A GÊNESE DO 4-2-4 E A MOLDURA DE NOSSA ESCOLA, PARTE II

Capítulo II: De 1930 até a Copa de 1950: o 2-3-5 Danubiano, o nascimento do WM, o WW italiano e a chegada dos treinadores húngaros no Brasil Por @vlamhaoliveira O Rio Danúbio é o segundo mais longo da Europa, atravessando o velho continente de leste a oeste, desde sua nascente, que fica em território alemão, até […]

Capítulo II: De 1930 até a Copa de 1950: o 2-3-5 Danubiano, o nascimento do WM, o WW italiano e a chegada dos treinadores húngaros no Brasil

Por @vlamhaoliveira

O Rio Danúbio é o segundo mais longo da Europa, atravessando o velho continente de leste a oeste, desde sua nascente, que fica em território alemão, até desaguar no Mar Negro, no Delta do Danúbio, situado na fronteira entre a Romênia e a Ucrânia. O Danúbio corta o centro da Europa e percorre diversas grandes capitais como Viena e Budapeste, capitais da Áustria e da Hungria respectivamente. Como Hogan espalhou seus ensinamentos em torno do Rio Danúbio, sua escola de toques curtos e rápidos ficou conhecida como a Escola Danubiana.

Imagem 01 - Rio Danubio

Como já citado no capítulo anterior, a gênese do estilo húngaro que brilhou na década de 50, o futebol total da Holanda apresentado ao mundo na década de 70 e o desenvolvimento da consciência tática na escola do futebol brasileiro, têm como interseção o trabalho que Hogan fez na Europa Central.  Foi ele que ajudou Meisl a colocar sua visão em ação. Foi ele que promoveu um estilo que enfatizava um maior controle da bola, com passes curtos, criatividade, coletividade, passagens rápidas que necessitavam de atletas mais preparados fisicamente.

Meisl era um defensor da pirâmide, tinha grande apreço pelo 2-3-5. Alguns estudiosos lecionam que ele defendeu a formação até a década de 50. A década de 30 é importantíssima para a história da evolução tática. Além das diferentes execuções da pirâmide, que ganha diversificações influenciadas pela Escola Danubiana, é também nesta década que Herbert Chapman cria o WM (3-2-2-3), desenho que superou a pirâmide quase que como um degrau evolutivo e dominou o futebol por mais de vinte anos, até o início da década de 50.

Voltando ao início da década de 30, nosso ponto de partida neste segundo capítulo de nossa série, o 2-3-5 continuava sendo a formação básica, mas o estilo de jogo escocês de toque e aproximação propagado pela Escola Danubiana criou uma forma distinta de executar a pirâmide. Como ressaltado por Jonathan Wilson, a qualidade técnica era mais valorizada que a força física, sendo que tal pensamento favorecia o aspecto coletivo e, consequentemente, uma evolução tática quase que natural.

Final da primeira Copa do Mundo disputada em 1930 no Uruguai. Os donos da casa venceram por 4 a 2 a Argentina no dia 30 de julho de 1930 e se sagraram os primeiros campeões do mundo. Percebam a predominância do 2-3-5 piramidal no esquema dos times. (Ilustração: Jonathan Wilson, tradução do Invertendo a Pirâmide).
Final da primeira Copa do Mundo disputada em 1930 no Uruguai. Os donos da casa venceram por 4 a 2 a Argentina no dia 30 de julho de 1930 e se sagraram os primeiros campeões do mundo. Percebam a predominância do 2-3-5 piramidal no esquema dos times. (Ilustração: Jonathan Wilson, tradução do Invertendo a Pirâmide).

Como descrito por Wilson no clássico “Inversão da Pirâmide”, os times da bacia do Rio da Prata, mais precisamente Uruguai e Argentina, executavam o 2-3-5 de forma mais avançada que moldava um estilo próprio, dotado de variáveis com relação ao previsível 2-3-5 praticado pelos britânicos. A forma de jogar sul-americana privilegiava conduções mais técnicas da pelota, de forma ágil e atraente, com dribles e arrancadas. Nos seus primórdios, o futebol “danubiano” e o rio-platense eram similares e, quase simultaneamente, se afastaram da engessada concepção britânica.

