Como o Verona virou uma das melhores defesas da Serie A

Ou como Ivan Juric soube entender bem a realidade do Verona e fazer um time competitivo a partir da defesa, apesar dos problemas no ataque

Junho de 2019: A torcida do Verona reagiu revoltada a contratação de Ivan Juric, que teve seus bons momentos no Genoa, mas que não havia a confiança para que se fizesse um bom trabalho de manutenção do time na primeira divisão do futebol italiano.

Todo mundo que olhou o time do Verona na primeira rodada da Serie A, contra o Bologna, pensou até que esse time mal faria pontos no campeonato. Cito aqui um tweet da escalação de meu amigo Nelson Oliveira, o homem por trás da Calciopédia, que cita a situação:

Pois bem, o Verona vem reagindo bem. Algo explica a boa oitava colocação no campeonato até aqui, com bons jogos mesmo nas derrotas, e com uma consistência nos pontos conquistados, especialmente nas vitórias, como a deste último domingo diante da Fiorentina.

Não pense que o ataque não produz. Ele até produz. O problema é a pontaria dos atacantes. Mas os gols marcados por outros, acabam bastando para as vitórias. Não a toa a artilharia dos gialloblù é tão dividida em 2 gols pra Miguel Veloso e Pessina, meio-campistas. 

Não a toa o principal centroavante do esquema de Juric, Di Carmine, marcou seu primeiro gol nesse domingo contra a Fiorentina. E isso não é um problema de produção. Isso é demonstrado pela métrica do Expected Goals. O número de gols “produzidos” na métrica gira em torno de 14.91. Mas no campeonato são só 11.

Se o ataque é tão ruim, quem salva? A defesa. Não a toa é a segunda melhor defesa do campeonato até aqui, com 10 gols sofridos, marca que só a Juventus tem como menor, com 9 gols sofridos, e a chave para a eficiência tática dos veroneses. 

Para entender Juric, muitas vezes é preciso entender Gasperini, já que as ideias do croata, que foi auxiliar de Gasp na Inter, são semelhantes em alguns pontos, como na marcação homem a homem e na intensidade na fase de jogo sem a bola.

O seu Verona é basicamente uma equipe com uma fase de pressão particularmente agressiva e que sempre tenta recuperar a bola em áreas avançadas do campo, com uma grande marcação sendo feita no meio-campo, embora não seja tão eficiente pelas laterais.

O maior exemplo desse esquema foi visto na vitória suada da Juventus sobre esse Verona por 2–1, com os juventinos tendo dificuldades para avanços ofensivos, já que Bentancur tocou pouco na bola por conta da marcação de Verre, e Matuidi e Ramsey eram perseguidos por Amrabat e Miguel Veloso.

Aqui o exemplo da pressão do Verona de Juric nos meio-campistas da Juventus de Sarri (Foto: L’Ultimo Uomo)

É uma constante ver o Verona fazendo pressão em equipes que se formam com jogos como o da Juventus e o do Napoli, que sofreram para vencê-lo. Isso dá certo porque Juric consegue convencer todos os seus atletas a jogar com uma atitude tão intensa e corajosa.

Alguns são mais fáceis de se aplicar esse esquema, como é o caso de Amrabat, que está entre os líderes de desarmes do campeonato. Outros, que trabalham melhor na fase de passes, estão se adaptando, e indo bem, como o caso de Miguel Veloso, que na fase de construção serve talvez como um regista, e defensivamente se destaca na cobertura das linhas de passe. 

O Verona tem jovens revelações, como o zagueiro albanês Kumbulla, de 19 anos, já com interesse da Juventus, que sai mais pro jogo e sobe mais a marcação como terceiro homem da defesa, mesmo quando está no campo de ataque.

Isso acaba funcionando bem com bons números de interceptações e desarmes do albanês por conta da cobertura de seus parceiros de zaga, o kosovar Rrahmani, e o alemão Gunter, ambos de 25 anos. Todos do trio sabem não apenas fazer coberturas como sair para o jogo se necessário, o que ajuda muito para o sistema de Juric.

