A Roma entre o dilema dos capitães e a situação de Paulo Fonseca

A faixa de capitão romanista tem tido problemas antigos, e que aliados com os do time de Paulo Fonseca trazem discussão em Trigoria

Terceira colocada da Serie A, terceiro melhor ataque da competição, uma das melhores campanhas como mandante no campeonato, atuações convincentes em alguns jogos, boa fase de Mkhitaryan e Pedro, mais alguns jogadores, poderia ser o roteiro completo para um bom momento e céus de brigadeiro nos ares da Roma.

Poderia. Mas a paz parece não existir no ambiente de Trigoria por diversas questões. Ao mesmo tempo que o time tem bons resultados e uma campanha regular que põe o time mais a frente na Champions League, os bons resultados nem sempre apareceram nos clássicos, e o time ainda tem uma das piores defesas da liga.

Qual é a verdadeira cara da Roma de Paulo Fonseca? É a Roma que é capaz de fazer partidas seguras em casa como contra o Verona ou é a Roma que não venceu nenhum clássico, foi derrotada em largas margens em três, e ainda foi eliminada de maneira bisonha pelo Spezia na Coppa Italia?

As oscilações em campo nos clássicos são um grande capítulo. Seja pela surra sofrida no Derby com a Lazio, as goleadas de Atalanta e Napoli sobre os romanistas, e o fato de que mesmo estando na frente em alguns momentos contra Juventus, Milan e Inter, o time sofreu o empate, ou mesmo a virada.

Essas oscilações são vistas nos problemas defensivos dos giallorossi, que sofreram muitos gols ao longo do campeonato, mas que nestes clássicos, o mínimo que sofreu, foram dois gols nos empates contra Juventus e Inter, ambos jogados em casa.

Os problemas defensivos nestes jogos se veem pelos erros coletivos das táticas do treinador, mas especialmente por conta dos erros individuais. Basta lembrar o gol de Lazzari no Derby com a Lazio, ou mesmo o gol marcado por Hakimi no clássico contra a Inter, que expuseram os defeitos da defesa.

Dentre estes defeitos coletivos, está uma equipe que sofre nos contra-ataques contra equipes que impõem uma parede defensiva forte, e assim a Roma deixa espaços para ser atacada, e pra piorar, isso se percebe mais tendo em vista a relação com Pedro, que embora colabore bem para o ataque, não desempenha na fase defensiva.

É bem verdade que a Roma sofre com problemas de liderança técnica, especialmente na defesa. Nos grandes jogos, o brasileiro Ibañez, por exemplo, não desempenhou da mesma maneira como fez em alguns outros jogos do campeonato. 

Paulo Fonseca na entrevista coletiva pós-Derby, onde toda a defesa desempenhou muito mal, chegou a falar sobre “falta de experiência”, citando Ibañez, que jogava seu primeiro Derby, mas acabou falhando em dois dos três gols laziali. 

Parece até mesmo contraditório citar que a Roma tem problemas de líderes, tendo exatamente a boa fase de Mkhitaryan, os bons momentos de Smalling, jogadores que já não são mais jovens e já entram na curva dos mais veteranos, como é o caso de Pedro, e como é o caso do capitão romanista Dzeko. 

A culpa na falta de experiência pode ser grande, mas vale ressaltar a inexistência dos veteranos nos clássicos até aqui ao longo da temporada, em vista até mesmo o próprio Derby, em que até mesmo Dzeko, um carrasco laziale, esteve praticamente ausente em campo. 

E a relação com Dzeko é um capítulo a parte dos problemas da Roma nos últimos dias. Tudo por conta de uma briga no vestiário entre o capitão bósnio e o treinador português que nasceu do mico cometido na Coppa Italia contra o Spezia, em que não bastasse a eliminação em campo, tudo ficou pior com a eliminação por fazer seis substituições no jogo.

O capitão romanista, na ocasião, segundo a Gazzetta dello Sport, teria culpado o treinador pelo erro da sexta substituição, e que o meia Pellegrini teria avisado da sexta alteração, o que Fonseca não teria percebido, enquanto Pellegrini, o vice-capitão, e Dzeko insistiram com a culpa no técnico, e o português acabou por deixar o bósnio de fora das partidas seguintes e afastado do elenco. 

No fim das contas, Dzeko acabou ficando, e sua possibilidade de ir para a Inter em troca de Alexis Sánchez acabou “melada”. Até o próprio Paulo Fonseca cogitou o fato de seu retorno ao time, o que seria uma questão a resolver para as próximas semanas, mas não é uma novidade.