“Times sul-americanos tratavam melhor a bola e tinham uma perspectiva mais tática (...). Era uma época em que tínhamos cinco atacantes, com o número 8 e o número 10 recuando e os pontas cruzando bolas”. Relato de Francisco Varallo, meia-direita (camisa 8) da Argentina na final da primeira Copa do Mundo. O recuo dos atacantes centrais era prática comum na execução ofensiva do 2-3-5 na região do Rio da Prata. Tal movimento atraía a marcação e deixava o centroavante no mano a mano com o segundo zagueiro.
“Times sul-americanos tratavam melhor a bola e tinham uma perspectiva mais tática (…). Era uma época em que tínhamos cinco atacantes, com o número 8 e o número 10 recuando e os pontas cruzando bolas”. Relato de Francisco Varallo, meia-direita (camisa 8) da Argentina na final da primeira Copa do Mundo. O recuo dos atacantes centrais era prática comum na execução ofensiva do 2-3-5 na região do Rio da Prata. Tal movimento atraía a marcação e deixava o centroavante no mano a mano com o segundo zagueiro.

 

Antes de chegarmos à Copa de 34, precisamos tratar de outro passo importantíssimo do processo histórico da evolução tática. Trata-se do primeiro sistema que, de acordo com Wilson e outros teóricos, revolucionou o futebol. O 2-3-5 é considerado um desenho arcaico, afinal era um esquema que tem sua gênese no longínquo final do século XIX. Como muito bem explicado por Cecconi, a organização das equipes, com todos os conceitos norteadores para sistemas e estratégias, tornou-se prerrogativa fundamental a partir da criação do W.M.

Em 1925, os dirigentes da FA chegaram à conclusão de que o futebol inglês estava monótono, repetitivo, com pouco talento e poucos gols marcados. Para modificar esse quadro, foi reduzido para somente dois adversários o número de atletas necessários para o jogador ficar em condições de jogo (antes eram necessários três atletas). Como também muito bem esmiuçado por Cecconi, na prática, um goleiro e um zagueiro à frente eram suficientes – regra que perdurou até a criação da “mesma linha”.

A supracitada mudança na regra do impedimento mudou a dinâmica do jogo e inspirou Herbert Chapman, que em 1930 resolveu alterar o sistema tático do Arsenal que treinava desde 1925. A partir do 2-3-5, Chapman recuou o meia central, alocando-o entre os dois zagueiros. Já os atacantes internos foram recuados e se tornaram meias, sendo que tal alteração criou uma segunda linha de meio. Esse 3-2-2-3, primeiro 3-4-3 da história, desenhava no tablado duas letras: o “W” no ataque e o “M” na defesa. Nascia o inesquecível W.M.

Ilustração: Eduardo Cecconi (link do texto ao final)
Ilustração: Eduardo Cecconi (link do texto ao final)
Na defesa, o WM proporcionava encaixes individuais na marcação com os zagueiros lateralizando sua conduta após a chegada do terceiro zagueiro. Com marcação nas laterais e dois meias protegendo a defesa logo à frente, o Arsenal de Chapman privilegiava os contragolpes com ligações diretas para os wingers que ficavam extremamente abertos. Os meias recuados atraíam a marcação dos meias laterais adversários e o centro médio ficava sem função defensiva e ofensiva. O WM não encontrava defesa pelos lados e acabava atacando no último terço com três atacantes contra dois defensores.
Na defesa, o WM proporcionava encaixes individuais na marcação com os zagueiros lateralizando sua conduta após a chegada do terceiro zagueiro. Com marcação nas laterais e dois meias protegendo a defesa logo à frente, o Arsenal de Chapman privilegiava os contragolpes com ligações diretas para os wingers que ficavam extremamente abertos. Os meias recuados atraíam a marcação dos meias laterais adversários e o centro médio ficava sem função defensiva e ofensiva. O WM não encontrava defesa pelos lados e acabava atacando no último terço com três atacantes contra dois defensores.

