A geração americana que busca agradar a expectativa

Investimento, mercado e talento. O futebol nos EUA suscita questões desde muito tempo, seja pela qualidade ou expectativa. Em meio a tantos movimentos, uma geração de jovens promissores está se criando no país onde se procura um sentido de pertencimento.

Há um bom tempo se fala sobre a evolução do “soccer” nos EUA. É curioso que o melhor momento da nova safra de jogadores americanos tenha aparecido no período em que a seleção nacional tenha falhado em participar da última Copa do Mundo.

Além de ser uma participante frequente nos mundiais, com classificações para a fase de mata-mata, a ausência na Rússia em 2018 gerou desconfiança sobre a evolução futebolística do país por uma parte que acompanha o esporte bretão.

Entretanto, isso pode ser explicado pela pouca variação de jogadores e pela média de idade alta dos últimos convocados antes de 2018. É natural que após o fracasso muitas coisas mudem, especialmente num país que tem investido pesado numa nova cultura.

Enquanto alguns jogadores vão se aposentando do futebol em alto nível de onde fizeram parte, outros mais novos vão tomando seus lugares como protagonistas. Nomes como os de Giovanni Reyna (18 anos, Borussia Dortmund), Sergiño Dest (20 anos, Barcelona), Weston McKennie (22 anos, Juventus), Christian Pulisic (22 anos, Chelsea) e Tyler Adams (21 anos, RB Leipzig) lideram uma geração que é tipificada como muito promissora.

Embora sejam jogadores sub-23, vários deles já são conhecidos do grande público por estarem em clubes famosos do futebol europeu, além do fato de serem muitas vezes titulares absolutos de suas respectivas equipes.

Zach Steffen (25 anos, Manchester City), Jordan Morris (26 anos, Swansea), Paul Arriola (26 anos, Swansea), Matt Miazga (25 anos, Anderlecht/Chelsea), DeAndre Yedlin (27 anos, Galatasaray/Newcastle) são outros nomes conhecidos da nova geração, apesar de serem ligeiramente mais velhos que os citados no parágrafo anterior, e que buscam recolocar os EUA numa Copa do Mundo.

Um dos nomes mais quentes do momento é o de Matthew Hoppe, centroavante de 19 anos do Schalke 04. Com passagens pela academia de San Diego e do Los Angeles Galaxy, o estadunidense se beneficiou do tempo em que esteve numa das oficinas do Barcelona na América do Norte para aprimorar o refino técnico. Com boas atuações pela equipe B de Gelsenkirchen, Hoppe foi alçado aos profissionais num dos momentos mais conturbados da história do gigante alemão. Mesmo com o temor do rebaixamento, a joia tem protagonizado lances importantes e gols que ainda nutrem a esperança dos Azuis Reais de permanecer na elite.

Yunus Musah, 19 anos, tem participado da equipe principal do Valencia mesmo numa temporada completamente conturbada do clube, e tem se saído muito bem. Um meio-campista que pode jogar tanto pela região central quanto pelas pontas com boa qualidade técnica e explosão física para cobrir o gramado. Ainda existe a indagação se ele escolherá a nacionalidade americana ou a ganesa, porém, ele é um dos talentos mais promissores dessa geração.

Ainda no Velho Continente, temos os exemplos de Josh Sargent (20 anos, Werder Bremen), Erik Palmer-Brown (23 anos, Áustria Viena) e Cameron Carter-Vickers (23 anos, Bournemouth/Tottenham), que serviram a seleção norte-americana no Mundial Sub-20, em 2017, ao lado de Tyler Adams.

Os EUA têm conseguido desempenhos chamativos nas categorias de base, fazendo com que vários jogadores pulem diretamente para equipes europeias numa idade baixa. A geração atual, por exemplo, conta com vários atletas que fizeram um belíssimo papel no Mundial Sub-20 com Tab Ramos como treinador. Tanto em 2017 quanto em 2019, os norte-americanos foram eliminados por duas equipes sul-americanas nas quartas-de-final (Venezuela – que terminou com o vice – e Equador – que terminou em terceiro -, respectivamente).

Da equipe de 2019, que eliminou a França de Lafont, Cuisance, Diaby e Gouiri nas oitavas-de-final por 3×2, ainda pode-se destacar os nomes de Timothy Weah (20 anos, Lille – e filho de George Weah), Chris Richards (20 anos, Hoffenheim/Bayern de Munique), Mark McKenzie (21 anos, Genk), Konrad de la Fuente (19 anos, Barcelona), Sebastian Soto (20 anos, Norwich) e Ulysses Llanez (19 anos, Heerenveen). Alex Mendez e Richie Ledezma, de Ajax e PSV, respectivamente, foram contratados para as categorias de base dos holandeses após esse torneio. A equipe ainda contava com Sergiño Dest, hoje no Barcelona, mas que na época defendia as cores do Ajax. O ótimo desempenho do lateral-direito foi fundamental, inclusive, para que ele substituísse Nous Mazraoui, titular da posição no clube de Amsterdã, e até o ameaçasse na briga pela titularidade após recuperação da lesão do marroquino.

