A Inglaterra superou seus traumas e, agora, se permite sonhar

Mesmo diante de críticas, o trabalho feito na Seleção está deixando o passado no passado e fortalecendo um time que era enfraquecido por suas frustrações

Não podemos cravar se o futebol realmente está voltando para casa, mas está marcado na história da Seleção da Inglaterra que o grupo atual foi o primeiro a alcançar uma final desde os campeões da Copa do Mundo em 1966. O que para muitos países pode parecer algo simples – e é até irônico que uma nação tão relevante tenha pouquíssimas decisões -, não é aqui, dentro desse contexto.

Os comandados de Gareth Southgate já superaram três traumas importantes desde 2018: o da disputa de pênaltis (vitória contra a Colômbia, na Rússia), o da Alemanha (triunfo pelas oitavas desta Euro) e o das semifinais (passando pela Dinamarca na última quarta-feira). Com ou sem a taça nas mãos, muitas narrativas vão voltar os holofotes para o polêmico pênalti assinalado no lance de Raheem Sterling – algo totalmente compreensível -, mas precisamos também falar de desempenho.

E o desempenho de muitos jogadores está sendo bem positivo. Algo que, mais uma vez, para muitos pode parecer comum e apenas a realização de algumas expectativas. Só que as gerações de ouro do English Team já foram marcadas por ficarem só no papel e no imaginário do torcedor. Dentro do campo as performances não faziam jus ao talento e aí de nada importa ter nome, fama e hype.

(Foto: Inglaterra)

No momento, enxergamos um time que não cativa o espectador neutro e certamente pode fazer ainda mais, mas está traçando um caminho inteligente para deixar o passado no passado e construir uma história baseada em resultado – e não em expectativa. Percebe-se uma sintonia entre comissão técnica e elenco e os fanáticos ingleses, apesar de terem suas divergências com o trabalho e algumas escalações do treinador, aos poucos foram comprando a ideia. 

Como não comprar quando essa ideia garantiu uma final para lotar os pubs – e Wembley – pela primeira vez em 55 anos? Há, certamente, mérito no que está sendo feito. Teremos tempo para falar de aspectos coletivos que formam a base da Seleção, mas vamos focar aqui em certas peças importantes nesse quebra-cabeça. Começamos de trás: Harry Maguire está sendo um dos melhores jogadores da Euro. O zagueiro do Manchester United perdeu as duas primeiras partidas por lesão e, desde que retornou, foi praticamente impecável.

Era perceptível o peso de sua ausência – mesmo que Tyrone Mings tenha dado conta do recado dentro do que pode entregar – e as atuações falam por si. Imponência defensiva, antecipações pontuais, ações positivas com a bola e domínio completo no jogo aéreo. Isso somado a um fator de liderança que não pode ser subestimado. Ele está a todo momento coordenando seus companheiros e é uma das principais figuras do vestiário. A equipe também conta com a vantagem de ter uma dobradinha vinda do clube por ali, já que Luke Shaw se entende muito bem com o camisa 3.

(Foto: Inglaterra)

Ambos são cruciais para os Red Devils e estão dando sequência na ótima temporada que fizeram. Assim como John Stones, que depois de alguns anos instáveis ganhou solidez no Manchester City e está sendo para Maguire um parceiro excelente, da mesma forma que faz com Ruben Dias. E ali tem dobradinha do clube também: Kyle Walker pode não ser dos mais produtivos com a posse e seu nível técnico não se compara ao do cortado Trent Alexander-Arnold, por exemplo, mas há um encaixe perfeito para a função que lhe é dada.

Poucos no mundo têm a qualidade e os atributos físicos e mentais para lidar com a recomposição defensiva como ele faz. Está ligado em todas as bolas nas costas e não foge da responsabilidade em nenhum momento. É um profissional exemplar em termos de confiança e dedicação. Como está sendo, já pulando para o setor ofensivo, Sterling. Um dos nomes mais polarizadores do futebol europeu, Raheem se mostra constantemente capaz de ignorar o barulho negativo que vem de fora e focar em fazer o seu jogo.

Os erros técnicos existem e é seguro dizer que todas as outras opções para a posição tiveram campanhas melhores com os seus times em 2020/21, mas estamos falando da Seleção. E, defendendo o seu país, ele é um dos mais produtivos há algum tempo, seja com exibições de altos e baixos complementadas com gol ou performances marcantes como a contra a Dinamarca. É natural ver manchetes destacando o pênalti, mas não há como negar que sua prorrogação, por exemplo, foi algo impressionante.

(Foto: Inglaterra)

O ponta, nascido na Jamaica e historicamente muito questionado, demonstrou muita autoconfiança e foi fundamental para quebrar as bem postadas linhas do adversário em um confronto de peso gigantesco. Para sermos justos, provavelmente dá pra contar em uma mão os jogadores que fizeram campanhas tão decisivas assim pela Inglaterra desde o título de 66. E, ao seu lado, outro personagem está ganhando força com o torcedor: Harry Kane.

Uma das estrelas da Euro, o atacante do Tottenham teve um início fraco na competição. Parecia de certa forma enferrujado, com dificuldade de fazer ao menos a metade do que fez nas últimas temporadas. Seu papel criativo parecia confuso e sua presença na área praticamente não era vista. Do terceiro jogo em diante, porém, vimos sua versão ‘verdadeira’ dando as caras. E não é coincidência que o funcionamento do setor tenha melhorado.

Ainda seria normal cobrá-lo para se aproximar ainda mais do gol, mas não dá pra questionar tanto considerando que ele já marcou quatro vezes e está sendo um armador de primeira prateleira. Críticas pelo seu começo pouco inspirado foram compreensíveis, mas falamos do artilheiro e do líder de assistências da última edição da Premier League – isso jogando pelo sétimo colocado. 

(Foto: Inglaterra)

Não é qualquer um e, além do que acrescenta com as habilidades técnicas, sua postura de líder está transparecendo até para quem vê de longe. É o capitão, de respeito máximo no elenco e agora com performances que correspondem ao seu patamar. É um dos que se esforça para ser uma influência positiva e exemplo em um ambiente que já foi tóxico em outras épocas. Na primeira década do século, vimos craques mundiais levando questões de rivalidade para a Seleção e demonstrando pouca sintonia nos torneios. 

Agora, estamos acompanhando jogadores talentosos demonstrando o valor do grupo e do trabalho coletivo. Dessa forma, como sabemos, as individualidades florescem. Podem florescer ainda mais – e há de fato alguns nomes que poderiam ser mais utilizados -, mas a verdade é que a Inglaterra não vai disputar a final por acaso. Não sabemos se o futebol vai voltar para casa, mas o caminho para isso está sendo traçado de uma forma mais coerente. E assim há mais chances de frutos positivos serem colhidos.

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Lucas Filus

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