 

Ter o recuo estratégico e o contra-ataque veloz pelos lados como estratégias fizeram o W.M consolidar no futebol inglês um estilo conceituado por Jonathan Wilson como o “wing-play” (algo como “jogo para os wingers”). Os wingers, espécie de pontas velocistas e individualistas, ganharam grande destaque. A Inglaterra formou uma verdadeira geração de craques para a função, notabilizando-se Stanley Mathews como seu principal protagonista – um jogador que criava e finalizava as próprias jogadas. Na prática, o wing-play fez o futebol inglês permanecer individualista, contrariando as filosofias coletivas do passe-curto adotadas na maioria dos países”. (Eduardo Cecconi)

Chapman não queria jogo pelo meio, criação de jogadas, apesar de ter sido no início de sua carreira um admirador da escola de toque escocesa. Tanto que abriu mão do meia central, criador de jogadas no 2-3-5 e o transformou em zagueiro, para poder marcar melhor as jogadas laterais do adversário. Na meiuca, congestionamento para evitar troca de passes do oponente. Assim que retomava a posse, o Arsenal buscava os lançamentos para os pontas voarem pelas beiradas, geralmente livres de marcação pelo encaixe que o WM fazia frente ao 2-3-5.

Herbert foi junto com Hogan e Meisl um dos precursores da criação contemporânea da figura do técnico de futebol, o “professor”, profissional estudioso que trata o campo como um tabuleiro de xadrez. Assim como Hogan e Meisl, Herbert Chapman também fazia preleções usando quadro-negro e analisava sempre os adversários. Posteriormente, ministrava palestras táticas para tratar com os atletas estratégias de jogo e o posicionamento em campo. Assim como Jimmy Hogan, enxergava a organização coletiva como o princípio de uma equipe de futebol.

Ocorre que, seu WM rígido e sua tática de contragolpe iam completamente contra aos preceitos de toque e magia ensinados pela Escola Danubiana. Futuramente, iremos entender que esse foi o grande problema de nossa escola com o desenho do WM, que, comumente, impunha essa execução ofensiva padronizada e, defensivamente, se fechava em encaixes individuais repetitivos. Entretanto, os resultados expressivos do Arsenal fizeram o esquema erguer-se rapidamente no futebol europeu, sob pena de atraso aos que ignorassem seus preceitos.

Jimmy Hogan disse, (Muitos times tentaram copiar o Arsenal) mas não tinham os jogadores; e, na minha opinião, o resultado disso foi a ruína do futebol britânico, com a ênfase na defesa e no jogo de chutes longos que deu fim à proposta de um futebol mais construtivo. Por causa desse tipo de jogo, nossos atletas perderam a aptidão pelo toque de bola.(Inversão da Pirâmide, Jonathan Wilson)

No início da década de 30, o surgimento do WM mecânico de Chapman que fora classificado como “máquina” coexistia com outra concepção de futebol praticada pelos admiradores da Escola Danubiana, sendo que as equipes que privilegiavam a construção do jogo através dos passes e o controle do mesmo através da posse, ainda usavam a pirâmide como desenho tático. Entretanto, muitas equipes fizeram alterações estratégicas que alteraram sutilmente o desenho do 2-3-5, como o Wunderteam de Meisl e Hogan e a Itália de Vittorio Pozzo.

As sementes desse declínio podem ter sido plantadas antes da mudança na lei do impedimento, mas foram nutridas pela resposta de Chapman à alteração da regra. O efeito do terceiro zagueiro, como Glanville afirmou, foi reforçar e agravar uma fraqueza que já existia, porque encorajou a preguiça mental de técnicos e jogadores. É muito mais fácil, afinal, chutar bolas longas na direção de um atacante em vez de enfrentar as dificuldades do jogo criativo. Mas Chapman seguiu convicto. “Nosso sistema, que é tão imitado por outros clubes, tem sido objeto de críticas e discussões recentemente, ele disse a Hugo Meisl. “Só há uma bola em jogo e só um jogador pode tê-la a cada momento, enquanto os outros 21 se tornam espectadores. Fala-se apenas na velocidade, na intuição, na habilidade e no jeito de jogar do jogador que está com a bola. Quanto ao resto, que as pessoas pensem o que quiserem sobre nosso sistema. Ele provou ser o melhor para as qualidades individuais dos nossos jogadores, e nos levou a várias vitórias. Por que mudar um sistema vencedor?”. (Inversão da Pirâmide, Jonathan Wilson)

Meisl era um defensor do 2-3-5, afinal sua ideologia foi toda formulada sob o esquema que por tanto tempo foi a base tática do futebol. Além de Jimmy Hogan, que foi seu fiel amigo e escudeiro na transformação do futebol austríaco, outra amizade cultivada por Meisl foi com Herbert Chapman. Meisl era totalmente favorável à fomentação das discussões táticas. Muitos dos embates ideológicos tinham como temática as vantagens e desvantagens dos dois desenhos táticos existentes à época, quais sejam, o tradicional 2-3-5 e o inovador WM.