Da esquerda para direita: Scott, Konrad de la Fuente, Tim Weah, Keita, Richards, Servania. Agachados: Ledezma, Dest, Pomykal, Gloster e Soto. Essa foi a equipe que começou a partida na vitória por 3×2 sobre a França. Alguns já estão alto nível na Europa. Foto: @usynt.

No Mundial Sub-17, em 2019, que aconteceu no Brasil, mesmo com uma eliminação precoce na fase de grupos, os americanos mostraram ao mundo pela primeira vez Giovanni Reyna como protagonista e com Joe Scally, hoje no Borussia Monchengladbach, despontando como opção na lateral-direita. Chituru Odunze, goleiro do Leicester, nasceu em Calgary, no Canadá, começou no Vancouver Whitecaps, mas ao que tudo indica optará pela nacionalidade estadunidense. É um arqueiro com muito prospecto nos Foxes e que fizera dois bons jogos no Mundial.

E se você percebeu bem, Scally e Dest são laterais-direito. Ambos com boa avaliação e um teto de crescimento alto. Junte aos dois o nome de Reggie Cannon, 22 anos, do Boavista. Recentemente comprado pelos enxadrezados do FC Dallas, ele é mais uma opção viável para o futuro dos americanos no esporte. São três opções jovens, de estilos diferentes, para o mesmo setor ocupando espaços importantes em clubes europeus. Scally é ótimo em cruzamentos e bolas paradas; Dest é refinado e driblador; Cannon é um foguete, sendo forte tanto para defender quanto para apoiar.

É importante salientar que o treinador da equipe sub-17 era Raphael Wicky, hoje no Chicago Fire, mas que antes de assumir o projeto da federação americana era integrante da comissão de base do Basel, um dos melhores celeiros da Europa, responsável pela revelação de grandes promessas do clube suíço e para a reconstrução do futebol nacional.


O investimento na capacitação técnica nas divisões de base é um projeto antigo nos EUA. Obviamente, os frutos demoram certo tempo para amadurecer, mas é um caminho que vem sendo pavimentado cautelosamente num país cuja cultura do futebol ainda está buscando seu espaço.

A MLS deixou de ser uma “liga de aposentadoria” para virar um destino atrativo para promessas sul-americanas, sobretudo nos últimos quatro anos. A contratação de Brenner pelo FC Cincinnati, time que terminou com a pior campanha da MLS passada, por uma cifra alta chamou a atenção dos brasileiros, porém, a migração de nomes como Diego Rossi, Bebelo Reynoso, Brian Rodríguez, José Cifuentes e Valentin Castellanos em outras oportunidades já denotavam que o próximo passo de uma franquia poderia ser ainda mais ambicioso.

As contratações de Beckham, Gerrard, Kaká, Villa e Pirlo no passado foram importantes para abrir um novo mercado e atrair público para os estádios. Atualmente, jogadores que fizeram carreira europeia seguem rumando à MLS, porém, em contextos mais competitivos do que em outrora – haja visto o desempenho do Nani pelo Orlando na temporada passada, que está longe de se aposentar.

Investimento em estrutura, capacitação técnica, evolução tática, contratação de nomes famosos, observação de promessas sul-americanas e, por consequência, aumento da competitividade. Claro, a MLS ainda está longe de ser um produto tão apetecedor aos americanos quantos os esportes mais tradicionais na terra do Tio Sam. E talvez isso nem seja uma prioridade, sobretudo pelos movimentos realizados. Na MLS também existe a cultura do draft de jogadores vindos de universidades ou colégios, porém, as academias de futebol – apesar de custosas para a maioria da população – estão se enraizando cada vez mais, quase como no futebol sul-americano, por exemplo.

Todavia, existe uma faca de dois gumes nessa questão. Os Estados Unidos, assim como o Brasil, é um país continental. Geograficamente você pode encontrar um talento no local mais aleatório possível devido ao tamanho do território. Porém, independente do investimento e tecnologia, também é difícil cobrir tanta terra assim. Zach Lowy, jornalista americano, argumenta que crianças de estados onde não se tem uma academia de uma equipe pertencente a elite ou relacionado a um clube europeu, pode fazer falta.

“Tem muitos jogadores de Arkansas, Montana de vários lugares onde não estão próximos de uma academia de elite ou de um time da MLS. Eles não vão ter os recursos para transporte ou os pais trabalham durante a semana. Eles não vão ter ninguém que os leve para os treinos. Você vai precisar ponderar os fatores. Tem muitos movimentos bons no futebol americano, mas tem muitas barreiras limitando o potencial geograficamente falando e financeiramente falando. Geralmente é bom ter tanta terra para trabalhar, mas muitos jogadores vão acabar passando batido para ter uma oportunidade de mostrar suas habilidades”, frisa Lowy.

Atualmente você pode encontrar um trabalho de base muito sério em equipes “independentes” como no FC Dallas (revelou Weston McKennie, por exemplo), Orlando City, Sporting Kansas, Atlanta FC, LA Galaxy e Philadelphia Union. Há também os casos do New York City FC e NY Red Bulls, que pertencem ao City Group e Red Bull, respectivamente, que são conglomerados esportivos com metodologias específicas e com ferramentas pré-moldadas.

