A metamorfose da Atalanta entre as apostas nos jovens

Conhecida por apostar em jovens italianos, a Atalanta tem obtido resultados a partir da contratação de estrangeiros de projeção

Na atual temporada, a Atalanta resolveu cada vez mais apostar em jovens estrangeiros do que italianos: o que mudou no projeto esportivo?

O projeto da Atalanta comandado pelo presidente Antonio Percassi teve diversos nomes desde a chegada de Percassi ao clube, em 2010, reconstruindo uma equipe que caiu da Serie B, e logo recolocando-a na elite. Passaram alguns nomes importantes no projeto que primordialmente apostava em jovens italianos, especialmente a partir da chegada de Edoardo Reja.

Mas este processo se intensificou com a chegada de Gian Piero Gasperini em 2016 vindo do Genoa, com apostas em jovens italianos, ou mesmo em jovens de outros países formados na própria base, como foi o caso de Kessié, hoje no Milan. A Atalanta é a atual bicampeã do campeonato Primavera, a Serie A das categorias de base do futebol italiano. 

A ideia deste processo sempre consistiu em formar jogadores para jogar nas equipes de cima do clube, e lucrar por meio valorização dos jogadores por meio de um sistema de jogo interessante, modelado nos princípios modernos do futebol europeu. 

Quando o treinador piemontês chegou a Bérgamo, talvez houvesse o caminho de crescimento gradual nos planos de gestão e propriedade, feito de atenção aos orçamentos e continuidade técnica e valorização dos jovens, mas não se esperava um sucesso tão grande. 

Embora toda essa formação de jogadores seja constante, no atual elenco da Atalanta, apenas Gollini, Sportiello, Ruggeri e Pessina são italianos, embora Sportiello não seja mais qualificado como “jovem”. Mas como isso mudou nos últimos tempos?

Vale relembrar uma entrevista de Gasperini ao La Repubblica, em 2016, em que dizia: “A verdadeira força do nosso setor juvenil não reside apenas no número de jogadores inteligentes que colocamos no grande futebol, mas no fato de que elementos como Caldara, Gagliardini, Conti, Grassi e Sportiello jogam juntos há mais de dez anos. Kessié, por exemplo, cresceu aqui. Sei que já vi muitos estrangeiros pobres, sei que você prefere levar dinheiro para o exterior, mas isso não é da minha conta. Acredito que trabalhando assim é mais fácil, quase natural, montar uma boa base, transmitir o sentimento de pertencimento”.

Se há três ou quatro anos a base era o principal conjunto de jogadores que o clube tirou para fortalecer e ampliar o plantel à disposição do treinador, agora isso acontece em muito menor grau. E certamente não é mais a fonte prioritária para reforçar o elenco.

Nos últimos anos, já desde 2017, em que todos os nomes citados por Gasperini na frase sobre o setor juvenil foram vendidos para outros clubes, a Atalanta aproveitou para mudar sua perspectiva de mercado, mas sem esquecer suas bases. Apostar em jogadores jovens, mas não necessariamente com a preferência do futebol italiano.

Não há como negar que essa política funcionou, afinal de contas, ela transformou a Atalanta de uma equipe que frequentava o meio da tabela, a uma equipe que frequenta o primeiro pelotão da liga, tendo alcançado a segunda final da Coppa Italia no período na última semana, em busca de um título que não vem desde 1962–63.

Malinovskiy é um dos estrangeiros que a Atalanta investiu nos últimos anos

Mas por que essa política mudou tanto nos últimos quatro anos de forma que os italianos, grande pilar da política esportiva da Dea com o privilégio as categorias de base e a seu sistema de scouting — que a partir de 2021 terá a colaboração da agência Wallabies como parceira tecnológica a base de inteligência artificial para melhora do scouting nas Américas e na Europa, como anunciado com pompa pelo diretor-esportivo Giovanni Sartori — foram preteridos pelo projeto do treinador Gasperini nos últimos anos?

A resposta pode estar no aumento das pretensões esportivas da Atalanta, frequentando o mesmo pelotão que as seis grandes forças do futebol italiano (Juventus, Inter, Milan, Napoli, Roma e Lazio), e com a “subida de sarrafo”, os jogadores da base já não davam mais conta do que era pedido por Gasperini, o que obriga a pensar em uma metamorfose para sobreviver.

Afinal de contas, o jogo do treinador piemontês exige elementos de grande fisicalidade e dinamismo, características que não podem ser produzidas em série nas categorias de base, sobretudo se aliadas a uma certa qualidade técnico-tática. 

E embora um setor juvenil de uma grande equipe, como a Dea virou nos últimos anos, possa constantemente produzir bons talentos, existem momentos em que a especificidade das buscas faz com que seja necessário ir ao mercado.

E neste caso, não é que o trabalho da Atalanta com o Primavera tenha sido abandonado, pelo contrário. Ele serviu para que a Dea pagasse caro em Zapata na maior transação de sua história (36 milhões), e pagasse bem em Muriel (20 milhões), duas das grandes estrelas do time e que costumam resolver jogos.

Estes valores foram conseguidos pelas três grandes vendas recentes dos bergamascos: Barrow para o Bologna (13 milhões), Kulusevski para a Juventus (35 milhões), Diallo para o Manchester United (21 milhões). E o próximo da lista pode ser Colley, atualmente emprestado para o Verona, que por sua vez, emprestou, com opção de compra, um dos maiores talentos, e um dos raros italianos do time atual dos bergamascos: o meia Matteo Pessina.

Nesse caso podemos dizer que o processo da Atalanta sofreu uma metamorfose. A Dea pode ter abandonado a ideia ser essencialmente feita com atletas italianos, ou com jogadores crescidos em sua base, mas a ideia de jogadores jovens que preencham os requisitos de Gasperini permanece lá.

E é nessa ideia, que chegaram jogadores mais antigos no elenco, como De Roon, Gosens, Hateboer, Freuler, entre outros. E mais recentemente, jogadores que vem rendendo, como Malinovskyi e Miranchuk, ou até mesmo as apostas da última temporada, como Sutalo, Maehle, Mojica e Lammers, que seguem o mesmo padrão. 

Há quem diga que “a Atalanta dos jovens italianos não existe mais”, como é intitulado o texto de Alessandro Capelli para a Revista Undici que é referência para esse post, mas o fato é que a Atalanta com ou sem italianos, a base de uma metamorfose, mantém seu projeto, e por conta disso, se mantém competitiva, viva e lutando em todas as frentes na atual temporada.

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