A Inglaterra está no caminho da excelência

A Inglaterra tem cultura futebolística invejável. Apesar disso, ganhou apenas a Copa de 66 e sofre no cenário internacional. Desde 2012, uma mudança estrutural mudou tudo desde a base. Os resultados começamos a ver com Southgate, Sancho, Sterling e Odoi.

Conhecemos a velha história sobre a Inglaterra. Um país de cultura futebolística invejável e dono do que a maioria considera a melhor liga nacional do mundo, mas até certo ponto decepcionante no cenário internacional. Sua Seleção conquistou apenas uma Copa do Mundo – ainda em 1966, com muita polêmica – e não conseguia gerar competitividade mesmo com bons valores individuais.

A ausência de resultado tendo opções como Beckham, Scholes, Lampard, Gerrard e Rooney à disposição fez com que os responsáveis pelo esporte da nação repensassem o modo de enxergar e trabalhar o jogo. Em 2012, Dan Ashworth se tornou o personagem por trás do England DNA, um plano de desenvolvimento para criar times vencedores.

Os princípios eram bonitos, mas nem sempre eles iam para frente. O valor esteve na prática deles e as ações movidas pela federação para alavancar o potencial de um território sedento por sucesso no futebol. Visando aumentar o contato dos atletas com o ambiente da Seleção e criar um caminho concreto, mais três categorias de base (sub-15, sub-18 e sub-20) foram abertas.

Ashworth foi uma das figuras mais importantes desse processo, mas em 2018 deixou o cargo para se tornar diretor de futebol do Brighton (Foto: Reprodução/Getty Images)

Considerando que os jogadores estão com seus clubes em 90% do tempo, braceletes interativos foram entregues para que possam acessar vídeos e mensagens importantes em qualquer época do calendário. Amistosos contra adversários de alta qualidade foram marcados. Fundamentalmente, os membros ou aspirantes dos staffs participam de cursos que explicam os novos propósitos e ajudam a solidificar uma mudança de cultura.

Do ar sombrio que pairava sobre o cotidiano do English Team, ainda com sede em Wembley, para uma busca constante pela positividade, simbolizado com uma mudança ao St. George’s Park. O centro de treinamento custou £105 milhões e abriga todas as equipes da Inglaterra, incluindo as modalidades femininas, de futsal e deficientes.

Serve de base para o trabalho técnico de especialistas em diversas áreas, com um centro de excelência médica reconhecido pela Fifa e programas de ensino com treinadores que alinham as ideias. É notável que a Alemanha, até pouco tempo atrás exemplo de desenvolvimento com seleções, fez uma visita ao SGP para aprender e buscar inspiração para a estrutura que deve abrir em 2021 em Frankfurt.

Sancho e Hudson-Odoi são expoentes de novas gerações que prometem elevar o patamar do English Team (Foto: Reprodução/Yahoo News)

O St. George’s Park é localizado em Londres, uma das regiões de talento crescente que demonstra uma nova era para os ingleses. Em parte, esqueçam a burocracia de jogadores mais rígidos e pouco inventivos. Nomes como Jadon Sancho e Callum Hudson-Odoi representam o futebol clássico de rua, abrilhantado pelo drible, a ousadia, a agressividade e a criatividade de quem quer dar um jeito de sair por cima – na bola – do seu ‘rival de bairro’.

São vários os prospectos – e algumas realidades – que mostram uma amizade intuitiva com o jogo e são envolvidos em uma filosofia que tenta não os restringir. Títulos de base não contam toda a história, mas aqui complementam a tese: em 2017, o sub-20 foi campeão da Copa do Mundo e os times sub-19 e sub-17 levaram a Euro. Estão todos em plena crescente e devem alimentar com qualidade o grupo de Gareth Southgate.

Que entrou em cena em 2013, contratado para treinar o sub-21 e chegando no principal em 2016. O mesmo fala sobre a importância de ter começado de baixo, construindo aprendizado e experiência com os garotos antes de ter uma missão maior. Pode desenvolver a si e algumas promessas que veio a utilizar agora, já acostumados com seus princípios e cheios de respeito pelo comandante.

Logo mostrou que estava disposto a não repetir problemas do passado: implantou uma estratégia funcional, pensada para extrair o melhor das convocações e não somente criar um amontoado de jogadores de renome, como acontecia anteriormente. Dentro e fora de campo, a sensação foi de que esse contexto abraçou os indivíduos, criando um ambiente familiar e condutivo a evolução.

Southgate abraçou o grupo e a cultura positiva que se desenha desde 2012 (Foto: Reprodução/Getty Images)

A forma que todos estavam lidando com a rotina em uma Seleção que a mídia sempre gostou de repercutir – e nem sempre de forma positiva – chamou a atenção. Acabou sendo um dos motivos para o bom rendimento na Rússia em 2018 e reconquistou a paixão do torcedor. Se internamente o processo já agradava, o público ainda tinha questões plausíveis envolvendo o English Team.

Afinal de contas, por que acreditar se eles costumeiramente dão um jeito de se auto sabotar? Mas a diferença no apreço pelo time quando voltaram para suas terras se comparado com quando partiram foi gritante. Ninguém imaginava um conjunto tão entrosado chegando nas semifinais, por detalhe não se classificando para a decisão.

Isso que a federação sentiu a necessidade de anunciar que Southgate permaneceria no cargo mesmo se o time não passasse da fase de grupos, ressaltando que as expectativas eram “realistas” e viam a competição como um “passo realmente importante para a nossa evolução”. A meta é chegar em 2022 e 2026 com condições de disputar o título e se estabelecer como uma das favoritas naturais aos campeonatos.

É também uma questão mental. Falemos dos pênaltis, por exemplo. Tinham participado de sete disputas desde 1990, com seis derrotas e um solitário triunfo. Era um trauma que ajudava a criar narrativas negativas e influenciava psicologicamente a Seleção. Southgate sabe bem disso – foi ele quem desperdiçou a penalidade decisiva na semifinal da Euro de 1996, contra a Alemanha, em Wembley.

Conquistar uma classificação nos pênaltis teve um peso enorme para o estado psicológico de todos envolvidos com a Seleção (Foto: Reprodução/FIFA)

A vitória sobre a Colômbia nas oitavas tirou um peso das costas não só de quem esteve ali em carne e osso, mas principalmente do uniforme. Outros que viriam a vestir aquela camisa teriam uma leveza que as gerações predecessoras não tiveram. A tranquilidade e a clareza mental são pontos exaltados pela comissão técnica e podem fazer a diferença daqui em diante.

A base foi criada e o processo é contínuo, gerando frutos para o futebol do país no geral. Os sinais de que estão caminhando na direção certa são visíveis e esperamos ansiosamente para descobrir se a federação vai colher os frutos com taças. Dedicou investimentorecursos e conhecimento para atingir um nível de excelência e passo a passo estão chegando lá. A torcida agradece.

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Lucas Filus

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