Conversa com sabor a análise de jogo

Nem tudo aquilo que nos querem apresentar como "o real" é completo e constituído de análises resultantes de uma reflexão ponderada sobre o futebol. Pessoas que sabem menos ficam satisfeitas com explicações que explicam pouco.

Num curto artigo chamado “Bebida com sabor de latte macchiato”, o filósofo italiano Armando Massarenti* compara a experiência de escolher uma bebida numa máquina automática com a experiência mental da “terra gémea” do filósofo americano Hilary Putnam. Segundo este, num planeta, idêntico ao nosso em todos os aspectos, exceto pelo facto que no lugar da água existe um outro comporto químico que não seja H2O mas, por exemplo, XYZ. Entre as duas “águas”, na realidade, do ponto de vista microscópico, não existe nenhuma diferença. Ambos são líquidos, transparentes, podendo-se nadar neles. Só uma análise química acurada feita por um especialista poderá revelar que se tratam de substâncias diferentes.

Não posso deixar de me lembrar destas palavras quando, estando perante um jogo de futebol, ocorrem situações onde realidades diferentes se confundem sob o mesmo nome. Acontece quando olhamos para princípios genéricos como a posse de bola ou o jogar bonito, que à partida nos diz muito pouco da forma como uma equipa consegue, ou não, superar um adversário. Acontece também quando se apresenta uma estratégia defensiva de bloco baixo sem se diferenciar o que é a cobertura dos espaços e o que é a esperança na bola que não entra. Acontece quando palavras e conceitos são expostos a um esvaziamento de maneira a tentar demonstrar que a complexidade não está presente no jogo, banalizando o que é objeto de estudo para desvalorizar tudo o que não seja a sorte da bola rolando sobre a relva.

No nosso mundo continuam a querer colocar-nos perante semelhanças que nada têm de semelhante quando observadas de um ponto-de-vista especializado. Mas o nosso mundo é bastante influenciado por coisas que não carecem de uma especialidade para poderem ser explicadas. Mesmo que essa explicação seja curta, coxa e, tantas vezes, incoerente. Pessoas que sabem menos ficam satisfeitas com explicações que explicam pouco. Da mesma maneira que pessoas podem ficar satisfeitas e ter experiências de prazer quando, tendo que escolher uma bebida numa máquina automática, optam por uma bebida com sabor de latte macchiato. Mesmo que pareça a mesma coisa, para os que já provaram um latte macchiato com espuma, leite e café, nunca será a mesma coisa.

*o artigo em causa está publicado no livro “Il lancio del nano e altri esercizi di filosofia minima”, publicado pela Ugo Guanda Editore em 2006.

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Luís Cristovão

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