Chapman, Meisl e Hogan em foto histórica. Três grandes treinadores que criaram as bases táticas que ergueram o futebol moderno. (Imagem: Imortais do Futebol)
Chapman, Meisl e Hogan em foto histórica. Três grandes treinadores que criaram as bases táticas que ergueram o futebol moderno. (Imagem: Imortais do Futebol)

No final da década de 20 e início da década de 30, Meisl e Hogan montaram uma das grandes seleções nacionais da história, até mesmo por sua importância no processo da evolução tática: o Wunderteam (“Time Maravilha”), apelido conferido à Seleção da Áustria que encantou o mundo com seu futebol de toques rápidos e movimentações inteligentes. Hogan sempre defendeu que o passe tinha natureza dúplice, ou seja, quem recebe a bola é tão importante quanto quem a passa, sendo a movimentação uma necessidade para o êxito do passe.

O objetivo da dupla genial era erguer a escola austríaca, montando para tanto um time competitivo e inovador. O privilégio pela troca rápida de passes não era fórmula única daquele time que, fomentado pela inquietude produtiva de seus mentores, também valorizava as jogadas de efeito, sempre com a movimentação constante de seus jogadores de meio e ataque, algo bem distantes de velocidade pelas laterais e cruzamentos na área. Meisl entendia que o melhor esquema era não ter um esquema definido, rígido. Como já dito, ele e Hogan focavam mais na filosofia aplicada ao esquema do que no próprio desenho em si.

“Os jogadores devem estar em constante movimento para impedir que o adversário adivinhe as suas intenções. Um defesa ou um médio, se tiverem a oportunidade, devem avançar no terreno e surgir, de surpresa, na área adversária, mas, nesse exato instante, é dever de um colega seu ocupar imediatamente a sua posição, resguardando o seu envolvimento no ataque.” – Hugo Meisl.

Jonathan Wilson ressalta que muitos preferiram fingir que a mudança tática ocasionada pelo WM não existiu e que “a pirâmide sagrada permanecia intacta”. Era como se o 2-3-5 fosse uma realidade perpétua e universal do futebol, ressaltando Wilson que muitos jornais seguiram ignorando a nova realidade por muitos anos, precisamente até os anos 60, sempre escalando todas as equipes como se jogassem no 2-3-5. Por esse motivo, essa transição do 2-3-5 para o WM que se deu nas décadas de 30 e 40 é uma passagem confusa da evolução tática.

O Wunderteam austríaco de Meisl e Hogan tinha como base o 2-3-5, mesmo com o WM estourando na Europa com os resultados avassaladores do Arsenal de Chapman e a adoção do esquema em terras britânicas. Em 1931, a seleção austríaca começou a protagonizar partidas inesquecíveis pelo velho continente com um futebol ofensivo e criativo. O selecionado de Meisl ficou 14 partidas sem derrota, entre abril de 1931 e dezembro de 1932, conquistando a Copa Internacional da Europa Central de 1931-1932.

 Antes da Copa de 34, a Áustria seguia goleando e encantando os europeus com seu futebol envolvente de passes, tornando-se a grande favorita ao título da Copa de 34 que se aproximava, momento em que recebeu a alcunha de Wunderteam. O selecionado avassalador atropelou outras seleções antes da Copa: 5 a 0 e 6 a 0 contra a Alemanha, 6 a 0 na Suíça e 5 a 0 sobre a Escócia, na primeira derrota dos escoceses para uma seleção de fora do Reino Unido. Para coroar a fase, um emblemático 8 a 2 na rival Hungria, com gols e assistências do craque Sindelar.