Exemplo de marcação homem a homem do Verona, agora contra o Napoli. Observe a altura dos zagueiros, com Gunter e Kumbulla mais adiantados na marcação. (Foto: L’Ultimo Uomo)

O problema é que a marcação do Verona homem a homem, por muitas vezes torna-se agressiva demais. É bem verdade que essa marca caiu nas últimas rodadas, mas até aqui o Verona teve 31 cartões amarelos e 3 expulsões ao longo do campeonato, o terceiro com a maior marca de expulsões, atrás apenas de Milan, Roma e Genoa. 

Por outro lado, há grandes diferenças de Juric e seu mentor Gasperini, como bem ressalta o jornalista Jacopo Azzolini neste bom texto do L’Ultimo Uomo: 

(…) Como demonstrado nos últimos jogos da Atalanta (tanto na Liga dos Campeões quanto no empate contra a Lazio), é muito difícil adotar uma fase defensiva focada em duelos individuais em geral, o que, portanto, não visa manter uma forma específica sem a posse. Um adversário de drible eficaz pode criar grandes problemas, uma vez que toda vez que um jogador é pulado, são criados desequilíbrios que podem atrapalhar a estrutura defensiva geral. Além disso, é um estilo que não pode ser separado da dominação física do jogo: quando há uma diminuição na intensidade e a Atalanta erra o timing da pressão, o oponente encontra vários espaços (…)

No caso do Verona, Juric tenta aplicar de maneira diferente. Em seu time é raro ver um zagueiro solitário contra três defensores do mesmo jeito que é raro que Lazovic e Faraoni vão pro ataque contra os laterais adversários. Gasperini mantém os laterais altos mesmo na fase sem a bola, enquanto Juric procura fazer voltar ao máximo pra defesa, e fechar uma linha de 5 quando o adversário tem a bola.

Lazovic e Faraoni, por sinal, no 3–4–2–1, ou 3–4–1–2, a depender da escolha técnica e da disponibilidade ofensiva, tem função importante na fase defensiva e na fase ofensiva. Na defensiva, por muitas vezes os dois fazem um papel baixo para impedir que os adversários ataquem por ali, algo que melhorou muito nos últimos jogos, a medida em que Juric corrigia os erros pelas laterais.

Aqui, contra o Milan, Lazovic e Faraoni fecham uma linha de cinco, somando-se aos três zagueiros, pra não dar amplitude ao ataque rossonero (Foto: L’Ultimo Uomo)

O maior exemplo disso foi na vitória diante do Parma, quando Lazovic e Faraoni, em vez da pressão sobre os zagueiros, acabaram por vezes fechando as linhas para impedir as progressões dos rápidos Gervinho e Karamoh, o que acabou dando resultado positivo para os gialloblù.

Dependendo do contexto, o Verona escolhe se defender de forma posicional, especialmente no segundo tempo, em contextos de mais cansaço, e que a marcação homem a homem não funciona tão bem por conta da exaustão natural dos jogadores. 

Isso é feito de maneira em que o Hellas consegue ser compacto e preciso até o final, já que mesmo nos últimos minutos é difícil encontrar espaços contra os gialloblù, em um sistema onde até Stepinski, que até aqui decepciona, sem fazer os gols que fazia pelo rival Chievo e estando zerado no ataque, pode colaborar muito bem. 

Aqui, Stepinski, se não colabora no ataque, colabora na defesa contra o Parma. (Foto: L’Ultimo Uomo)

É claro que o nem tão jovem goleiro Silvestri, de 28 anos, tem parte nesse processo, sendo um dos bons nomes do campeonato até aqui, com média de defesas (3,3/jogo) maiores que nomes da seleção italiana como Donnarumma (3,1/jogo) e Meret (2,9/jogo).

A ideia de pressão alta está crescendo nos times italianos, em vista essa coluna que cita alguns deles semana sim, e semana também, com sistemas bem organizados nos times de maiores e menores pretensões na tabela, e cada vez mais abandonando a ideia de “saber sofrer”. 

Não se pode esperar um Verona ofensivo em relação as peças que se tem. Mas um time que jogue pelo resultado e que faça a busca pelo seu objetivo principal: ficar na Serie A. E neste momento, o pragmatismo de Juric, somado a uma leitura correta da realidade feita não só por ele, como por seu elenco, vai deixando os gialloblù a sonharem com algo mais que apenas fugir da Serie B. 

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Caio Bitencourt

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