A gestão dos clubes portugueses e a dependência financeira

Navegar à vista parece ser uma realidade muito querida aos principais dirigentes do futebol português. Num mercado muito dependente financeiramente das agências de gestão de jogadores e da sua capacidade nos mercados de transferência, os projetos desportivos parecem muitas vezes deixados para trás.

As duas semanas de paragem do campeonato ofereceram algum tempo para reflexão sobre os desafios que tocam as equipas portuguesas nos próximos meses. O aspeto financeiro tem pesado na forma como as equipas lidam com a construção dos seus plantéis, com a influência dos agentes de jogadores a ser enorme no contexto do futebol nacional, pela dependência destes do sucesso no mercado de transferências. Por outro lado, os projetos desportivos parecem muitas vezes colocados em causa pela forma como os dirigentes lidam com os desafios de escolhas de treinadores e de definição de modelos de gestão. Para onde caminha, então, o futebol português? Algumas perguntas.

A decisão vem com o dinheiro

“Quem paga, manda” é uma frase corrente na sociedade portuguesa. Num universo de clubes de futebol altamente dependentes em termos financeiros, o poder do dinheiro parece confundir-se na sua origem. Se seria justo pensarmos que um clube de futebol consegue angariar mais dinheiro quanto melhores forem as suas decisões (nos diversos aspetos da gestão), nem sempre isso acaba por acontecer.

No topo do futebol português, os direitos televisivos e o mercado de transferências alinham a par da entrada na fase de grupos da Liga dos Campeões, verdadeiro acelerador de diferenças por toda a segunda linha do futebol europeu. FC Porto e SL Benfica destacam-se em número de presenças e, por isso mesmo, também se consolidaram como líderes do futebol luso. O que não os impede de serem estruturas com enormes passivos financeiros, à imagem do Sporting.

A ausência de público nos estádios e as quebras de vendas associadas a essa presença terá, este ano, um pequeno prémio que funciona como uma luz ao fundo do túnel. Os primeiros dois classificados terão entrada direta na fase de grupos da Liga dos Campeões em 2021/22 e o terceiro classificado também poderá lá chegar, por via das qualificações. Quem entrar, verá a sua tesouraria respirar por mais uma época. Quem não o fizer, cairá mais um degrau na tentativa de chegar a uma posição de saúde financeira.

A relação com o mercado de transferências

O que é mais natural é que um adepto deseje ver a sua equipa reforçar-se o melhor possível conforme as suas necessidades. No entanto, apesar de ser um mercado financeiramente frágil, a cotação dos jogadores comprados pelos principais clubes portugueses parece apontar para outra realidade. Em todas as janelas de mercado vamos observando como outros campeonato periféricos compram barato e vendem com números aceitáveis. Portugal entra na corrida das grandes vendas, mas nem sempre parece ser o mais assertivo no capítulo das compras.

Na verdade, o principal foco do mercado de transferências em Portugal não está tanto na forma como se entra na Liga Portuguesa, mas na forma como se sai. O peso dos agentes de jogadores na maneira como conseguem liderar grandes operações de compra e venda é crescente e as equipas portuguesas funcionam, em diversas ocasiões, como um ponto de passagem nessa roda. Isso é um elemento fundamental na saúde financeira dos clubes; o Benfica conseguiu fazer vendas acima do valor de mercado nas últimas duas temporadas de jovens formados no clube, o FC Porto conseguiu garantir o cumprimento de metas de fairplay financeiro no último dias antes de fechar a janela de transferências.

Mas, por outro lado, é um desfoque claro naquilo que podem ser a definição de estratégias e filosofias de gestão desportivas para os clubes portugueses. O foco no mercado como principal garante da sua existência coloca alguns clubes no risco de perderem parte da sua identidade num mundo cada vez mais focado na importância dos jogadores como elemento definidor para receber o apoio dos adeptos.

Top 10 de vendas da Liga Portuguesa na última janela de transferências. Dados Transfermarkt.

O papel dos treinadores

Num contexto como este, é fundamental o papel dos treinadores. Luís Filipe Vieira, presidente do Benfica, colocou nos anteriores treinadores, Rui Vitória e Bruno Lage, elevadas esperanças de valorização de jovens jogadores. Frederico Varandas fez exatamente o mesmo com a escolha de Rúben Amorim, responsabilizando-o pelo retorno do valor pago pela cláusula de rescisão do técnico com a sua anterior equipa, um valor superior aos 10 milhões de euros. Outros clubes acabam por ser sintomáticos na forma como fazem a gestão das suas escolhas.

O Vitória de Guimarães, na época passada, fundamentou parte do seu crescimento na imagem deixada na Liga Europa, onde se bateu de igual para igual com equipas como o Arsenal e o Eintracht Frankfurt, apesar da eliminação. No entanto, Ivo Vieira não viu o seu contrato renovado, com um novo técnico, Tiago Mendes, a chegar para aprofundar as opções do Diretor Desportivo Carlos Freitas, constituindo um plantel que, nas suas palavras, aproxima as escolhas das tendências mais procuradas pelos grandes clubes europeus.

Tiago Mendes, no entanto, acabou por ser o primeiro técnico a sair na presente edição da Liga Portuguesa, e pelo seu próprio pé! Não sentindo que a constituição do plantel lhe garantisse condições para fazer um bom trabalho, preferiu abandonar o barco. É um caso paradigmático do futebol português. Um clube com um projeto definido, acaba por falhar na escolha do técnico, ficando por entender o que terá realmente falhado neste processo.

A realidade do futebol português parece, desta forma, insistir no navegar à vista. O pouco poder dado a estruturas internas de analistas continua a ser regra, para mais num ambiente onde a partilha de informação é vista como problemática. Ser capaz de mudar a realidade de dependência do mercado seria fundamental para dar passos seguros para o aproximar ao que é feito nas principais ligas europeias. Acreditar na intuição é uma regra que, mesmo falhando, continua a ter os seus discípulos. Mais do que reflexão, o futebol português precisa de se olhar ao espelho e desejar o melhor para si mesmo.

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Luís Cristovão

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