O Wunderteam jogava no tradicional 2-3-5, porém com duas variações que mudavam bastante a execução do esquema, propiciadas pela filosofia do futebol tecelagem que se pautava em aproximação, toques curtos e domínio pela posse qualificada. Além do centromédio Smistik, elegante e ofensivo, que por vezes recuava para liberar os zagueiros na marcação dos pontas adversários, a Seleção da Áustria contava com Sindelar, um craque genial que foi o primeiro falso nove da história do futebol.
O Wunderteam jogava no tradicional 2-3-5, porém com duas variações que mudavam bastante a execução do esquema, propiciadas pela filosofia do futebol tecelagem que se pautava em aproximação, toques curtos e domínio pela posse qualificada. Além do centromédio Smistik, elegante e ofensivo, que por vezes recuava para liberar os zagueiros na marcação dos pontas adversários, a Seleção da Áustria contava com Sindelar, um craque genial que foi o primeiro falso nove da história do futebol.

O Wunderteam executava o futebol de forma mais fluida. A combinação de movimento e passe era muito mais importante do que driblar e correr com a bola. O maior expoente daquele time, peça chave para o estilo adotado, foi Mathias Sindelar, um centroavante de 1,75 metros, tido por muitos como um jogador que tinha cérebro em suas pernas. Seus deslocamentos da área para o meio de campo arrastavam os marcadores e abriam espaços para os atacantes interiores e para os wingers fazerem os gols. Sindelar também caía pelos lados e se juntava aos wingers para propiciar as infiltrações dos atacantes internos.

Sua circulação pelo campo buscava as triangulações e também a circulação da bola, a abertura de espaços, um futebol mais completo tecnicamente. Sua estatura leve e sua elegância lhe conferiu o apelido de Der Papierene – (The Paper Man, o Homem de Papel). Ele jogou futebol de uma maneira inédita e, certamente foi um dos maiores craques da história do futebol. Foi essa concepção de centroavante que chegou ao Brasil com os húngaros como explicaremos logo adiante, sendo o futebol de Sindelar a gênese do centroavante habilidoso e diferenciado do futebol brasileiro.

Para nós, da Europa central, o jogo de ataque dos ingleses, do ponto de vista estético, parece pobre. Esse jogo consiste em atribuir o trabalho de marcar gols ao centroavante e aos pontas, enquanto os meias por dentro devem ligar defensores e atacantes, mais como médios que como jogadores ofensivos. O centroavante, que, para nós na Europa, é a figura principal por causa de sua excelência técnica e inteligência tática, na Inglaterra se limita a explorar os erros da defesa adversária. (Hugo Meisl)

Já tratamos do nascimento do WM, do Wunderteam e seu 2-3-5 tecelagem e, para terminar a leitura histórica da década de 30, precisamos tratar do WW italiano (2-3-2-3) do grande treinador Vittorio Pozzo, que enfrentou a Áustria nas quartas de final da Copa de 34, em um duelo histórico dos mundiais. Ao chegar à Itália, o WM de Chapman foi adaptado às características do futebol local, leitura que originou um novo sistema, basicamente uma mistura do 2-3-5 com o WM. Cabe ressaltar que Pozzo também foi influenciado pela Escola Danubiana e se preocupava em preencher mais o meio para facilitar o controle do jogo.

Em termos de formação, os italianos quase involuntariamente adotaram um meio termo entre o W-M inglês e o 2-3-5 danubiano, mas o que os distinguia era a atitude. “Tecnicamente menos brilhante do que seus rivais europeus”, Glanville escreveu, o futebol italiano “compensava com a força e o excelente estado físico de seus jogadores”. A crença na primazia da condição atlética talvez fosse natural sob o regime fascista, mas também correspondia às inclinações de Vittorio Pozzo, o visionário que se tornou a figura central do futebol italiano no período entre as guerras. (Inversão da Pirâmide, Jonathan Wilson)

(Ilustração: Eduardo Cecconi, link abaixo)
(Ilustração: Eduardo Cecconi, link abaixo)

A transição para o WM não foi completa porque Pozzo abominava o jogo com três zagueiros. O motivo era o forte apreço pelo centro médio, posição especial na ideologia do comandante italiano. Em sua concepção, o meia central era um “distribuidor” do jogo, sendo essa a gênese do regista, figura consagrada por Pirlo nos tempos modernos, ou seja, aquele volante que joga à frente da zaga e distribui os passes, proporcionando a saída de bola. Pozzo e Meisl se tornaram amigos após o primeiro encontro e foram rivais pelo resto de suas vidas.

