Brasil, um país continental com treinadores sem tempo e jogadores sem descanso

Você já deve ter ouvido a frase "o Brasil é um país continental". Bem, essa afirmação não está errada. A questão é o efeito para os clubes de futebol no país. Em levantamento feito pelo Footure, os números mostram que clube brasileiros viajam duas vezes mais do que europeus e, mesmo dentro do Brasil, há diferença entre equipes da região Sudeste e Sul/Nordeste. Confira:

Fortaleza, 12 de agosto. O Leão do Pici enfrenta o Grêmio pelo Campeonato Brasileiro. Para isso, precisou viajar cerca de 3.215 km até Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. Um voo que, se fretado, dura por volta de 6 a 7 horas.

Durante a partida, a equipe de Rogério Ceni não consegue manter o ritmo apresentado há dois dias quando enfrentava o Palmeiras, no Castelão. Precisou poupar alguns atletas desgastados após o duelo. O problema é que a equipe precisa voltar de Porto Alegre — e lá se vão mais 3.214 km e algumas horas de voo – para jogar dia 15 contra o Ceará, no clássico local. Mais alguns atletas poupados e derrota na partida.

Dois dias depois, dia 17, o clube precisa viajar até Santos para enfrentar o Peixe, na Vila Belmiro, dia 18. Lá se vão mais 2.401 km para ir até a cidade praiana. Dentro de campo, força máxima e uma vitória, mas para isso dois jogadores sentiram lesões musculares porque o elenco era curto e eles precisavam jogar mesmo com um acumulo de jogos.

“A Europa cabe no Brasil”. Sim, com exceção da Rússia, todos os países europeus se encaixam nas dimensões brasileiros (Blog: Conhecendo Geografia)

Essa sequência de jogos nunca existiu de verdade, mas são situações que o futebol brasileiro nos contempla a cada ano. Clubes de futebol viajando mais do que treinando, tendo problemas musculares, treinadores sem conseguir passar suas ideias e, consequentemente, sendo demitidos. Neste levantamento realizado pelo Footure, queremos mostrar a impossibilidade de manter a alta intensidade ao longo de uma temporada — e por isso ainda comparamos com clubes europeus.

Flamengo, o elenco campeão de 2019

Diego Alves; Rafinha, Rodrigo Caio, Pablo Marí e Filipe Luís; Arão, Gerson, Everton Ribeiro e De Arrascaeta; Gabigol e Bruno Henrique. O “XI de gala” do Flamengo só pôde ser visto 8 vezes começando uma partida.

Jorge Jesus precisou girar o elenco — que era ótimo — para disputar de maneira simultânea Brasileirão, Libertadores e Copa do Brasil. Dentro da sua chegada, ainda foi eliminado na copa nacional para o Athletico Paranaense.

Antes de começar a temporada, o clube acertou sua participação na Florida Cup, o que levou a viajar até Orlando, cerca de 7.033km distantes do Rio de Janeiro e, contabilizando a viagem de volta, um total de 14.066km percorridos.

Situado no centro do Brasil, o Rio de Janeiro é um dos estados onde as equipes menos viajam. Pegando apenas o Brasileirão, o Flamengo viajou cerca de 30.062km nas dezenove rodadas. É preciso levar em conta que três jogos são na própria capital carioca (Fluminense, Botafogo e Vasco) e descontando os jogos que não foram disputados no seu local original.

Entrando apenas nas oitavas de final da Copa do Brasil, o rubro-negro teve pela frente duas viagens: São Paulo e Paraná. Totalizando pouco mais de 2.066km.

Indo adiante, o Flamengo chegou até a final da Libertadores da América, ou seja, precisou fazer algumas viagens pelo continente. Além das duas idas a Porto Alegre — para enfrentar Grêmio e Inter —, o clube foi a Asunción, Oruro, Guayaquil (duas vezes), Montevidéu e Santiago, para a grande decisão. Foram 37.402km viajados neste período. O título foi coroado num dramático jogo contra o River Plate. Pela frente, uma viagem para Doha.

Para disputar o Mundial de Clubes, o Flamengo chegou a preservar alguns jogadores na semifinal devido ao desgaste dos 11.519km para viajar até a capital catari — sem contar o mesmo número para volta. O Rubro-Negro chegou a contratar um avião de luxo para o descanso ser potencializado nas viagens.

Ao todo, o Flamengo viajou 106.634km. Levando em consideração que para dar uma volta na Terra precisamos viajar 40.000km, o time carioca teve duas voltas e meia no globo.

O Grêmio “precisou” esquecer o Brasileirão

“É o preço de jogar três competições”. Estas foram as palavras de Renato Portaluppi após o Grêmio, com diversos jogadores poupados, perder para o Atlético/MG por 3 a 1, em Minas Gerais, pelo Brasileirão 2020. A frase foi este ano, mas serve para 2019.

Se o Flamengo está no centro do país, o Rio Grande do Sul, como o nome já diz, está mais abaixo no Brasil. Por isso, uma boa parte das viagens acaba sendo mais longa — apesar de muitos clubes na região Sul/Sudeste. Dentro dos 19 jogos disputados fora de casa na competição nacional, foram 49.718km percorridos, o equivalente a pouco mais que uma volta na Terra.

