A onda tecnicista na função do auxiliar técnico de futebol

Em entrevista ao Footure, Thiago Duarte, conversou sobre os rótulos impostos aos auxiliares técnicos, a construção da relação de confiança com o treinador e a importância da autonomia na operacionalização do treino

A função do auxiliar técnico sempre foi marcada pela estigmatização Quixoteana. Na qual, o auxiliar possuía uma relação estritamente pautada na confidência e fidelidade com o treinador. Algo muito similar a vivência entre Sancho Pança e Don Quixote, no romance escrito por Miguel de Cervantes. Ao puxar na memória, rapidamente, a relação que melhor materializa esta estigmatização no futebol brasileiro é a convivência entre Luiz Felipe Scolari e Murtosa no Palmeiras e Seleção Brasileira e, também, a dupla Muricy Ramalho e Milton Cruz no São Paulo.

Com o passar do tempo, a relação de confiança e fidelidade mantêm-se intacta, afinal, é um cargo chave dentro da comissão técnica. No entanto, é possível observar que existe uma mudança em curso, a qual passa por um novo entendimento das funções exercidas do auxiliar pelo público geral. E também por uma modificação no perfil do próprio auxiliar dentro da engrenagem do futebol. De acordo com Thiago Duarte, ex-auxiliar técnico do Sport e Santa Cruz, a visão deturpada das atribuições do auxiliar ainda continua, mesmo sendo totalmente desconexa com a realidade do dia a dia de um clube de alto rendimento.

“Bem difícil essa pergunta. Porque essa visão de que o auxiliar é o amigo e o faz tudo ainda persiste. Mas é uma visão deturpada da verdadeira função do auxiliar. É uma visão que não condiz com a realidade competitiva profissional. Ao meu ver o auxiliar é mais um treinador dentro da comissão técnica, assim como o preparador físico, o preparador de goleiros e o analista de desempenho também são. Porque todos são treinadores na concepção de ministrar e orientar o conteúdo. E se a gente for ver a função em outras modalidades como o basquete, vôlei, futebol americano e rúgbi, o auxiliar é um co-treinador. O indivíduo não está no processo para acariciar o ego do treinador e concordar com tudo que é dito. Está nessa função para seguir o líder, mas também para ser o braço direito no desenvolvimento metodológico e organizacional da equipe. O auxiliar tem que ser o indivíduo metodologicamente e operacionalmente mais capaz de pôr em pratica as ideias do treinador. Por isso, o auxiliar na minha concepção tem um papel fundamental de ser o contraponto. Porque o treinador, muitas das vezes, está tão imerso no processo que não consegue enxergar o todo. Embora não seja o que acontece na realidade. Pois a posição de primeiro auxiliar técnico – geralmente o que está com o treinador a mais tempo – se configura mais como um cabide de emprego do que atende às verdadeiras necessidades do cargo no esporte de alto rendimento”, afirmou o auxiliar técnico.

Além de conviver com a estigmatização dentro do futebol, o auxiliar técnico, tinha que driblar o subaproveitamento e o rotulo de que dentro da operacionalização do treino as principais atribuições eram apitar, distribuir coletes, recolher cones e juntar as bolas. Além de ser peça chave no cumprimento da periodização do treino, para Thiago Duarte, o auxiliar também é importante para que a equipe compreenda os porquês das vitórias ou derrotas.

“O auxiliar técnico tem que ser o profissional capaz de gerenciar todo o processo operacional do treino. Ele é o responsável por fazer toda a máquina girar. Ao passo que o treinador vai ministrando o treino, o auxiliar vai coordenando todo o processo por trás para que siga arrisca o plano conforme foi periodizado. Além disso, tem como atribuição fazer o enlace entre os departamentos físico, fisiológico, médico, sociais e administrativos, para que no momento da sessão de treino tudo saia como o planejado. Na minha concepção o auxiliar também precisa ser o contraponto após os jogos para trazer os porquês das vitórias e derrotas. Tem que ser o chato ao dizer as verdades para que não haja ilusão com os resultados. Pois as vezes se ganha sem merecer, da mesma forma que se perde sem ser merecedor. O auxiliar está dentro do processo para analisar o comportamento dos atletas de forma à longo prazo e não pontual”, concluiu.

