A janela dos sonhos para Marcelo Gallardo

Mais do que reforços qualificados, o River conseguiu repor boa parte das características perdidas com as saídas recentes do elenco. Conseguirá Muñeco reconduzir o time millonario às conquistas com suas novas peças?

O River Plate passa pelo seu processo de renovação mais profundo dos últimos anos. Desde o fim de 2020, os millonarios perderam jogadores significativos e o sinal de alerta despertou em Marcelo Gallardo. O próprio treinador fez cobranças públicas por reposições de alto nível técnico e chegou a colocar em dúvida a sua permanência no Monumental de Núñez por conta do desmanche no elenco, somado a falta de movimentos do clube no mercado para buscar reforços.

Perder peças do calibre de Lucas Martínez Quarta, Juan Fernando Quintero, Lucas Pratto e Nacho Fernández em poucos meses é, de fato, um duro golpe. Junto a isso, a possibilidade de ver Gonzalo Montiel, Nicolás De La Cruz e Rafael Santos Borré deixarem o clube ao final de seus contratos contribuiu para esta desconfiança em relação à continuidade do projeto. Entretanto, os desejos de Muñeco foram atendidos.

Nas últimas semanas, fora as renovações de Montiel e De La Cruz, o River Plate confirmou um verdadeiro pacotão de reforços da defesa ao ataque. Os zagueiros Jonatan Maidana e Héctor David Martínez – que retornam ao clube –, o lateral-direito Alex Vigo, os meias José Paradela e Agustín Palavecino e o atacante Agustín Fontana foram anunciados para a temporada 2021. Com a exceção de Maidana, todos eles com 24 anos de idade ou menos, indicando um planejamento de longo prazo e retenção.

E a pergunta que fica é: o que cada um pode acrescentar ao River e como se encaixam nos conceitos de Gallardo? Bem, é hora de tentar responder isso.

OS RETORNOS E A NOVIDADE NA DEFESA

Encontrar segurança na zaga foi uma tarefa tão árdua quanto ingrata para Marcelo Gallardo em 2020. Se encontrar um parceiro estável para Lucas Martínez Quarta já proporcionava dor de cabeça, ter que encontrar uma reposição para ele com os campeonatos em disputa prejudicou de maneira definitiva o desempenho do River Plate. Com Pinola em queda, junto da instabilidade demonstrada por Paulo Díaz e Robert Rojas, não houve saída em 2021 a não ser buscar reforços.

As súplicas da torcida e de Muñeco foram atendidas, com dois velhos conhecidos logo de cara. Um deles é o multicampeão e ídolo da torcida Jonatan Maidana. Após dois anos no Toluca, o antigo líder do elenco millonario volta ao clube para tentar reimprimir a hierarquia e a solidez que o fez cair nas graças do povo entre 2010 e 2018. Embora as ferramentas físicas já não sejam as mesmas de outros tempos, Maidana usa sua experiência para jogar nos atalhos e esperar as ações chegarem até sua zona para intervir. Quanto menos exposto e menos campo tiver às suas costas para defender, maior será a chance de render bem, e Gallardo precisará compreender o momento do jogador.

O outro rosto familiar – mas bem menos gabaritado no clube – é Héctor David Martínez. Formado na base do River, explodiu recentemente com a camisa do Defensa y Justicia, cumprindo papel fundamental na conquista do Halcón na Copa Sul-Americana. Com bom pé, se caracteriza pela qualidade que proporciona na saída de bola, distribuindo passes verticais e firmes, além de se soltar com facilidade para dar apoio em campo ofensivo caso necessário.

A lateral-direita também foi contemplada neste pacote de reforços, com Alex Vigo. O ex-jogador do Colón surge como uma opção de muito potencial, dada a iminência da saída de Gonzalo Montiel apesar da recente renovação de contrato. Trajando as cores sabaleras, Vigo se notabilizou por ser um lateral de muito critério nas subidas ao ataque, com grande visão para fornecer assistências e um motor que nunca apaga na busca pela bola e por sua proteção. Com somente 21 anos de idade, tem tudo para ser trabalhado da melhor maneira possível e, quem sabe, se tornar um jogador longevo em Buenos Aires.

OS HERDEIROS DE NACHO FERNÁNDEZ?

Agustín Palavecino e José Paradela desembarcam no Monumental de Nuñez com uma missão um tanto desafiadora em suas mãos – ou melhor, pés: repor Nacho Fernández no meio-campo. Mais do que imaginar se terão espaço juntos no time de Gallardo, a grande pergunta é sobre quem pode cumprir uma função semelhante a do principal nome millonario das últimas temporadas.

Claro que cobrar rendimento semelhante ao de Nacho é extremamente injusto, afinal, estamos falando de um atleta extraclasse na América do Sul. Isso não significa, também, que Palavecino e Paradela não possam alcançar tal nível no futuro com a camisa do River. Neste momento, a discussão possível é sobre as características técnicas, o perfil tático e o encaixe no coletivo.

