A importância do primeiro gol

Um jogo de futebol é uma constante resolução de problemas. Sem uma lógica que prevaleça e com imprevisibilidade tamanha, exige encontrar respostas para perguntas que o campo propõe. E para resolve-los a interação de alguns fatores é essencial: comportamentos técnicos e táticos; individual e coletivo, e o comportamento emocional. Tentar maximizar estes atributos é um […]

Um jogo de futebol é uma constante resolução de problemas. Sem uma lógica que prevaleça e com imprevisibilidade tamanha, exige encontrar respostas para perguntas que o campo propõe. E para resolve-los a interação de alguns fatores é essencial: comportamentos técnicos e táticos; individual e coletivo, e o comportamento emocional. Tentar maximizar estes atributos é um dos papeis do treinador.

Mas como controlar tais comportamentos ao fazer ou sofrer um gol?

Através de um levantamento feito durante o turno do Campeonato Brasileiro de 2019, tentamos traçar um diagnóstico sobre como o primeiro gol marcado durante os 190 jogos da metade inicial do Brasileirão influenciaram no transcorrer das partidas.

Além dos números, conversamos com os dois últimos treinadores campeões da Copa do Brasil. Tiago Nunes, do Athletico Paranaense, e Mano Menezes, hoje no Palmeiras.

No 1º turno do Brasileiro, das 190 partidas disputadas, em 124 delas o time que abriu o placar acabou vencendo o duelo. Isso significa 65% do total de jogos analisados. Ainda tivemos 29 empates com gols. Portanto, em 80% das vezes marcar o primeiro gol do jogo significou somar pelo menos um ponto.

Mano Menezes elencou algumas variáveis para que tais números fossem registrados até aqui na competição.

“O fator local certamente favorece, aumenta a confiança da equipe como mandante. Mas em termos de treinamento é possível se conduzir para que o jogador tenha consciência de que sofrer o primeiro gol traz um prejuízo muito grande. Então, a cada treinamento que envolve disputa de placar cria-se uma penalidade para a equipe que sofre o primeiro gol. Também fazemos o inverso premiando a equipe que marcar o primeiro gol. Diariamente se faz necessário exercitar estes dois lados da moeda com o jogador”.

Para Tiago Nunes, os dados corroboram com a ideia de buscar ter uma equipe mais protagonista.

“Com estes números, para mim fica claro que o time que tenta ser propositiva está naturalmente aumentando a possibilidade de vencer. Às vezes não se consegue por algumas limitações técnicas e táticas, ou até mesmo físicas, na continuidade de um calendário tão insano que temos no Brasil. Mas os números casam com o que imagino de desenvolvimento de equipe: buscar vencer sempre. Existe uma tendência natural como visitante esta possibilidade diminuir, mas acontece não só para o Athletico. É buscar vencer, e não esperar e ser reativo”.

Ao longo do 1º turno as viradas no placar não representaram nem 10% dos jogos do Brasileiro. Apenas em 17 partidas houve uma reviravolta no placar. Em 9 oportunidades conseguiu a virada o time que jogava como mandante, já em outros 8 jogos o resultado foi revertido pelo visitante.

Sofrer o primeiro gol tem grande impacto no futebol brasileiro? É perceptível um maior número de erros em comportamentos técnicos e táticos quando se está atrás no marcador?

“O atleta brasileiro tem como hábito tentar resolver os problemas do jogo de forma individual. O atleta está normalmente concentrado para desenvolver os aspectos pré-combinados e os comportamentos coletivos desenvolvidos previamente, até o momento em que sofre um revés ou o caos se instaura no jogo. Depois perde a capacidade de resolução mais fria e racional. Estamos muito suscetíveis ao desenvolvimento do resultado. Mas querer resolver o problema sozinho desarticula ainda mais, pois se perde o senso coletivo que se tinha quando estava 0 a 0, por exemplo”, respondeu Tiago Nunes.

“Eu acho que a virada no placar tem uma relação estratégica dentro do jogo. Quando se conquista uma vantagem a possibilidade de exposição de quem sofre o gol fica maior. Então, pode-se ter espaços mais generosos quando se sai a frente no marcador. E como nossas equipes estão forçosamente em formação, não temos equipes tão estáveis pela troca de treinadores, temos poucos com times definidos, performance e constância durante o campeonato. As variáveis dentro do jogo influenciam no comportamento por causa dessa instabilidade. Sofremos um prejuízo pela nossa realidade”, enfatizou o técnico Mano Menezes.

Para alguns empates com gols que aconteceram, Tiago Nunes destaca que buscar apenas a manutenção da vantagem é um equívoco.

“Normalmente, a equipe que faz o primeiro gol não busca o segundo, ela defende o primeiro. Isso para mim é o primeiro comportamento que ajuda a equipe a ceder o empate. Percebemos que, em alguns jogos, a equipe que está vencendo adota uma postura mais defensiva e às vezes nem por pedido do treinador, mas sim por um recurso de defesa dos próprios jogadores de não se expor e não querer errar. Mas se sofre o empate, volta o comportamento anterior de se expor mais. Então, tem uma relação muito próxima com o medo de errar, faz-se um jogo mais conservador, menos arrojado”, completou.

Na estreia pelo Palmeiras, Mano Menezes viu sua equipe derrotar o Goiás de virada, por 2 a 1. Feito que não era alcançado pelo clube paulista desde 2 de junho de 2018, quando ainda sob o comando de Roger Machado bateu o São Paulo, por 3 a 1. O resultado positivo no Serra Dourada foi uma das 17 viradas no placar registradas no 1º turno. E conseguir reverter o placar afeta a todos os técnicos, segundo Mano.

“Há um pré-conceito que existe em relação a mim nos últimos anos, mas isso acontece com vários treinadores, independentemente da característica desse ou daquele. Assumi o Palmeiras e fazia mais de um ano que o time não virava um jogo. Acontece com várias equipes por estas circunstâncias que falamos acima”.


1º TURNO DO BRASILEIRÃO

  • Vitória do time que marcou 1º gol: 124 em 190 jogos (65,26% do total)
  • Em 87 vezes (70%) o time mandante marcou primeiro e venceu e em 37 oportunidades (30%) foi a equipe visitante
  • Viradas: 17 (destas 17 em 8 virou o time visitante, e em 9 virou o time mandante)
  • Vitórias Mandante: 96 (87 abrindo o placar, 9 de virada) 50,52%
  • Empate com gols: 29 (15,26%)
  • Empate 0x0: 20 (10,52%)
  • Vitória Visitante: 45 (37 abrindo o placar, 8 de virada) (23,68%)
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