Junto com o Brasileirão, o Grêmio ainda disputava a Copa do Brasil, onde chegou até as semifinais e, mesmo entrando apenas nas oitavas de final, teve o “azar” de enfrentar o Bahia e uma longa viagem para capital baiana, Salvador. Foram 5.962km na copa nacional.

Na Libertadores, duas idas ao Paraguai, mas também contou com a “sorte” de duas viagens locais: Rio de Janeiro e São Paulo. Mesmo assim, foram 12.892km percorridos pelo Tricolor Gaúcho.

Fortaleza, o clube mais distante do Brasil

Personagem deste início de texto, o Fortaleza vive o “problema” de não ser o clube mais rico do Brasil e, por isso, não ter a disposição um elenco tão numeroso para rodar nas competições.

Situado quase no extremo Norte do Brasil, qualquer viagem do Campeonato Brasileiro é longa para o Leão do Pici, com exceção do clássico local contra o Ceará ou a “curta ida e volta” até Alagoas (1.452km). Ao todo, foram 82.734km da equipe apenas na competição nacional.

Para um simples efeito de comparação, este número é quase o triplo do Flamengo e o dobro do Grêmio. Números complicados e que diminuem o tempo de treino.

Por fim, precisamos mostrar algo curioso. O Fortaleza, na Copa do Brasil, em apenas um jogo contra o Athletico percorreu uma distância maior (5.344km) do que em quatro jogos da Copa do Nordeste em que foi campeão, quando fez 4.776km.

O Liverpool campeão europeu não deu uma volta ao mundo

Por fim, o Liverpool foi campeão da Liga dos Campeões 18/19 e, mesmo assim, não chegou nem próximo dos km’s percorridos pelos três times citados na matéria.

A pré-temporada foi disputada em Miami, por isso o clube acabou tendo que viajar (ida e volta) cerca de 13.788km até a cidade litorânea dos Estados Unidos. Apesar disso, na disputada da Copa da Liga, por exemplo, acabou caindo pro Wolverhampton e viajando apenas 216km.

Na Premier League, onde acabou sendo vice-campeão, o Liverpool percorreu cerca de 7.410km. Notem que a diferença para o Brasil é abissal, independente do estado em que a equipe se encontre. Mesmo o Flamengo, que menos percorreu distâncias, teve quatro vezes mais km’s apenas no campeonato nacional.

Na Liga dos Campeões, algumas viagens mais longas e, de qualquer forma, teve números parecidos com o Grêmio (pouco mais de 12 mil km) com uma partida a mais que o Tricolor.

Vale ressaltar que, o Mundial de Clubes não é calculado em 2018/2019 porque, para os clubes Europeus, ele acaba se encaixando na temporada seguinte. De qualquer forma, se fôssemos contar a ida até Doha, seriam 10.902km que, somados aos 38.618km, teríamos o Liverpool viajando cerca de 49.520km, números ainda muito inferiores aos outros três times analisados.


Você deve ter notado que excluímos da contagem de km’s percorridos os estaduais, mas mantivemos o número de jogos da temporada. Por quê? A maioria dos clubes se desloca pouco na disputa dos regionais — com exceções, claro —, o problema está nos 16/17 jogos a mais que se fazem no início do ano, antes do início do Brasileirão.

No mais, qual a conclusão que podemos chegar com isso? Bom, são muitos os profissionais que trabalham no futebol que falam sobre a sequência de jogos e as longas viagens. Entretanto, irei destacar a entrevista de Enderson Moreira que resume as reclamações de todos.

“Qual jogo não decisivo para nós? Todo jogo é decisivo, todo jogo é importante, todo jogo temos que ganhar! Mas tem uns doze dias que eu estou aqui e já fiz quatro jogos, estou mais como entregador de camisas do que como treinador. O técnico do Flamengo me perguntou como nós conseguimos trabalhar assim, disse que precisamos fazer um protesto, alguma coisa, porque é inadmissível o que eles fazem em termos de sequências de jogos, essas viagens… Então esse é o relato de quem está vindo de fora e está convivendo um pouco com essa sequência. E é assim, mal recuperamos os atletas, não conseguimos treinar, eu não consigo desenvolver que a gente pensa em fazer, mas temos que tentar melhorar”

Enderson Moreira, após jogo contra o Flamengo no Brasileirão dia 13/10/2020

Com pouco tempo para treino, menos momentos para implantar a sua filosofia e a equipe ter sua “cara”. Além disso, a necessidade de rodar o elenco a todo instante e não dar sequência para sua equipe.

Não é que o número de viagens e km’s percorridos seja algo preponderante na exibição de uma equipe, mas é fundamental para entender o contexto em que o clube vive. Qual o estágio de preparação? Quantos treinos o técnico teve na última semana? Quantos jogos o titular atuou? Qual a chance dele estourar fisicamente? Como cobrar intensidade de uma equipe quarta e domingo com tão pouco tempo para descanso?

São muitas perguntas a serem feitas. Algumas com respostas, outras que precisam de soluções. E você, o que faria para diminuir o número de viagens e, quem sabe, melhorar a qualidade do nosso futebol?

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Gabriel Corrêa

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