A Serie A se preocupa com sua imagem no exterior?

Casos de racismo, erros de arbitragem, decisões duvidosas e sem sentido: qual a credibilidade que a liga italiana quer dar a seu público?

Certa vez, em um comercial de câmeras e filmes fotográficos, Andre Agassi aplicou um slogan que serviria para vender os produtos da Canon, mas que serviria para lhe ironizarem no futuro, e perfeitamente aplicável para muitas coisas da vida: “A imagem é tudo”.

E por meio desta frase, vem uma questão: qual a imagem que a Serie A italiana produz ao torcedor e espectador de futebol do mundo inteiro? Qual a percepção frente a tantos acontecimentos no mínimo, controversos, quando não certamente repugnantes, como os casos de racismo.

Tudo isso veio em conta por causa da última semana no futebol italiano, com duas rodadas de campeonato. Seja a do meio de semana, seja a do fim de semana, com problemas de arbitragem e com mais problemas de racismo que já vem acontecendo desde o começo do campeonato. 

Recapitulando: no meio de semana, os destaques foram os erros de arbitragem, as polêmicas de Napoli e Atalanta, com os napolitanos reclamando de três pênaltis, sendo um deles, em Llorente, gerado no início da jogada que culminou no gol de empate bergamasco.

Mais tarde, a expulsão por falta inexistente de Fazio em Udinese e Roma. No mesmo horário, as polêmicas do confronto entre Juventus e Genoa pela expulsão de Cassata e pelo pênalti reclamado marcado em Cristiano Ronaldo. Lances que lideraram uma campanha de contestação as arbitragens italianas.

Na Itália, protesto contra racismo não apenas no futebol.

No fim de semana, por sua vez, já houve contestação de que em lances semelhantes, um pênalti foi marcado para a Roma no clássico contra o Napoli a tarde por toque no braço de Callejón, e a noite um pênalti não foi marcado para o Torino contra a Juventus por toque no braço de De Ligt. 

Critérios distintos, em uma arbitragem cada vez mais confusa, especialmente em lances de marcação de pênaltis, que já põem as primeiras dúvidas a uma gestão dos árbitros feita por Nicola Rizzoli como designador arbitral e Marcello Nicchi como presidente, embora estes parecem não aceitar as contestações. 

Se fossem apenas questões de arbitragem, já seria um problema. Mas de novo, casos de racismo voltaram a acontecer. Sim, voltaram a acontecer, pois já eram fatos comuns ocorridos nessa temporada. Podemos fazer com base em uma cronologia:

2ª rodada: Racismo contra Lukaku durante Cagliari-Inter

3ª rodada: Racismo contra Kessié durante Verona-Milan

4ª rodada: Racismo contra Dalbert durante Atalanta-Fiorentina.

5ª rodada: Xenofobia contra Pjanic durante Brescia-Juventus.

10ª rodada: Racismo contra os napolitanos durante Roma-Napoli.

10ª rodada: Racismo contra Balotelli durante Verona-Brescia.

Não é coincidência que segundo um estudo da Associação Italiana de Jogadores (AIC), o aumento de casos de racismo no futebol italiano aumenta progressivamente desde 2015, e sendo a mesma associação, 59% dos casos de racismo na temporada 2017–18, a última com um levantamento pronto, ocorreram em torneios profissionais. 

O pior é que na atual situação, não se move nem mesmo uma palha para ajudar. Se a impunidade já acontecia há tempos, com relação a outros casos de racismo ocorridos na década, mas sem uma grande pressão da opinião pública, na atual temporada isso tem ocorrido de maneira mais escrachada. 

Acontece porque na atual temporada, já se absolveu clubes por cânticos racistas de suas torcidas, enquanto jogadores eram punidos, por, atenção, blasfemarem contra um Deus (não específico nos xingamentos, já que “porcoddio” não diz respeito a um), em um tribunal esportivo que parece há tempos ignorar racismo até quando ele acontece por meio de atos violentos.

Um exemplo? Durante a temporada 2017–18, ao sair de campo após a vitória contra a Atalanta, Koulibaly foi atingido com uma garrafa fechada de urina e os famosos “ululati” (os uivos de macaco). A Atalanta foi julgada, e no final das contas, não perdeu nenhum jogo de fechamento de curva, e teve apenas uma multa salgada de 60 mil euros. 

