A matilha montada por Oliver Glasner

Após uma temporada de transição para um novo trabalho, os Lobos vem apresentando uma consistência que os faz sonhar com a volta para a Champions League

Após um final/começo de década sensacional para o clube, contexto em que foram campeões na temporada 2008/09 e participavam frequentemente da UCL, o Wolfsburg sofreu com más escolhas e treinadores que não se adaptaram. Chegaram a terminar a temporada 16/17 em 16º que os fez jogar os playoffs para não serem rebaixados para a 2º divisão. Hoje, parecem ter reencontrado o caminho das vitórias e, com isso, tem-se o regresso da esperança de disputar a competição de clubes mais importante da Europa.

Oliver Glasner assumiu a equipe no início da temporada 19/20, após bom trabalho no LASK, da Áustria. Conseguiu finalizar o campeonato em 7º, o que lhe garantiu a oportunidade de jogar as fases prévias da UEFA Europa League. Acabou caindo na 3º fase do torneio, uma antes de entrar na fase de grupos, o que fez com que entrasse mais pressionado para a nova temporada da Bundesliga.

Inicialmente, as análises matemáticas inferiam que a equipe terminaria a competição em 7º lugar novamente, porém,  o bom início colocou a equipe na 3º colocação e com grandes chances de classificação para a Champions League, algo que não ocorre desde a temporada 14/15 quando terminaram em 2º lugar e disputaram a edição 15/16.

Seu modelo de jogo é bem diferente do habitual para os técnicos europeus, lembra muito, inclusive, os times sul-americanos. Adepto ao 4231, gosta de um time que jogue apoiado, move a bola para a lateral e junta muito seus jogadores no setor da bola, liberando o corredor oposto para que seja explorado.

Normalmente, faz a saída em 4+2, com os dois zagueiros dando os primeiros passes, os laterais abertos em amplitude média e com os os volantes atrás da primeira linha de pressão do adversário. Porém, pode adaptar de acordo com o número de jogadores que o adversário colocar para pressionar a saída. Dá muita liberdade pro quarteto de ataque, fazendo com que fixem a última linha rival e abram espaços para seus companheiros.

Mas não faz questão de sair todas por baixo e no jogo curto, aproveita, e muito, a excelente estatura do centroavante Weghorst para superar a pressão com lançamentos longos, para que o jogador abaixe a bola e distribua.

A equipe não tem um repertório vasto de jogadas ensaiadas nas bolas paradas, porém, se aproveita bastante dos bons batedores que possui no elenco, além de jogadores que são excelentes no jogo aéreo. Lidera a liga em gols de falta cobrados diretamente, com 3 tentos

É uma equipe muito sólida defensivamente, possui a segunda melhor defesa da competição com 19 gols sofridos. Quando estabelecidos em bloco baixo/médio é uma equipe muito difícil de ser perfurada, apesar disso, sofrem muitos gols advindos da bola parada (7) e muitos gols sofridos de transições (7). Isso se explica pela forma com que a equipe ataca, como juntam muitos jogadores no setor da bola, acabam deixando muitos espaços quando perdem a posse, e se a pressão pós perda não é bem executada, sofrem os contragolpes.

Dos 19 gols levados pela equipe, 14 foram de transições + bolas paradas, isso representa um total de 76% dos gols advindos dessas maneiras

Defensivamente, marcam num 442 em bloco baixo, com o centroavante e o meia-armador à frente da 2º linha. Já num bloco mais alto é um time que gosta de encaixar com o centroavante pressionando o portador (zagueiros/goleiros), o meia no volante mais recuado, os pontas fechando as linhas de passe para os laterais e os 2 volantes nos meias adversários. O Wolfsburg é a 6º equipe que menos sofre finalizações, a 4º que menos sofre finalizações a gol, é a equipe que mais faz divididas, a 1º em tackles (1º no central) e a 2º que mais faz pressões bem sucedida

