A volta por cima de Wellington Martins

“Se não tivesse ocorrido com o Wellington seguidas lesões de ligamentos, com certeza ele estaria na Seleção Brasileira" - Milton Cruz

Como de praxe, a ascensão ao profissional veio cedo. Aos 17 anos, em maio de 2008, Wellington Martins debutou no time principal do São Paulo. A chegada trouxe atrelado ao jovem a alcunha de “novo Mineiro”, volante peça-chave em conquistas do Tricolor e autor do gol que propiciou a vitória em cima do Liverpool, por 1 a 0, no Mundial de Clubes de 2005. Entre mais baixos que altos, a cria do CT de Cotia alcançou tudo que dele era esperado só em 2018, então com 27 anos. Ironias do ludopédio, defendendo justamente o clube que enfrentara em sua estreia pela elite do futebol brasileiro, uma década antes: o Athletico-PR.

À época, o São Paulo vinha de um triênio histórico de conquistas. Entre 2005 e 2008, vários atletas foram alçados à prateleira dos ídolos. Um deles, o volante Mineiro, foi um dos símbolos do período. Imponente no meio de campo, deixou o time do Morumbi rumo ao alemão Hertha Berlin, em 2006. Instalou-se, então, uma aflição no Cícero Pompeu de Toledo: quem ocuparia aquele espaço?

Embora os comandados do técnico Muricy Ramalho continuassem dando conta do recado, a questão voltou a surgir em 2007, após a saída do igualmente importante Josué. Ali, desfazia-se por completo uma das principais duplas de volantes do futebol nacional deste século. Enquanto isso, no Centro de Formação de Atletas Laudo Natel, em Cotia, muita confiança vinha sendo depositada no “motorzinho” Wellington, figura constante nas seleções de base.

Foto: AFP Photo/ Martin Bernetti

Força física, velocidade, boa capacidade de marcação e eficiência na transição ofensiva. Essas foram algumas das características que despertaram nos torcedores e dirigentes do São Paulo a esperança de que o jovem Wellington seria o futuro do meio-campo Tricolor. O empate em 1 a 1 frente ao então Atlético-PR, em maio de 2008, marcou os primeiros 45 minutos do volante vestindo a camisa do clube. Por incrível que pareça, o retorno aos gramados só aconteceu em agosto, contra a mesma equipe, em duas partidas pela Copa Sul-Americana. Os únicos 223 minutos em campo na primeira temporada como profissional foram ante o Athletico-PR.

“O Wellington chamava muita atenção não só pela qualidade técnica, por ser um volante com boa saída de jogo, mas pela dinâmica que ele tinha desde as categorias de base. Sempre era convocado para as seleções, sendo capitão. Sempre foi um exemplo de garoto, novinho e com muita liderança. A personalidade, caráter, de cobrar até os mais experientes. Sempre vimos muito potencial nele desde aquela época”

Milton Cruz, que atuou como auxiliar técnico do São Paulo por 22 anos, em conversa com o Footure

No biênio seguinte (09-10), foram apenas 16 partidas disputadas. Ainda assim, em 2010, foi campeão Sub-19 pela Seleção Brasileira, no Torneio Internacional do Mediterrâneo – sendo eleito melhor jogador da competição. Em uma breve passagem, Adilson Batista, em 2011, cogitou fazer de Wellington um “novo Ramires”, volante com quem o técnico trabalhou no Cruzeiro, em 2008 e 2009. Todavia, não vingou na função.

A convivência com as lesões

Em 2012, o primeiro grande baque: durante um treinamento, em fevereiro, rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo. Seis meses longe dos gramados. Retornou no dia 30 de agosto, na vitória por 4 a 0 em cima do Botafogo. Rapidamente, recuperou a vaga entre onze iniciais e conquistou a Copa Sul-Americana, fazendo dupla com o também prata da casa Denílson.

“Naquele título da Copa Sul-Americana, ele já era um dos líderes, mesmo com um elenco muito forte e de atletas experientes. O grupo o respeitava bastante pelo fato de ele ter uma voz ativa. Novo, com 23 anos… alguns jogadores se firmam cedo no profissional; outros, não. Ele, nessa faixa de idade, já era titular absoluto”, conta Milton Cruz.

