Celta de Vigo: do moedor de técnicos à esperança em Coudet

Com cinco demissões nos últimos dois anos, os Celta de Vigo apresenta dificuldade no início da La Liga 2020/21

Flertando com o rebaixamento nas últimas duas temporadas, o Celta de Vigo passa por diversos problemas, tanto dentro das quatro linhas quanto fora delas. Desde a vaga europeia conquistada em 2017, o time não conseguiu se consolidar de vez dentro do campeonato espanhol — e as consequências disso são enormes.

Por sorte ou por Iago Aspas, o time conseguiu se manter na elite por duas temporadas, nas quais parecia tudo ser condicionado ao rebaixamento. Em 2020/21, o time se encontra em 17º lugar, mesma posição em que terminou as temporadas 2019/20 e 2018/19.

Com apenas uma vitória em nove jogos, o clube decidiu pela demissão do treinador Óscar García, seis meses depois de renovar por duas temporadas com o mesmo. O Celta anunciou hoje (12) Eduardo Coudet, ex-Internacional, como novo treinador.

Moedor de técnicos

Nos últimos três anos a diretoria tomou diversas decisões precipitadas nas escolhas dos técnicos. Com isso, as consequências chegaram: cinco demissões nos últimos dois anos.

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Desde a saída de Berizzo para o Sevilla em 2017, os problemas da diretoria e de um elenco que foi se tornando mais fraco com o tempo começaram a se tornar cada vez mais evidentes.

Juan Carlos Unzué, assistente de Luis Enrique no Barcelona, foi a escolha para substituir Berizzo. Em seu primeiro ano como treinador em Balaídos, terminou em 13º lugar – mesma posição do clube na temporada anterior, ainda com Berizzo no comando. Por mais que uma temporada inteira tenha sido tempo aceitável para trabalhar com o grupo e expor suas ideias, a diretoria se mostrou um tanto quanto insatisfeita com os resultados finais e decidiu pela demissão de Unzué.

Em vista do trabalho acima da média que Berizzo fez durante a temporada anterior — chegou à semifinal da Europa League depois de anos sem disputar uma competição europeia, sendo eliminado pelo futuro campeão Manchester United de José Mourinho —, era compreensível o salto alto da diretoria, mas nada que justificasse decisões irracionais. E, com o tempo, elas pioraram ainda mais.

Assim como Coudet, Antonio Mohamed nunca havia trabalhado na Europa, e foi o escolhido da vez para entrar no moedor. Com apenas sete meses no cargo, acabou sendo demitido em novembro de 2018, depois de 12 partidas e apenas três vitórias.

Por mais que os desempenhos e performances durante os 90 minutos fossem contestáveis, havia uma base para trabalhar. Naquele momento, o ataque era o terceiro melhor da liga, atrás apenas de Barcelona e Sevilla. Apesar disso, os 22 gols marcados pelo Celta no tempo que Mohamed esteve por lá não foram o suficiente para se manter em uma posição confortável na tabela.

Da mesma forma que o ataque se mostrava letal e bem organizado, a defesa era um tanto quanto questionável — 20 gols sofridos e a terceira pior da liga. Dessa maneira, era impossível fazer partidas consistentes sem sofrer na primeira linha.

Com isso, já temos duas demissões contestáveis, e com base em dois conflitos: trabalhos na média e com potencial para melhora. Além dessas questões, o elenco vinha perdendo peças importantes e não se reforçando adequadamente.

Após a demissão de Mohamed, Miguel Cardoso assumiu o controle do comando técnico do clube. Entretanto, o português não conseguiu manter o volume ofensivo (Iago Aspas se lesionou gravemente nesse tempo) e o aperfeiçoamento da defesa não aconteceu. Com 10 derrotas em 15 jogos, não durou menos de seis meses no comando celeste.

Já em março, o clube lutava para se manter na elite e o desespero tomou conta de vez. Fran Escribá chega em mais uma péssima decisão da diretoria para tentar salvar a equipe do rebaixamento. De fato conseguiu, mas, exclusivamente, pelos gols e determinação de Iago Aspas, que fez o impossível dentro de campo, sendo fundamental para permanência do Celta na elite do futebol espanhol.

Aspas marcou 20 gols e deu seis assistências em 27 jogos da La Liga durante a temporada 2018/19.

Para a temporada 2019/20, Óscar García chegou ao clube. O elenco, no entanto, continuava se enfraquecendo, e a única ilusão que se mantinha por parte da torcida era o ídolo Iago Aspas. Denis Suárez e Rafinha foram contratações interessantes dentro do contexto, e o zagueiro Aidoo tinha potencial para se aprimorar dentro do jogo espanhol. Nolito retornou à equipe para completar um ataque mais experiente e Santi Mina seria importante como um escape.

Problemas da defesa continuavam, mas o setor criativo era cada vez mais problemático e incrivelmente pavoroso. Poucas jogadas bem trabalhadas, péssimo aproveitamento de contra-ataques e 11 jogadores completamente estáticos dentro de campo. O resultado foi o mesmo: luta pela permanência até a última rodada, 17º lugar e o sentimento de alívio novamente.

Mesmo com uma temporada tenebrosa, vem aí a hipocrisia. Uma diretoria famosa por demitir treinadores com pouca base para tal, decidiu, sabe-se lá o porquê, manter um técnico que não demonstrava absolutamente nenhuma proposta decente por toda uma temporada. Mas que tipo de pensamento “racional”, depois de demitir quatro treinadores, faz alguém deixar no comando técnico o profissional que menos demonstrou boas ideias em um bom tempo de trabalho? Cômico se não fosse trágico.

Desafios de Eduardo Coudet no Celta de Vigo

Hoje, Coudet chega sendo o principal e único responsável por solucionar problemas gigantes dentro do Celta. Além de tudo, terá a missão mais difícil que um treinador pode enfrentar: conseguir se manter firme diante uma diretoria cada vez mais impaciente e inconsequente.

Parecido com o que Valencia vem sofrendo com seu dono, o Celta tem dificuldade para crescer a partir de um técnico que consiga, de fato, um tempo de trabalho mínimo para implementar suas ideias — ainda mais tendo um elenco fraco, com diversos buracos. O Celta piorou seu grupo de jogadores nos últimos anos, e, com certeza, esse é um dos infinitos fatores que levaram o clube à situação atual.

O resultado imediato é necessário, e essa pode ser a parte mais difícil dentro das quatros linhas — ainda mais se tratando do passado recente e situação atual dentro da La Liga. O ótimo trabalho feito no Internacional é uma luz para Coudet em sua primeira ida à um clube europeu. Com o time colorado, teve um bom grupo titular, porém um elenco curto nas mãos e bastante abaixo dos concorrentes ao título, como o Flamengo, por exemplo.

A pressão vinda da diretoria céltica pode ser menor por todo o desastre nos últimos dois três anos, e o respaldo deve vir com o tempo – além do mais, quando ainda era jogador profissional, Coudet chegou a jogar com a camisa celeste.

Sua maior missão fora dos gramados é enfrentar os desejos irracionais dos que estão por trás do clube. Todavia, é necessário que os jogadores comprem sua ideia, ,e assim, a potencialização do jogo físico deve vir com tudo, tornando a equipe mais competitiva no cenário nacional.

A missão é complicada, visando toda a premissa atual do Celta de Vigo. Apesar disso, é esperado que todos os erros passados se tornem uma forma de aprendizado para que todos possam trabalhar da melhor maneira possível nessa nova jornada.

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