O motor da equipe é o meio-campista Maximilian Arnold, jogador que está no clube desde as categorias de base. Debutou nos profissionais em 2011 e desde então não saiu mais, sendo peça fundamental na equipe. É um meia muito refinado tecnicamente e com excelente visão de jogo, normalmente atuando na dupla de volantes, gosta de ficar atrás da linha da bola, agrupar em uma lateral e inverter o jogo pro lado vazio. Também procura muitos passes de ruptura entre as linhas, tem média de 1,3 key pass por jogo e já soma 4 assistências na Bundesliga. Defendendo é um jogador que agrega bastante, possui boa leitura para fechar linhas de passe e interceptar passes, não é um jogador que busca muito o combate. Outras qualidades são a bola parada (em faltas laterais, escanteios e faltas diretas), tem muita qualidade para bater na bola.

Seus passes normalmente tem um destino: Wout Weghorst. O centroavante holandes que chegou ao clube em 2018 é o artilheiro do time, e o 4º do campeonato com 13 gols em 19 jogos. É um atacante muito físico, que usa muito bem sua estatura (1,97m) para receber jogo direto e disputar com os defensores. Sabe fazer muito bem o pivô e ativar os meias nas costas da pressão, possui boa leitura para preencher os espaços e se posicionar na área. É uma arma importante no jogo aéreo, em escanteios normalmente busca a primeira trave para desviar em direção ao gol. Não se trata de um jogador muito refinado tecnicamente, tem bastante dificuldade quando tem a posse, porém, sabe se livrar rápido e ajudar a construção ofensiva de outras maneiras.

Outro destaque, esse menos badalado, é o brasileiro Paulo Otávio, que aos poucos vai se firmando como titular da equipe na lateral-esquerda. Diferente dos outros laterais brasileiros, é um jogador muito bom defensivamente, possui boa leitura para fechar os espaços e interceptar passes, tem uma postura corporal sempre correta para manter a linha, tem bom senso de cobertura, controla muito bem a profundidade, ótimo tempo de desarme e uma concentração durante os jogos que lembram até outro lateral-esquerdo brasileiro, Filipe Luis. Na parte ofensiva, se caracteriza mais por ser um bom iniciador de jogadas, trazendo da esquerda pro meio, fazendo a diagonal defensiva e explorando o corredor em ultrapassagens. Tem um cruzamento preciso, apesar de não ser tão presente na linha de fundo.

Fique de olho

Wolfsburg como sempre tem ótimos jovens, mas o que mais vem chamando a atenção é o zagueiro francês Maxence Lacroix (00). Em sua primeira temporada na Alemanha (apenas a segunda como profissional) já se consolidou com o zagueiro titular pela direita. Tem uma boa estatura (1,92), trata-se de um jogador longilíneo, com pernas compridas que facilitam na cobertura de uma grande faixa de campo. Sua melhor característica é o passe, é um excelente construtor, tem ótima visão de jogo, bom passe em profundidade, consegue inverter o jogo para tirar a bola da pressão, além de ajudar no jogo aéreo ofensivo. Até por ser jovem, acaba tendo problemas em manter a concentração durante o jogo inteiro, alguns erros na postura corporal e em antecipações que geram um buraco na linha defensiva. Porém, até pela baixa minutagem no profissional, essas falhas são normais. Se evoluir nesses aspectos, os Lobos ganham um zagueiro que pode ser elite na liga e até ser revendido por uma alta quantia futuramente.

É um elenco que sofreu algumas perdas significativas, a queda na Europa League, de certa forma, acabou ajudando a equipe, pois, na temporada anterior havia sofrido em conciliar duas competições dado ao elenco reduzido. Outras equipes que outrora ameaçavam ser candidatas a vaga no G4, também vem oscilando, e diferentemente dos Lobos, tem outras competições para jogar. O trabalho vem sendo bem feito, um time organizado de acordo com as valências dos jogadores, tudo leva a crer que, sim, é possível a volta para a UCL e futuramente, quem sabe, voltar a ameaçar a hegemonia do Bayern como já aconteceu em outros momentos 

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