Matuidi, meio-campista da Juventus, sofreu racismo em partida contra o Cagliari.

A própria arrogância e cegueira do tribunal já foi sentida nesta temporada. Um exemplo também envolvendo o zagueiro napolitano Koulibaly. O senegalês contestou a não-marcação de um pênalti em Llorente na jogada que no contra-ataque, terminou em gol do Cagliari. Foi expulso e suspenso por 2 jogos. 

Na mesma rodada, durante Brescia e Juventus, a torcida da casa, contra o juventino Pjanic, começou a proferir cânticos xenofóbicos contra o bósnio, presentes contra jogadores do Leste Europeu, principalmente com o termo “cigano”, ironizando a alta migração pós-guerras nos anos 90. A punição? 1 jogo de fechamento para a curva do Brescia, se reincidente. Critérios.

Mesma pena dada após a expulsão de Carlo Ancelotti, do Napoli, contra a Atalanta, em que o árbitro chegou, segundo o histórico treinador napolitano, a “pedir ajuda para apitar o jogo”, sem que Carletto o xingasse, apenas contestasse uma marcação. Uma arrogância presente por parte dos árbitros e do tribunal esportivo, como se fossem negacionistas do óbvio.

Discurso de negacionismo que por vezes é repetido pelos cartolas. Que o diga Giovanni Malagò, presidente do CONI, o comitê olímpico italiano, que chegou a afirmar que cavar um pênalti é uma atitude pior do que proferir coros racistas. 

Que o diga Claudio Lotito, presidente da Lazio, que disse que as vaias a jogadores negros nem sempre correspondem a atos discriminatórios, como se aliviasse pros Irriducibili da Curva Nord de seu clube, que parecem eternamente nem aí em perseguir adversários pela cor da pele e até a fazer saudação fascista (ou “saluto romano”, como eles dizem) a caminho de campos adversários.

E o que fazer quanto a isso? Os dirigentes encontraram a solução, que seria virar um negacionista do óbvio e lavar as mãos pra qualquer problema que aconteça enquanto tentam vender a liga pro exterior. Ou talvez alguns preferem ignorar, ou outros usam para fazer marketing, como se tentassem dizer “não temos nada a ver com isso, olha como o meu clube é lindo e engajado”.

E vamos ser realistas: por que não se pune com maior frequência? Porque hoje pode se punir as frequentes situações da torcida do Verona. Da torcida do Cagliari. Mas amanhã, ficaria feio passar a mão na cabeça da torcida da Lazio, da Roma, da Inter, da Juventus…

E não, não se iludam, a UEFA não pode fazer com relação a “suspensão de clubes da temporada europeia” por racismo. Primeiro porque os atos acontecem em âmbito local, onde quem deveria julgar, não o faz. Segundo porque mesmo quando deveria haver precedente, como no famoso caso de racismo contra os ingleses na Bulgária pelas Eliminatórias da Euro, poupa e dá apenas poucos jogos pra quem é reincidente.

Para resolver isso de verdade, é preciso uma maior ação dos clubes. Ação de verdade. Não uma ação de marketing bonita como fez a Inter com seu “Brothers Universally United”, que é até bom, marca posição, mas não resolve, vide o comunicado da Curva Nord interista para Lukaku aceitar o ocorrido em Cagliari porque era “parte de desestabilizar o adversário”. 

No caso mais recente, Balotelli encarou torcedores racistas em partida do Brescia.

Não algo como a Roma, que até fez bem ao punir o torcedor que invadiu o Instagram de Juan Jesus, em uma das covardias nossas de cada dia nas redes sociais, ao bani-lo das dependências do clube e do Olímpico de Roma (decisão que teve a indiferença da federação italiana), mas que não fez o mesmo quando atletas adversários foram perseguidos por membros da sua Curva Sud. 

Tampouco uma cumplicidade com setores racistas como teve a Juventus durante um bom período com relação a seus ultras e a máfia dentro deles, que chegou a acobertar a Curva Sud enquanto em vários clássicos contra o Napoli, por exemplo, se canta “Vesuvio lavali col fuoco” ou “tornate in Africa” para os napolitanos.