O ambiente que está se criando é bastante propício para a evolução das pratas da casa. Foram 26 nomes citados previamente de jogadores americanos que estão em clubes europeus, o que já daria para montar uma convocação. No entanto, ainda existem as promessas que estão se destacando ou dando seus primeiros passos profissionalmente na MLS.

Recentemente, Brenden Aaronson trocou o Philadelphia Union pelo Red Bull Salzburg, clube austríaco famoso por potencializar Mané, Haaland, Szoboslai, Daka, Koita e Adeyemi. O meio-campista de 20 anos chamou a atenção na temporada passada o liderar o Union na primeira fase da MLS. Aaronson já havia se tornado titular absoluto da equipe com 18 anos em 2019. No último ano, ele marcou quatro gols e deu cinco assistências em 27 jogos. Em quatro partidas pela Bundesliga austríaca que participou pelo Salzburg desde que chegou, Aaronson já fizera um gol e uma assistência, tenho sido titular em duas partidas.

“Eu não moro na Filadélfia, mas se eu morasse, ou trabalhasse no setor de marketing do Union, eu faria uma campanha muito grande com um cartaz de Brendon Aaaronson. Criar uma relação de proximidade com a comunidade é realmente importante. Os times, no final do dia, precisam encontrar meios de se conectar e despertar atenção. Futebol ainda perde em popularidade nos EUA, mas até que ponto isso é por causa da MLS? Nós temos muitas pessoas assistindo a Liga MX nos Estados Unidos. É uma liga mexicana e não dos EUA. Cada vez mais pessoas estão prestando atenção à Premier League, La Liga, Serie A. A MLS ainda está abaixo. É preciso encontrar mais meios para nutrir e criar atenção”, ressalta Zach.

Daryl Dike, centroavante de 20 anos, e Bryan Reynolds, lateral-direito de 19 anos, trocaram Orlando City e FC Dallas por Barnsley-ING (empréstimo) e Roma, respectivamente. O primeiro marcou oito gols em 22 jogos pelo time da Flórida enquanto o segundo era titular absoluto da equipe texana.

Caden Clark, do NY Red Bulls, terminou a temporada passada como titular com apenas 18 anos de idade. O meia-ofensivo marcou três gols em oito jogos com a equipe nova-iorquina, tendo sido titular em quatro partidas – a última foi na derrota nos playoffs da MLS Cup para o Columbus Crew, que posteriormente seria campeão. Clark participou da mesma oficina do Barcelona que Matthew Hoppe.

Lembra da equipe sub-17 de Giovanni Reyna e Joe Scally? Outro destaque daquela seleção é Gianluca Busio, meia-central de 18 anos do Sporting Kansas. O jovem fez 18 jogos como titular dos 23 jogados, marcou dois gols e deu quatro assistências. Ricardo Pepi, 18 anos, do FC Dallas é um centroavante de 1,85m de muito potencial que já fez três gols e uma assistência em 19 partidas pelo clube texano.

Assim como Busio, Pepi também estava no Brasil em 2019. E se na ala direita Scally se destacava no torneio, na esquerda os EUA tinham George Bello, do Atlanta FC, como titular. Bello é rápido como um foguete e já tem atraído olhares europeus. Se levarmos em consideração a atuação contra o América, na partida de ida pelas quartas-de-final da Concachampions, é questão de meses para essa joia desembarcar no Velho Continente.

Paxton Pomykal e Tanner Tessmann, são outros dois revelados pela bela canteira do Dallas. Pomykal era considerado uma das promessas mais certeiras dos Estados Unidos até pouco tempo atrás, porém, as lesões têm atrasado um pouco seu desenvolvimento. Pela seleção sub-20 que eliminou a França, o meia americano esbanjou talento com sua facilidade em driblar e pelo controle de bola. Tessmann é um volante alto, de excelente passe e controle de bola, tendo sido titular em 10 das 21 partidas que fez com o time do Texas.

Pomykal tem 44 jogos pelo FC Dallas com três gols e duas assistências. Desde 2016 ele é convocado para seleções de base dos EUA. Saudável, o playmaker texano poderia estar num estágio ainda melhor. Foto: FC Dallas.

Outro meio-campista que deve fazer muito barulho na MLS é Jack McGlynn, do Philadelphia Union. Com apenas 17 anos de idade, McGlynn foi o principal destaque da equipe B na USL, uma espécie de segundo escalão nacional apesar da MLS não possuir rebaixamento. Canhoto e criativo, ele atua preferencialmente pela zona central do gramado.

De fato, são nomes interessantes para se acompanhar, no entanto, precisar o que irá acontecer com essa geração é um exercício quase esotérico. Há um trabalho sério acontecendo por lá e vale a pena ficar muito atento a movimentação do tabuleiro. Na medida do possível se existe um momento importante para dar o próximo passo no país, esse momento é agora.

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Caio Nascimento

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