A influência da mídia esportiva na estruturação do racismo no futebol

Em meio a mais um caso, um entendimento sobre como o racismo está presente em situações simples e que, muitas vezes, as pessoas não percebem

Segundo o dicionário Aurélio, racismo é preconceito e discriminação direcionados a alguém tendo em conta sua origem étnico-racial. Com isso, em uma população brasileira formada em sua maioria por pessoas negras o racismo é mais uma das penúrias existentes numa sociedade em ruínas e substancialmente doente.

A partir disso, têm-se o futebol que nada mais é que uma das infinitas bolhas, que reflete tudo que há em seu corpo social. Ou seja, o futebol está e sempre estará atrelado a tudo que ocorre na sociedade a qual ele se encontra. E não é difícil de se enxergar dia após dia o que jogadores negros sofrem, seja pela sua torcida (ou a adversária), seja pela alta cúpula do esporte (dirigentes), ou pela principal fonte de influência: a mídia.

Não é de hoje que casos sequenciais de racismo são escancarados nas TV´s e na internet como debates ou apenas opiniões de quem está no palanque. O discurso de ódio fomentado pelas redes de informação resultam não só em perseguições e sensação de pertencimento a quem se identifica com ideais preconceituosos, como aos poucos constrói-se uma estrutura racista onde toda e qualquer discussão é pautada primeiramente pelo tom de pele de quem está no ponto focal do debate.

Em um dos episódios mais recentes, na segunda-feira do dia 27/09/2021, houve uma discussão entre comentaristas e apresentadores de um programa esportivo da ESPN, no qual dois jornalistas e um ex-jogador de futebol debatiam sobre a perda de foco de dois jovens da equipe do Palmeiras: Danilo e Patrick de Paula. Onde um dos jornalistas (com apoio do ex-jogador e agora comentarista) relacionavam a perda de foco dos atletas aos seus penteados (com enfoque nos dreadlocks de Danilo, que são reconhecidamente como símbolos de resistência negra) e tatuagens.

Mas por qual razão não se questiona, por exemplo, as tatuagens do Dudu, também atleta do Palmeiras? Ou talvez a cor do cabelo de Lucas Lima, ainda jogador da equipe palestrina e cedido ao Fortaleza. Muito porque o negro tem que ser visto como um ser domesticado e discreto, onde a sua personalidade e gostos não podem ser expressadas. Silenciar é um dos atos de opressões do racismo, e é mais abrupto quando se vêm de quem tem uma posição maior para falar, seja jornalista ou ex-jogador de futebol, que supostamente tem conhecimento sobre a área. E se apoiam nisso para determinar como cada indivíduo (negro) deve se comportar.

Essa domesticação pode ser observada na forma de tratamento com personalidades negras mais tímidas. Como se a forma mais discreta como se comportam fosse a correta. A forma que segundo eles é a única na qual um negro pode ocupar espaço de destaque. Sem “chamar a atenção” do público. O volante francês N’Golo Kanté normalmente é usado como exemplo positivo de personalidade. Já Paul Pogba sempre é criticado por seus penteados supostamente estravagantes. Algo que nunca ocorreu quando o atacante Griezmann vivia alternando em seu corte de cabelo. E veja bem, esse texto não é para criticar o atacante do Atlético de Madrid, mas vale citar a diferença no tratamento. Principalmente se tratando de atletas da mesma nacionalidade.

Um dos métodos mais claros de racismo e também um dos mais escondidos vem travestido de análise. Costumeiramente é visto em comentários de futebol uma hipervalorização da fisicalidade de atletas negros, principalmente africanos. Enquanto jogadores brancos são destacados por sua capacidade técnica e leitura de jogo, os negros são resumidos ao seu porte físico e aos genéricos comentários “corre muito”, “falta ter uma tomada de decisão melhor”, etc. Nem atletas de elite são libertados dessas supostas opiniões. Neymar até hoje sofre com comentários acerca de seu estilo de jogo, de críticas ao adotar uma forma de jogo mais cerebral. Vinicius Júnior foi um recentemente atacado. Mesmo com boas atuações pelo Real Madrid, o jovem é constantemente questionado sobre a sua tomada de decisão durante as partidas. Cobrança que normalmente não se vê contra os atletas caucasianos do clube, mesmo estes não tendo o mesmo impacto do brasileiro (Asensio é um exemplo).

Agora pense um pouco sobre o tema do parágrafo anterior e faça a seguinte pergunta: “mas será que isso aconteceria com algum dos melhores jogadores da história?”, pois bem, o Rei Pelé também se enquadra nesse exemplo. Quantas vezes não lemos comentários sobre como Edson “sobrava fisicamente” comparado aos de sua época. Ignorando quase que por completo as suas qualidades técnicas. Não se lê sobre a fineza técnica com as duas pernas, a alta capacidade de finalização, o mental forte para decidir grandes jogos, mas sim sobre sua potência física. Porque é assim que se trata o ser humano negro, não importa o lugar ocupado, essa pessoa sempre será vista com ares de limitação.

E assim, silenciosamente o racismo vai ganhando cada vez mais espaço e construindo bases sociais e transpassando o universo do futebol e do esporte, evidenciando a pobreza humanitária de uma sociedade cada vez mais hóstil e preconceituosa. Em uma das celebres frases de Malcom X, ativista do Nacionalismo Negro dos EUA no século XX, ele diz: “Se você não cuidar, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas, e amar as pessoas que estão oprimindo”. Enquanto o debate for sobre penteados, tatuagens e cor de chuteiras o negro sofrerá.

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