No Deportivo Cali, o desempenho irretocável de Palavecino veio em uma função completamente diferente da exercida por Nacho em território argentino. O camisa 26 se destacou na maior parte do tempo como um meia-central de total liberdade de deslocamento no 4-1-3-2 de Gallardo, aparecendo em todo terreno situado entre as áreas, podendo flutuar de lateral a lateral. Um amplo campo de ação. Palavecino, por sua vez, atuava como um típico enganche. Com um estilo bem mais ofensivo, dava opção com maior assiduidade na intermediária de ataque, partindo do centro da linha de três do 4-2-3-1. Em algumas situações, quando se empregava o 4-4-2 no time verdiblanco, Palavecino iniciava aberto pela esquerda, mas sempre buscando o corredor central com a posse.

Paradela, em sua passagem pelo Gimnasia, esteve inserido em um contexto um tanto caótico. Com as limitações de elenco que a equipe apresentava, as mudanças de esquema eram constantes para tentar abrigar o máximo de qualidade possível conforme a necessidade. Independente disto, o setor esquerdo mais próximo à base das jogadas foi onde apareceu com maior constância.

Dois reforços diferentes entre si, mas em comparação a Nacho Fernández, é Paradela quem apresenta mais semelhanças – muito além da canhota infalível e da camisa 26. Altos, esguios e com pernas longas, ambos possuem um biotipo muito próximo. O arsenal técnico não fica para trás. A capacidade de mudar o ritmo da progressão ofensiva – fundamental para Gallardo – é bastante presente.

Se por um lado Palavecino apresenta pouca predisposição a figurar em zonas mais recuadas levando em conta seu raio de ação, Paradela tem maior facilidade em se desprender de trás para surgir próximo a área adversária, cobrindo mais campo com e sem a bola, imprimindo boa intensidade junto, assim como fazia Nacho. De quebra, exibe uma capacidade de drible e vitória pessoal no um contra um que o agora meia do Atlético-MG pouco apresentava.

Neste sentido, Palavecino tem uma proximidade muito maior de Juanfer Quintero do que de Nacho Fernández. A ativação dos companheiros no terço final, a associação na entrada da área, os passes verticais e decisivos que viram gols ou finalizações e o poder de finalização de média distância são armas que o River Plate vinha sentindo falta como alternativa às novas soluções encontradas nos últimos tempos.

UM ESPELHO NO ATAQUE

A possibilidade de perder Rafael Santos Borré ainda é algo concreto no Monumental de Nuñez. Por conta disto, o River se adiantou e já buscou um substituto caso não consiga manter o atacante colombiano em seu elenco. O mais curioso de se observar é que selecionou, talvez, o homem de frente mais semelhante à Borré disponível em seu alcance. Similaridades que vão do nível técnico, passando pelos pontos fracos e fortes, e chegando às características e perfil físico de ambos.

Agustín Fontana é praticamente um espelho do artilheiro millonario. No Banfield, irrompeu como um homem de frente de muita mobilidade e capacidade de abrir espaços na frente. Ao mesmo tempo, exibe uma excepcional noção de posicionamento dentro da área para receber os passes terminais de sua equipe e poder finalizar do melhor modo possível. E este posicionamento é essencial para Fontana conseguir ameaçar, sobretudo no jogo aéreo. Com 1,76m, executar o movimento certo e esperar no local correto tem importância dobrada para superar os defensores em lances pelo alto, e no Banfield demonstrou bem isso.

A mobilidade de Fontana na frente, se deslocando para abrir espaço para dois companheiros dentro da área ao mesmo tempo em que se aproxima da zona da bola para dar opção de passe

Dentro de uma ideia de jogo onde a recuperação da posse precisa ser rápida e em campo mais adiantado possível, a combatividade e a iniciativa de Fontana em buscar essa pressão no início da construção adversária casa perfeitamente com as exigências de Marcelo Gallardo. Se ele não consegue efetivar o desarme, ao menos obriga o sistema defensivo a se livrar da bola rapidamente e dificulta a precisão no passe ou lançamento.

Outro fator que aproxima bastante Fontana de Borré são os toques rápidos ao receber a bola de costas para o gol. Em vez de sustentar o jogo tal qual um clássico pivô – afinal, não possui a capacidade física para isso –, a tentativa geralmente é de um passe com agilidade de primeira, girando sobre seu marcador e se apresentando logo adiante para dar a opção na tabela.


Com todo material humano de qualidade disponibilizado a Gallardo, não será nada surpreendente vermos um novo ciclo de conquistas surgindo nos próximos anos. Apesar dos indícios de desgaste vistos após a eliminação para o Palmeiras na Libertadores, já foi provado mais de uma vez que ele é capaz de conduzir o clube a voltas por cima quando ninguém espera. Os olhares mais uma vez se voltam para o Monumental de Nuñez na expectativa de histórias de glória.

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