E não é uma novidade não se falarmos de Dzeko, mas sim, dos problemas que os capitães romanistas enfrentam com os treinadores e os dirigentes do clube desde os anos 80, e que valem ser recapitulados para o entendimento das complexas relações giallorossi.

A pressão no ambiente romanista é tão particular que praticamente todos os capitães da Roma a partir dos anos 80 sofreram pelo menos um abandono. Di Bartolomei, capitão do Scudetto de 1982–83, chegou a desenvolver depressão após ter de deixar a Loba, em um processo que acabou por lhe tirar a própria vida.

O processo de desmotivação aconteceu com Bruno Conti em alguns momentos, aconteceu com Giannini, que teve sua faixa de capitão retirada por motivos disciplinares em 1991, e mais tarde, foi coagido a deixar o clube para o futebol austríaco em 1996, na era Sensi.

Dos capitães romanistas por mais de uma temporada, apenas Aldair a cedeu voluntariamente, sem que fosse cogitada sua saída por Sensi, e entregou para o início da dinastia de Totti na capitania do clube a partir de 1998, mas mesmo com tanto tempo de magia e amor a Roma, o eterno camisa 10 teve de deixar o clube quase de maneira coagida após as brigas com a gestão Pallotta e com Luciano Spalletti.

A gestão Pallotta também foi responsável por fazer De Rossi ir embora, que mesmo sendo o líder do vestiário e capitão pós-Totti, também foi coagido a deixar o clube como o caso do camisa 10, por conta de uma reformulação acelerada em vista do salário do meia, e supostamente da questão técnica, mesmo que DDR, como era conhecido, influenciasse o time de outras maneiras.

E o “futuro capitão”, Florenzi, também foi posto em diversas negociações, como para o empréstimo no Valencia, e a ida para o PSG, onde atualmente por diversas vezes joga como titular, enquanto na lateral-direita romanista, o clube segue a utilizar jogadores como Bruno Peres, embora Karsdorp finalmente esteja decolando no time pelas suas ações ofensivas.

Em resumo, é como se a faixa de capitão romanista tivesse uma espécie de maldição. Como se quem a usasse nos jogos, e ficasse por um tempo com elas, não sobreviveria no clube, ou mesmo teria um fim sendo descartado pela direção do clube no momento como um jogador qualquer, o que quase foi o fim de Dzeko, que acabou na hora H por não deixar a Loba.

Esta relação por muitas vezes acaba por gerar desconfiança da torcida na direção do clube, desconfiança dos atletas, que ao contrário de outras discussões em outros clubes, como no caso Papu Gómez na Atalanta, optam por estar do lado do jogador.

E para um início de gestão como os de Friedkin, tão importante quanto sanar as finanças do clube giallorosso, uma das grandes prioridades no atual momento, é manter uma boa relação e um bom trato com seus ídolos, especialmente os seus capitães.

Nos últimos jogos, a faixa de capitão ficou com Pellegrini. Será que ele conseguirá manter a faixa, trazer a personalidade de Dzeko, ou mesmo ser moldado para ser o capitão definitivo romanista? É de se esperar que tenha mais sorte que os anteriores e que a política do presidente ou do técnico da vez na Roma não interfira na relação do clube com seu capitão.

Mas, ao contrário do que Paulo Fonseca deixou a entender em alguns jogos, os problemas da Roma não se resumem a faixa de capitão ou mesmo em relação a personalidade e a experiência de seus jogadores para separar a vitória e a derrota de seu time. 

Vale dizer também sobre os problemas da Roma com relação a elenco para as oscilações da equipe. O banco curto para algumas funções é um problema, e no atual mercado de inverno, apenas o retorno de El Shaarawy pode não ser suficiente para o andamento da temporada. 

Embora seja compreensível em um contexto de pandemia e incertezas financeiras, a gestão Friedkin certamente no futuro terá de pensar de que forma pode reforçar a equipe giallorossa, especialmente tendo em vista estes primeiros meses de pressão por resultados e classificação europeia. 

Ao final das situações, pode se perceber que a Roma precisa resolver os problemas do passado recente para que seus resultados melhorem ainda mais onde há dificuldades, e para que os giallorossi cumpram seu objetivo de retornar a Champions ainda nessa temporada e consigam finalmente ter o que parece não existir no clube: paz para trabalhar.

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