Você confere outros trechos da entrevista abaixo.

De forma geral, quais as características para ser um auxiliar técnico?

Primeiro é preciso conhecer aquilo que se faz. É necessário entender bastante da periodização de treino. Porque, muitas vezes, acontece que o treinador por ter uma experiência maior na prática não compreende o processo organizacional da periodização do treino. Dessa forma, o auxiliar vai ser o responsável pela organização da sessão do treino. Além disso, é preciso ter um processo de comunicação bem coeso para que o treinador e os atletas compreendam o que se fala. Pois parte-se da premissa que não existe aluno burro e sim professor mal esclarecido. Outro aspecto importante é controlar as emoções e, por fim, ser sincero nas colocações.

Existem treinadores que estão procurando delegar mais a condução do treino aos auxiliares. Como exemplo, posso citar Vanderlei Luxemburgo e Felipão. A delegação da operacionalização do treino é algo positivo?

Tudo depende da autonomia que é dada ao profissional. Não sei quanto de autonomia é dada por esses treinadores. Mas se derem a autonomia que deve ser concedida, o processo de treino flui normalmente. Porque, o treinador, acaba que cumpre verdadeiramente o papel do líder. E qual é este papel? É liderar a liberdade de todos os profissionais envolvidos no processo. E vale ressaltar, que liberdade não é a mesma coisa que libertinagem. O que é a liberdade? É realizar aquilo que tem que ser feito para o bem coletivo.

Traçando um paralelo com o atleta em campo, é a mesma situação de conceder autonomia para faça o que tem que ser feito, da forma que o mesmo acredita que tem que ser feito e, novamente, restrita ao coletivo. A tendência é que o atleta consiga ter na autoestima um processo de confiança muito maior para poder executar da forma que acredita. E essa autoconfiança só é gerada a partir da autonomia.

Por isso, vejo com um pouco de desconfiança quando se notícia que treinador x,y ou z, tem dado autonomia ao auxiliar. Deixar o auxiliar apitar o treino não é dar autonomia. O auxiliar está sendo um mero árbitro de campo. Dar autonomia é dar liberdade para intervir, falar, montar, criar e fazer o treino. E o head coach tem que possuir a noção do que é autonomia e do que vem após ser concedida. Pois o auxiliar tem que ter a liberdade para errar e acertar. Afinal, esse feedback de construção é constante e o erro faz parte do processo. Nos 20 anos de carreira, vi isso acontecer poucas vezes. Encontrei 3 ou 4 treinadores que possuam essa confiança em si mesmo para conceder autonomia ao auxiliar.

Thiago Duarte foi auxiliar técnico de Daniel Paulista no Sport

Durante o jogo quais as principais atribuições do auxiliar técnico na beira do gramado?

O auxiliar está naquela região do campo para observar o que está acontecendo. Porque o treinador muitas vezes entra em um devaneio de utopia de querer o melhor sempre e não olha para o que realmente importa. São muitas emoções envolvidas. Aliás, uma das mais difíceis virtudes de um treinador de alto rendimento, por estar exposto a um contexto de pressão, é apresentar calma e ser mais racional no instante da tomada de decisão sob pressão. Então, é preciso ter um controle emocional forte para tomar a decisão em meio a pressão do resultado, do ambiente e torcida.

Por isso, vejo o auxiliar técnico como sendo o ser capaz de reunir esses atributos e melhor lidar com os cenários de pressão. Uma vez que, na escala de responsabilidade sobre o resultado, encontra-se abaixo do treinador. Então, ao meu ver o auxiliar tem a obrigação de estar frio durante o processo e não se envolver emocionalmente. E dessa forma, ler o que realmente está acontecendo no jogo.

