Como Vardy vive seu auge aos 32 anos?

Em idade avançada, o atacante é artilheiro da Premier League e simboliza a campanha vitoriosa do Leicester. Sob o comando de Brendan Rodgers, não para de evoluir.

O auge parecia ser também o limite. Jamie Vardy, que quatro anos antes estava na quinta divisão, levantava a taça de campeão da Premier League pelo Leicester City em uma história que parecia conto de fadas. Já tinha 29 e não se encaixava na categoria de jogadores promissores. Mas não parou por aí. Continuou se desenvolvendo e colhe os frutos do trabalho em 2019/20.

Desde a chegada de Brendan Rodgers, em fevereiro, é quem mais balançou as redes no campeonato inglês e artilheiro da atual temporada. Aos 32, completando 33 em janeiro. Como parece cada vez melhor? Para o treinador galês, a mentalidade do atacante faz a diferença.

“Vocês podem considerá-lo apenas um matador, mas Jamie conhece profundamente o futebol. Seu posicionamento e a leitura do jogo… Ele ama isso. Assiste. Quantos jovens atletas fazem isso hoje em dia? Mas ele faz, vê as partidas, fala de futebol. Eu tenho ficado muito animado ao ver o nível de conhecimento que ele tem.

Vai totalmente contra o estigma de ‘old school‘, de certa forma desatualizado, que se criou do camisa 9. Ele está disposto a adicionar repertório pro seu jogo e, crucialmente, cuida do corpo como um verdadeiro profissional de elite. A decisão de se aposentar da Seleção foi pessoal, visando o prolongamento da carreira. Está alinhado com o clube, que lhe dá folgas extras e gerencia seu tempo a fim de mantê-lo saudável.

“Se nós temos o espaço pra encontrá-lo, sabemos que ele vai se distanciar porque aquela explosão de velocidade é incrível. Ele obviamente foi abençoado geneticamente, mas também cuida muito bem do seu corpo. Está mais maduro agora. Treina duro todos os dias.”

Vardy é um dos líderes nos quesitos de velocidade e sprints de intensidade em todos os jogos que participa, ainda mais enérgico em relação ao que imaginávamos ser o auge. “Todas as medidas e testes que fizemos na pré-temporada mostraram que ele é mais rápido agora do que era em 2015, disse o técnico.

Rodgers, por sua vez, representava uma mudança de estilo para o inglês de Sheffield. Se Claudio Ranieri e Claude Puel tinham sistemas que exploravam naturalmente sua explosão por trás das defesas, a filosofia do ex-Liverpool e Celtic prioriza passes mais curtos e costumam obrigar o adversário a recuar suas linhas. E como ficaria o espaço para o centroavante?

Passou por um trabalho específico, diferente do resto do time, e geralmente está alheio à articulação das jogadas. Para Brendan, “ele não é um daqueles atacantes como Firmino, que recua e conecta o jogo, mas é um jogador top e tem clara noção da função que estamos pedindo para desempenhar. Você não precisa estar envolvido na construção se seus companheiros apreciam o que está tentando fazer”.

Ricardo Pereira, Chilwell, Tielemans, Maddison, Barnes… até mesmo Soyuncu! são algumas das peças que tratam muito bem da criação. Não faz falta a figura de um atacante participativo. Até porque sua movimentação acaba prendendo os zagueiros e abre espaço para o conjunto florescer. Enquanto isso, o resto da equipe sabe que terão um rapaz pronto pra escapar nas costas do marcador e, provavelmente, marcar.

Tielemans e Maddison são dois meias que se aproveitam bastante da movimentação de Vardy (Foto: Reprodução/OneFootball)

“Os outros tem a responsabilidade de servi-lo. Ele pode ficar longe, ficar em impedimento, jogar atrás da última linha. Sabe que estamos trabalhando para dar oportunidades a ele. Pra um atacante isso é importante, visto que as vezes eles sentem que precisam se envolver pelo menos para tocar na bola. Ele sabe que não precisa se preocupar com isso agora. Será julgado pelos gols.”

A forma que Rodgers encontrou pra manter Vardy produzindo dentro de um sistema em tese incompatível foi pontual. E a forma que o próprio jogador se porta é exemplar, capacitado agora em entender todas as fases do jogo e performar seu papel com maestria em cada uma delas. Ganhou a parceria de Ayoze Perez, com quem o entrosamento cresceu nas últimas semanas.

As defesas têm preocupação redobrada e jogadores de outras posições precisam lidar com ameaças variadas. Se dão espaço pelos lados, uma das melhores duplas de laterais do país pode punir com cruzamentos ou infiltrações diagonais. Se cercam os atacantes, dão brecha para ótimos finalizadores de fora da área em Maddison e Tielemans. Barnes é uma potência física que infiltra com inteligência e surge como coringa em meio a isso tudo.

Enfim, o Leicester superou a ressaca do título, a perda de peças-chave, o falecimento do seu dono (e ídolo) e parece pronto para surpreender a elite da Inglaterra mais uma vez. Pra isso, conta com uma versão 2.0 do sempre perigoso Jamie Vardy. Se depender dele, as melhorias não vão parar.

“Se você está jogando contra Jamie, a tentação vai ser sempre recuar as linhas. E pra furá-las você precisa de jogadores nas laterais e posições preenchidas por dentro. Aí é trabalhar a bola até ele. O que ele adicionou foi que se os times negam espaço, ele ainda dá conta do jogo dentro disso.”

“Ele marcou um belo gol contra o West Ham, onde ficou em impedimento, mas na hora que a bola veio conseguiu entrar em posição legal e desviar no primeiro pau. Às vezes você vê dois defensores avançando e o atacante correndo atrás pra sair do impedimento. As regras modernas permitem que você não precise disso. É um conceito diferente, mas ele entende pois é brilhante no futebol.”

“Jamie vive uma jornada, conquistou o título, mas nunca pensou que seria só aquilo. Ele poderia ter se acomodado. Mas é muito faminto e muito determinado de continuar se desenvolvendo e ser a sua melhor versão possível. Ele quer evoluir o seu jogo. Isso é revigorante.

Concordamos, Rodgers. Continue, Vardy.

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Lucas Filus

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