O nível do envolvimento de Pozzo com o regime fascista ainda é um assunto com mais perguntas do que respostas, entretanto, é inquestionável que os dogmas militares ficaram expostos na preparação física e na forma de jogar de sua equipe. Como bem explicado por Cecconi, a Itália se decidiu pelo futebol-força. A forma física dos jogadores era invejável, afinal era uma exigência ser atleta, forte, veloz e ter vigor físico. O lema da Azzurra de Pozzo era vencer a qualquer custo, com muita luta, muito combate.

Apesar de valer-se da violência e da intimidação física e psicológica em alguns jogos, Wilson leciona que a esquadra de Vittorio trouxe uma interessante vertente tática. Jogando com o sistema defensivo do 2-3-5 e com as linhas de frente do WM, Pozzo proporcionou mais segurança defensiva com os atacantes internos formando uma linha de meio. Na defesa, o centro médio ajudava marcar o centro da zaga sem a bola, proporcionando aos zagueiros também poder marcar a lateral. Apesar de força física e segurança defensiva, seu esquema era o que mais proporcionava triângulos.

Entre os benefícios do WW, está a criação de um congestionamento na zona de transição central quando se enfrentava adversários que jogavam com o 2-3-5 ou WM. Pozzo, com seu 2-3-2-3 tinha 5 jogadores intimamente ligados ao meio campo. Seu novo sistema não proporcionou somente equilíbrio defensivo, mas propiciou contra-ataques eficazes e toque de bola, afinal tinha-se jogadores em quase todas as áreas do campo. A formação era defensivamente equilibrada, mas também tinha sua faceta ofensiva. O WW de Pozzo formou mais triângulos do que as formações usadas até aquele momento. O 2-3-2-3 com o centro de criação mais dinâmico facilitou a construção vinda de trás.
Entre os benefícios do WW, está a criação de um congestionamento na zona de transição central quando se enfrentava adversários que jogavam com o 2-3-5 ou WM. Pozzo, com seu 2-3-2-3 tinha 5 jogadores intimamente ligados ao meio campo. Seu novo sistema não proporcionou somente equilíbrio defensivo, mas propiciou contra-ataques eficazes e toque de bola, afinal tinha-se jogadores em quase todas as áreas do campo. A formação era defensivamente equilibrada, mas também tinha sua faceta ofensiva. O WW de Pozzo formou mais triângulos do que as formações usadas até aquele momento. O 2-3-2-3 com o centro de criação mais dinâmico facilitou a construção vinda de trás.

Pozzo também foi um dos primeiros expoentes da escolha pela marcação individual, um sinal de que o futebol tinha se tornado um esporte em que, além de fazer o próprio jogo, um time também deveria impedir o adversário de fazer o dele. Em um amistoso contra a Espanha, em 1931, em Bilbao, ele ordenou a Renato Cesarini que marcasse Ignacio Aguirrezabala com base na ideia de que “se conseguirmos cortar a cabeça com a qual os onze adversários pensam, todo o sistema entrará em colapso”. (Inversão da Pirâmide, Jonathan Wilson)