Serve aos clubes fazer um tratamento diário contra isso. Cortar na carne contra os ultras discriminatórios. Participar da sociedade e da comunidade onde estão envolvidos, como bem fazem os clubes alemães, não a toa a Bundesliga parece ser o local onde menos há problemas nos últimos tempos na luta racial e social nos campos de futebol. 

Serviria a atletas falarem mais contra o racismo. Serviria até a clubes que muitas vezes são vítimas nesse processo, como o Napoli e seus torcedores, embora neste caso tanto para jogadores quanto clubes, seja uma situação complicada pedir a vítima para que fizesse algo, mas seria muito importante e ótimo para o processo que eles agissem também. 

A melhor forma para resolver, no entanto, segundo minha opinião, como punição, é retomar algo feito no passado: a penalização de equipes na partida em que a violência aconteceu. Uma regra que existia na Serie A entre 1985 e 1990. E que foi amplamente cumprida. 

Que serviu também para coibir a violência contra jogadores, em vista que, em 1987–88, por exemplo, Juventus e Milan chegaram a perder vitórias conquistadas em campo por atos de violência, embora naquele tempo não se punia discriminação. 

Uma regra que acabou em 1990 por conta do problema que gerou no ano com a vitória dada ao Napoli na partida contra a Atalanta, em que o brasileiro Alemão foi atingido por uma moeda vinda da torcida bergamasca, pontos que, compensatórios ou não por polêmicas da mesma rodada, fizeram os napolitanos voltarem a alcançar o Milan na liderança da Serie A em que conquistariam o título.

Em tempos onde torcidas praticamente assumem que vale tudo para vencer, uma medida de retorno de regras como essa, poderá fazer com que pelo menos esses casos na arquibancada diminuam durante o jogo, embora nas ruas esse processo, como visto pela torcida da Roma no sábado após o jogo contra o Napoli, onde voltaram a cantar os cânticos contra os rivais napolitanos que fizeram Gianluca Rocchi parar o clássico de sábado, talvez não mude. 

Depois desta semana, como fica a imagem da Serie A, e do futebol italiano de clubes como um todo dentro e fora de campo? Será que é só mesmo a pirataria que “assassina o futebol”, como a liga e seus principais clubes fizeram campanha no início da temporada, ou decisões sem critério, violência e discriminação racial e xenofóbica que tiram a credibilidade do campeonato?

Nos últimos dias se fala mais dos erros de arbitragem do campeonato e de seus casos de racismo. Essa parece ser a imagem da liga Serie A ultimamente, e vai cada vez mais se tornando, a medida em que liga e clubes parecem ignorar os problemas, e cada vez mais afugentando o público. 

Por conta desses erros, de uma arbitragem arrogante, de meios que deveriam ser intermediários, mas que não se comportam como tal, e que não aceitam críticas, a credibilidade do futebol italiano vai para o espaço. Quando poderemos falar apenas de futebol jogado dentro de campo novamente em território italiano? 

Como é que se pode cativar um novo público dando notícia ruim toda semana por conta de uma omissão tão grande quanto a das questões de racismo, ignorando os direitos humanos e sociais, ignorando todo um possível público, e ignorando até mesmo uma massa de torcedores já presente no futebol italiano. 

Como se cria novos fãs e torcedores com tantos problemas fora de campo? Ignorando situações como essa, nem mesmo os norte-americanos e chineses, as meninas dos olhos do marketing dos clubes italianos, vão ligar para o campeonato. E assim se perde público. E neste caso, se a credibilidade vai para o espaço com as arbitragens e decisões externas, com um público rejeitado pela própria liga então, aí é que ela vai embora mesmo. 

Talvez, se a situação pesar no bolso, tomem vergonha na cara e tomem uma atitude ao menos por seus torcedores e pela grande comunidade que os representa. Enquanto isso, vivemos a discutir eternamente como se fosse em um Dia da Marmota as mesmas coisas, tomando espaços onde poderíamos discutir apenas campo e bola, mas temos de refletir sobre uma sociedade que não muda, não evolui, e quer retroceder. 

Como já cheguei a dizer no Calciopizza #12. Se você desconsiderar que falamos do caso Koulibaly no final do ano passado, vai ver que tudo que eu, Leonardo Bertozzi, Nelson Oliveira e Murillo Moret falamos, não perdeu a atualidade. Basta trocar os personagens.

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Caio Bitencourt

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