir todos as mesmas obrigações, nos campeonatos nacionais, nas taças, nas provas continentais, nos compromissos comerciais, mas num tempo cada vez mais apertado, pela pandemia, pelo desejo do regresso ao normal, pela falta de capacidade de ver uma oportunidade para renovar onde tudo falha. O futebol exige tanto mais do atleta que há em cada futebolista que, em alguns momentos, quem pensa só em futebol não tem já onde ancorar o seu parco conhecimento.

A importância do oxigênio

À falta de ar destes tempos, cresce em nós a compreensão da importância do oxigénio. Talvez nos tenhamos habituado a respirar sem perceber que tudo exige preparação. Talvez alguém acreditasse que basta chegar e sentar para que o mundo ande. Para que o corpo responda. A ausência de planeamento para a situação específica torna-se aflitiva e os resultados ficam à vista, tanto no futebol, como na vida.

Se o calendário não foi alterado, então o percurso não será igual. Quem imaginou viver esta temporada como uma temporada normal, enganou-se rotundamente. Foi traído nas suas previsões. Condenou-se a errar na forma como tende, já com tudo em andamento, para uma correção que continua desacertada. Até para responder à velocidade é preciso ter parado um bom instante, para programar e delinear uma estratégia, para abraçar uma filosofia que nos preparasse para os desafios.

O jogo mudou, assim, de forma rápida também. Ainda procuramos, no meio da tempestade, quem o faz de forma consciente e quem o faz apenas respondendo aos estímulos. Não sabemos sequer quando é que as respostas nos serão claras. Para já, há que entender que a pressão que se exerce sobre esta temporada, num 2021 que nos trará ainda o Europeu de Futebol e a Copa América para constranger ainda mais as agendas de trabalho dos profissionais de futebol, vai continuar a ter réplicas pelas próximas temporadas.

Por isso mesmo, quando falta oxigênio em Manaus, quando nos falta a claridade para entender a corrupção de quem nos quer uns contra os outros, devemos perceber que a decisão de hoje não vai resolver o problema. Aliviando, sim, dar-nos-á um pouco mais de tempo para planearmos o passo seguinte. Este futebol que vivemos hoje é a possibilidade que o futebol de ontem nos ofereceu. O de amanhã depende ainda daquilo que formos capazes de fazer.

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Luís Cristovão

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