San Siro, Milão, 3 de junho de 1934 – Semifinal da Copa de 34 – Itália 1 x 0 Áustria: o futebol cerebral austríaco encontra com o combativo futebol italiano e se despede da copa, frustrando os amantes do futebol técnico e revolucionário da equipe. O argentino naturalizado Luisito Monti tinha grande capacidade de cobrir espaços no campo e anulou Sindelar, o grande craque austríaco. Com muita chuva e com o campo muito pesado, a tecelagem de Meisl ficou prejudicada, além do congestionamento ocasionado pelo esquema italiano. Na defesa, as setas amarelas indicam como a defesa da Azzurra anulou o adversário e, à frente, as linhas vermelhas mostram os triângulos que proporcionavam a criação ofensiva de Pozzo.
San Siro, Milão, 3 de junho de 1934 – Semifinal da Copa de 34 – Itália 1 x 0 Áustria: o futebol cerebral austríaco encontra com o combativo futebol italiano e se despede da copa, frustrando os amantes do futebol técnico e revolucionário da equipe. O argentino naturalizado Luisito Monti tinha grande capacidade de cobrir espaços no campo e anulou Sindelar, o grande craque austríaco. Com muita chuva e com o campo muito pesado, a tecelagem de Meisl ficou prejudicada, além do congestionamento ocasionado pelo esquema italiano. Na defesa, as setas amarelas indicam como a defesa da Azzurra anulou o adversário e, à frente, as linhas vermelhas mostram os triângulos que proporcionavam a criação ofensiva de Pozzo.

Utilizando o sistema W.W, a Itália de Vittorio Pozzo conquistou duas Copas do Mundo consecutivas, em 1934 e 1938. A proposta espacial e diversificada de sua inovação tática, somada a estratégia de futebol-força, proporcionaram resultados inimagináveis, afinal a Áustria e sua forma extremamente Danubiana de entender o jogo dominava o mundo. Mas, subitamente, a Itália tirou o protagonismo da Escola Danubiana ao derrubar Áustria e Hungria, desbancando ainda, como observado por Cecconi, os pragmáticos ingleses e a escola Sul-Americana representada pelo talento individual dos uruguaios e argentinos.

A segunda guerra mundial não deixou existir as Copas de 42 e 46. O que ocorreu ao final da década de 30 e por toda a década de 40, foi o avanço do WM que tomou do 2-3-5 a universalidade como esquema principal do futebol mundial. Houve também uma questão de posicionamento, uma transição do simplório e primitivo jogo zonal do 2-3-5 (exemplo: zagueiro do lado esquerdo fica somente no seu lado) para um sistema mais organizado dentro do rígido WM, onde cada jogador sabia que adversário marcar (exemplo: o zagueiro lateral esquerdo marca o ponta direita).

Esses encaixes e essa rigidez na marcação individual promovida pelo WM vão causar grande problema de adaptação de nossa escola ao sistema de Herbert Chapman. E esse “destravamento” do WM teve duas vertentes históricas: uma vertente que nasce na Hungria, mais precisamente quando o mestre Márton Bukovi, como treinador do MTK Hungria, colocou Hidegkuti como um falso centroavante e cravou assim a primeira base estratégica do 4-2-4; a outra vertente estratégica emanou do futebol brasileiro após a chegada dos treinadores húngaros em nosso país.

Em terras brasileiras, a influência dos dogmas de coletividade e amplitude na forma de se enxergar o esporte da Escola Danubiana tem seu primeiro registro na década de 20, com a chegada do treinador húngaro Eugênio Medgyessy em 1926. O comandante treinou Botafogo, Fluminense e São Paulo. Posteriormente, foi trabalhar na Argentina. E o Botafogo voltou a contratar um treinador húngaro pouco depois, sendo ele Nicolas Ladanyi, popularmente alcunhado de “Capitão”. Ladanyi foi jogador de futebol na Hungria e se especializou em estudos esportivos nos Estados Unidos.

Quase no final da década de 30, mais precisamente em 1937, o Flamengo contratou outro húngaro para comandar o futebol. Na época, a intenção do clube era montar uma grande equipe e, para tanto, contratou craques como Fausto, Domingos da Guia e Leônidas da Silva. Com tantos talentos, faltava um grande treinador, sendo escolhido para a missão Izidor Kürschner, à época considerado um dos melhores técnicos da Europa. Dori Kürschner, como ficou conhecido no Brasil, foi jogador de Jimmy Hogan no MTK Hungria e o substituiu como treinador quando Hogan deixou o comando do MTK.

No próximo capítulo, partiremos da chegada de Dori que apresenta ao futebol brasileiro o WM. Por aqui, ainda predominava de forma bem arcaica o 2-3-5. Iremos abordar a rigidez do sistema britânico e seu encontro com um futebol solto, habilidoso e desprendido taticamente, retrato de nossa escola à época. Desta forma, vamos encontrar o elo da gênese do 4-2-4 que tem seu ponto de encontro nos ensinamentos de Hogan, disseminados na Hungria e no Brasil, fato este que moldou a nossa escola, tanto no aspecto tático quanto no aspecto estratégico. Aguardo vocês! Abraço!