Wellington vinha se mostrando importante, e o São Paulo aproveitou isso também fora de campo, “fatiando” o jogador. Em 2010, cedeu 25% dos direitos econômicos do atleta em uma negociação para a aquisição do meia Cléber Santana. Em 2012, o Shakhtar Donetsk ficou com 30%, devido a chegada de Jadson ao Morumbi. Só 45% pertenciam ao clube.

O ano de 2013 foi marcado por oscilações e, em 2014, após sete temporadas e com a torcida já pegando no pé, Wellington, aos 23 anos, deixou o clube e rumou, por empréstimo, para o Internacional. Rapidamente, conquistou a titularidade e carinho dos colorados, até que a mesma lesão de 2012 retornou. Por conta do rompimento do ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo, passou nove meses fora. O retorno, em 2015, não veio acompanhado das boas atuações. Não fosse o bastante, já no fim da temporada, outro revés. Junto com o volante Nílton, foi pego no exame antidoping por uso de hidroclorotiazida e clorotiazida – diuréticos – durante três jogos no mês de setembro. Punido, foram mais cinco meses longe dos gramados, entre novembro de 2015 e abril de 2016.

“Vou falar para você, eu acho que faltou um pouco de paciência. Como a torcida não teve paciência com o Júlio Baptista, com o Edmílson, Casemiro… faltou com o Wellington também. Esse problema do jovem que sobe e oscila, é normal”, analisou Milton Cruz acerca da saída do volante do São Paulo em 2014.

Não permanecendo no Internacional, retornou para o Morumbi. Embora ainda estivesse cumprindo suspensão pelo doping, Wellington sofreu outra lesão. Em treino, rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho direito. Outros seis meses de recuperação. Após praticamente um ano fora, somando punição e lesão, voltou sem muito espaço. Foram sete partidas entre outubro de 2016 e abril de 2017, até que surgiu um novo empréstimo, desta vez para o Vasco.

Minutagem pelos clubes, desde 2008 (Imagem: Eryck Gomes)

Ainda lento na recuperação do bom futebol, voltou a ter o maior número de partidas disputadas desde o período 2011-2013 pelo São Paulo. A volta por cima rendeu, em dezembro de 2017, o acerto em definitivo com o Gigante da Colina por mais três temporadas. Mas uma polêmica surgiu logo em 2018.

Ao lado de Paulão, Evander e Gabriel Félix, Wellington estava presente numa imagem publicada nas redes sociais onde os atletas criticavam as vaias da torcida. Acabaram sendo cortados da partida frente ao Universidad de Chile, pela Libertadores, em maio. Após o episódio, só voltou a entrar em campo no empate em 1 a 1, contra o Cruzeiro, no dia 06 de junho.

As coisas mudaram de vez, para melhor, em julho, com o acerto junto ao Athletico-PR.

“Esse desempenho dele no Athletico-PR é o que ele apresentava nas categorias de base. O problema dele foi a quantidade de lesões. Infelizmente, não fosse essa questão, provavelmente teria uma carreira lá fora (exterior), também, como aconteceu com o Casemiro”, afirma Milton.

Titularidade absoluta, troféus e faixa de capitão. Aos 27 anos, Wellington atinge o auge da carreira desempenhando papel primordial na equipe montada pelo técnico Tiago Nunes. Já experiente, talhado por passagens delicadas no futebol, o volante transformou-se numa voz firme no vestiário, respeitado pelo grupo de jogadores – tal qual o período da base. Campeão da Copa Sul-Americana e Copa do Brasil, demonstrou dentro de campo qualidades que conservou desde Cotia. Bom posicionamento à frente da defesa, capacidade de marcação apurada e dominante na transição ofensiva, ponderando bem os momentos de aceleração e essencial na saída da zona de pressão. Avaliando todos esses atributos, não sobra dúvidas a Milton Cruz.

“Se não tivesse ocorrido com o Wellington seguidas lesões de ligamentos, com certeza ele estaria na Seleção Brasileira. Tudo isso que está acontecendo hoje é o que a gente imaginava para ele no São Paulo .”

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