Existe diferença entre o auxiliar fixo do clube e o que está vinculado ao treinador?

Não deveria ter diferença, mas sim, existe. O auxiliar da casa tem a responsabilidade de tentar enxergar mais as situações ao longo prazo. Por exemplo, se voltar a exercer a função de auxiliar fixo do clube vou buscar olhar mais o longo prazo e conhecer a fundo todas as categorias de base do clube, sabendo quem são os atletas, as características de cada um e quem está performando melhor.

Thiago Duarte esteve como auxiliar técnico de Milton Mendes

Como é construída a relação de confiança do auxiliar fixo do clube com o treinador? Pois já ouvi relatos de que o auxiliar é afastado totalmente do processo.

É complicado. Já tive diversos episódios constrangedores, onde as pessoas me descartaram e não me deixaram fazer parte do processo. E isso é fruto da vaidade humana. No qual o indivíduo quer controlar tudo, que acredita que sabe de tudo e que desconfia de todos com medo de ser passado para trás. De fato, existem algumas pessoas de má índole e que, realmente, querem puxar o tapete. Mas é preciso confiar nas pessoas ao redor. Não tem outra saída. E como se constrói a relação de confiança? Ao fazer aquilo que é dito. Apenas isso. Dessa forma, se cria uma relação de fidelidade. Ou seja, que se cumpre o que foi prometido.

Mas é muito difícil construir uma relação de confiança no futebol. Porque assim como a nossa sociedade, o mundo do futebol é muito vaidoso e individualista. E o dualismo cultural entre herói e vilão contribui para que não haja o fortalecimento das relações. Já estive com treinadores que são terroristas. Eles criam uma atmosfera ruim dentro do grupo, na qual ele é parte da solução. Por exemplo, estão vazando informações e ninguém sabe quem é. O treinador junta todo departamento e dá um verdadeiro esporro em todos fazendo um grande terrorismo. E de repente ninguém solta mais informação. Aí te pergunto: quem, de fato, vazava a informação?

Como é para você construir essas relações de confiança com o treinador?

É muito difícil. Primeiro porque nunca joguei bola. Segundo porque venho da faculdade e ainda existe aquela mazela de teoria versus prática. E terceiro, pois busco ser muito sincero e dizer o que tem que ser dito, independente da pessoa gostar de mim ou não. Ao meu ver, estou na função para defender o alto rendimento. E para se concretizar o alto rendimento algumas verdades precisam ser ditas e ouvidas.

Busco estabelecer uma relação de confiança a partir de muito trabalho, verdade e muita convicção nas palavras, ações e decisões. Sempre respeitando ao máximo a liderança do técnico e participando de todo processo com amor e energia. Utilizo do poder de convencimento para que a pessoa entenda o meu ponto de vista, mesmo que não concorde.

Essa sinceridade é bem interpretada pelas pessoas que fazem parte do clube?

Já fui demitido por ser sincero. Foi no Sport. Me obrigaram a expor uma opinião sobre a contratação ou não de determinado atleta. E apresentei argumentos técnicos e ambientais para a não contratação. Pois via que não tinha a necessidade de trazer um jogador com salário muito alto com o elenco sem receber a 5 meses. Porque não é justo com quem está trabalhando a mais tempo ver outro atleta chegar e receber um grande valor em dia. Isso gera um desgaste no ambiente muito grande. Mas paguei o preço por ser quem sou.

O auxiliar muitas vezes é uma ponte entre os jogadores e o técnico. Como construir uma relação de confiança entre as partes e não parecer um leva e trás?

A chave é a sinceridade. Tem que ser verdadeiro com o treinador em dizer que vai seguir determinadas regras, mas que não concorda com elas. Ou de falar ao jogador que não concordo com a opinião dele e que ele tem que fazer determinado fundamento para melhorar. Tudo passa pela sinceridade.

Assista a entrevista completa em vídeo

Entrevista completa com Thiago Duarte, ex-auxiliar técnico do Santa Cruz
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