Referências bibliográficas:

Livro “Inverting the Pyramid”, do autor inglês Jonathan Wilson.

http://gottfriedfuchs.blogspot.com.br/2012/11/hugo-meisl-and-jimmy-hogan-danubian.html

http://www.clicrbs.com.br/blog/jsp/default.jsp?source=DYNAMIC,blog.BlogDataServer,getBlog&uf=1&local=1&template=3948.dwt&section=Blogs&post=260361&blog=558&coldir=1&topo=4238.dwt

https://www.imortaisdofutebol.com/2013/04/05/tecnico-imortal-hugo-meisl/

http://wp.clicrbs.com.br/prelecao/2010/01/01/italia-reune-dois-sistemas-e-cria-o-ww/?topo=13,1,1,,10,13&status=encerrado

http://www.popflock.com/learn?s=4-4-2_formation

https://www.passion4fm.com/evolution-of-barcelonas-tiki-taka-playing-style/

https://www.theguardian.com/football/blog/2014/apr/22/world-cup-stunning-moments-austria-wunderteam

https://www.imortaisdofutebol.com/2013/02/28/selecoes-imortais-austria-1930-1936/

https://futboltriangle.wordpress.com/2013/11/15/great-international-teams-that-never-won-austria-1931-1936/

Compartilhe

Comente!

Tem algo a dizer?

Últimas Postagens

O caminho da Seleção, as mudanças de Tite e um norte para o Catar
Aurelio Solano

O caminho da Seleção, as mudanças de Tite e um norte para o Catar

0 Comentários
Cinco promessas africanas na base de clubes europeus
Caio Nascimento

Cinco promessas africanas na base de clubes europeus

0 Comentários
Pellegrini: a história dos romanos na Roma continua
Caio Bitencourt

Pellegrini: a história dos romanos na Roma continua

0 Comentários
A afirmação da Espanha e sua nova geração
Bruna Mendes

A afirmação da Espanha e sua nova geração

0 Comentários
Guto Ferreira coloca o Bahia para acelerar
Gabriel de Assis

Guto Ferreira coloca o Bahia para acelerar

0 Comentários
RAIO-X: De onde saem as assistências dos líderes do quesito na Série B
Douglas Batista

RAIO-X: De onde saem as assistências dos líderes do quesito na Série B

0 Comentários
Os destaques dos 8 classificados no Brasileirão Sub-20
Caio Nascimento

Os destaques dos 8 classificados no Brasileirão Sub-20

0 Comentários
A reinvenção de Brahim Diaz no meio-campo do Milan
Caio Bitencourt

A reinvenção de Brahim Diaz no meio-campo do Milan

0 Comentários
Maduro, o Red Bull Bragantino se aproxima de fazer história
Gabriel de Assis

Maduro, o Red Bull Bragantino se aproxima de fazer história

0 Comentários
Friendly #7 | O novo rico Newcastle, Sports Washing e a ‘era’ de clube-estado
Eduardo Dias

Friendly #7 | O novo rico Newcastle, Sports Washing e a 'era' de clube-estado

0 Comentários
Napoli: O impacto inicial de Anguissa com a camisa partenopei
Caio Bitencourt

Napoli: O impacto inicial de Anguissa com a camisa partenopei

0 Comentários
O Grande Norte e os grandes desafios: o que o futuro reserva para o futebol masculino do Canadá?
Caio Nascimento

O Grande Norte e os grandes desafios: o que o futuro reserva para o futebol masculino do Canadá?

0 Comentários
O agressivo América/MG de Vagner Mancini
Gabriel de Assis

O agressivo América/MG de Vagner Mancini

0 Comentários
O Botafogo/PB em busca de um acesso histórico na Paraíba
Douglas Batista

O Botafogo/PB em busca de um acesso histórico na Paraíba

0 Comentários
A disparidade entre Atlético de Madrid e Barcelona
Bruna Mendes

A disparidade entre Atlético de Madrid e Barcelona

0 Comentários