A LIBERDADE COMO ESSÊNCIA DO FUTEBOL BRASILEIRO

Por Caio Alves Com o passar dos anos e a evolução da tática, o jogador brasileiro, puramente conhecido por dribles desconcertantes, duelos individuais e capaz de decidir partidas através de seu gestual e vasto leque de alternativas técnicas, passou a ser preterido pela fase defensiva e suas transições. É bem verdade que esse tipo de […]

Por Caio Alves

Com o passar dos anos e a evolução da tática, o jogador brasileiro, puramente conhecido por dribles desconcertantes, duelos individuais e capaz de decidir partidas através de seu gestual e vasto leque de alternativas técnicas, passou a ser preterido pela fase defensiva e suas transições. É bem verdade que esse tipo de jogador ainda está longe de acabar, mas vale ressaltar que, mais do que nunca, existem argumentos que defendam as razões táticas ao talento individual – o que é justo e aceitável. Para isso, Agustín Peraita, treinador de futebol e autor do livro “Quero que minha equipe jogue como o F.C. Barcelona”, Carlos Eduardo Mansur, jornalista d’O Globo, e Hemerson Maria, treinador do Figueirense, contribuem para o debate.

É sabido que, no futebol atual, quase tudo já se foi inventado, replicado e inovado, a depender dos ciclos e tendências. Ainda assim, o momento defensivo, de alguma maneira, vem passando a ser cada vez mais valorizado e treinado.

Por consequência, os jogadores do setor ofensivo são obrigados a fechar os corredores para manter a equipe compacta. Justamente por isso, as opiniões divergem ao escutarmos, por exemplo, que os extremos se cansam ou até mesmo que não deveriam praticar tal ação dentro de campo, visto que torna a equipe um tanto quanto “robotizada”. Para Mansur, esse tipo de mecanismo não é prejudicial ao atleta: “Não vejo a participação defensiva dos pontas como algo conceitualmente prejudicial. Acho que a polivalência é uma marca do jogo moderno. Claro que o desgaste físico eventualmente gerado ao cobrir todo o campo pode tirar frescor das pernas de um extrema, mas há momentos em que retroceder alguns metros, em especial quando o rival o pressiona, pode gerar espaço para o driblador ter o 1 contra 1 em melhores condições. Então, tudo é uma questão de elaboração de modelos que potencializem o jogador”. “Acho que a capacidade do drible, do enfrentamento que abre defesas, ainda é o ativo que torna o jogador brasileiro dos mais valorizados no mercado. Basta ver a quantidade de atacantes de velocidade que exportamos. O risco [de limitar o atleta] sempre há, lógico, e isso sempre dependerá do treinador que o jogador brasileiro encontrará”, completa Mansur.

Com o protagonismo do Jogo de Posição nos últimos anos (após a hegemonia do Barcelona de Pep Guardiola, o conceito passou a ser ainda mais praticado), o ponta passou a se limitar ainda mais, tendo em vista o respeito à ideologia. Contudo, para Peraita, o extremo posicional necessita lidar bem com o 1 contra 1: “O Jogo de Posição tenta, por meio da posse, levar a bola até os jogadores habilidosos para o drible em situações de igualdade numérica e igualdade posicional (virados para o gol adversário), mas nem sempre será possível. Por isso, o driblador precisa ter a habilidade para girar sobre o eixo, mas também a interpretação da situação que vai enfrentar para ir para cima com chances de sucesso”.

Ainda que haja certa obrigação do atleta guardar-se em seu setor, é extremamente possível potencializar o estilo de jogo dos extremos que possuem características individuais. Agustín ainda diz que, apesar de tudo, “tudo isso é treinável”: “Um drible bem executado no contexto certo gera um contexto muito mais vantajoso ao superar indivíduos ou até estruturas defensivas completas. É por isso que um time que queira dominar desde a posse precisa de jogadores que saibam como e quando aplicar esse recurso”, conclui.

Douglas Costa é um dos jogadores com maior talento em duelos individuais [Gazeta do Povo]
Douglas Costa é um dos jogadores com maior talento em duelos individuais [Gazeta do Povo]

Hemerson Maria afirma que todos os jogadores devam participar do momento defensivo, discordando que isso robotize a equipe, mas considera a tomada de decisão uma das maiores dificuldades do jogador brasileiro: “Em um jogo de futebol, nós temos que tomar 3.500 tomadas de decisões, então, se um jogador não tiver noção do tempo e do espaço que ele tem para fazer um drible ou executar uma jogada, saber onde está o companheiro melhor colocado, ele vai ter dificuldade para colocar isso dentro do jogo de futebol”.

Mais além, sejam pelas características dos jogadores ou qualquer outro aspecto do elenco, é comum, ao menos na cultura brasileira e nem sempre de maneira positiva, que treinadores sejam obrigados a se adaptarem ao elenco disposto com o intuito de conquistar resultados a curto prazo para, então, montar a equipe de acordo com sua ideologia. Hemerson ainda afirma ter discutido isso na própria CBF: “Esse é um ponto que deu muita discussão nos cursos da CBF Academy. É uma dificuldade que todos veem como unanimidade, porque o futebol brasileiro não tem tempo de executar e pôr em prática as suas ideias. Quando tem um treinador que fica 1 ano no clube, todo mundo fica abismado, é motivo de comemoração. Isso é diferente de outros países, onde treinadores ficam anos dentro do clube ou, no mínimo, tem 1 ano para executar seu trabalho, seu modelo de jogo”. O treinador do Figueirense ainda completa: “Você vai ganhando tempo até chegar um determinado momento do ano ou o início de uma nova temporada e, aí sim, você tenta fazer uma reformulação dentro do elenco para tentar implantar a ideia que melhor se adapta ao estilo do treinador”.

Além da visão que o jogador passa, Hemerson expõe a opinião de que “o treinador brasileiro é o mais criativo” pelo fato de precisar lidar e se acostumar com o mais puro e real improviso, já que nem todas as ideias, sistemas e atletas são compatíveis.

Vinicius Junior é o maior argumento criativo da equipe na temporada [Real Madrid]
Vinicius Junior é o maior argumento criativo da equipe na temporada [Real Madrid]

O jogador brasileiro culturalmente característico, como dito no início, seguirá existindo, sendo valorizado e até mesmo priorizado em certos contextos, independentemente da ideologia proposta ou localização. Com o passar dos anos, acabou sendo natural o protagonismo das transições e momentos defensivos com o intuito de sofrer menos dentro das partidas, o que justifica os recuos dos pontas e atacantes. O futebol, ao demonstrar que é democrático, livre, feito de ciclos e épocas e das mais variadas alternativas, prova que tudo pode mudar do dia para a noite.

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