Copa de 1970: os 45 toques de Pelé na final

Mesmo encostando na bola uma vez a cada dois minutos, Pelé foi determinante para a goleada de 4 a 1, sobre a Itália, que determinou o tricampeonato mundial do Brasil.

A disputa pela Taça Jules Rimet em 1970 tinha uma motivação especial para um certo camisa 10. Bicampeões mundiais, Brasil e Itália buscavam o desempate no Estádio Azteca; Pelé, por sua vez, queria a consagração. Ausente na reta final das duas Copas anteriores, em 1962 e 1966, o craque tinha a chance de provar, novamente, o seu poder de decisão. E o fez, com apenas 45 toques.

Já aos 29 anos, doze anos depois da primeira final, Pelé teve a oportunidade de levar o país ao tricampeonato do mundial. Em 1970, da mesma forma que fez em todos os outros jogos do torneio, diante da Itália de Sandro Mazzola, Giacinto Facchetti e Gianni Rivera, não deixou de ser protagonista. A cada sete toques na bola, sofreu uma falta. Também, pudera: além de esbanjar um controle ímpar ao receber a bola, acertou quatro dos cinco dribles que tentou e deu cinco passes para finalização. Era necessário marcá-lo de perto, mas o adversário, muitas vezes, confundiu isso com a obrigação de derrubá-lo.

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Se não tivesse espaço, criava-o com fintas, aguardando as inteligentes movimentações de seus companheiros. Se lhe fosse dada liberdade, bastava um olhar, de relance, para decidir o jogo, como fez na assistência para o gol que sacramentou a goleada e a taça. Confira este e todos os outros momentos em que o camisa 10 teve contato com a bola, na goleada por 4 a 1, no infográfico abaixo.

Toques decisivos de Pelé

Responsável pelo pleno funcionamento das engrenagens, o técnico Zagallo aproveitou o 4-2-4 de João Saldanha, o João Sem-Medo, mas reforçou o meio, transformando o esquema em um 4-3-3, que hoje mais parece um 4-2-3-1, entregando a Pelé um importante papel em uma faixa especial do campo. O mapa interativo comprova isso: o craque estava sempre na entrada da área, a um drible ou a um toque de decidir o jogo. Foi assim contra a Tchecoslováquia, na estreia, quando foi decisivo para a virada que virou goleada, ou contra o Peru, nas quartas de final, participando ativamente da construção dos quatro gols do jogo.

Contra a Itália, o Rei concentrou boa parte dos seus toques na zona intermédia do ataque, pela direita. Dali, saíram três dos seus dribles no jogo, incluindo uma caneta em Burgnich, sua 26ª participação na partida. Além de ajudar no ataque, o camisa 10 deixou sua marca na defesa: nos seus toques de número 16, 32 e 33, deu botes e recuperou a bola. No último, inclusive, ele sofreu uma falta na sequência. O seu 34º toque? A assistência para o terceiro gol, de Jairzinho, após a cobrança da falta sofrida pelo craque.

Para alcançar o objetivo, Pelé não esteve sozinho. Rodeado de “camisas 10”, o jogador que a vestia, de fato, não precisava armar o jogo de trás, pois a equipe tinha o jovem Clodoaldo e Gérson, com sua canhotinha de ouro. O último, por exemplo, teve uma relação especial com o 10 na final. Ele foi o jogador que mais recebeu passes do Rei. Um deles, o 43º toque do craque no jogo, foi na construção da jogada que levaria ao gol de Carlos Alberto, o quarto do Brasil.

Gol histórico representa o que foi a seleção de 1970

Pelé também não caía tanto pelas pontas, já que Rivelino e Jairzinho criavam jogadas com dribles e arrancadas. A influência de ambos pode ser ilustrada com o primeiro gol, que saiu em um cruzamento do primeiro. Já aos 18 minutos do jogo, a cabeçada do camisa 10 foi somente o seu 6º toque na bola na final.

Tostão, no ataque, dava opção para tabelas, seja de costas ou de frente, como nos toques de número 1, 14, 27 e 32 de Pelé, quando o camisa 9 foi acionado. A ultrapassagem do lateral direito e capitão Carlos Alberto, a cereja do bolo na final, esteve presente em toda a competição. Com 19 gols em seis jogos, o Brasil demonstrou o que organização e técnica, juntas, podem fazer.

É por essas e outras que, para muitos, o Brasil de 1970 foi melhor seleção de todos os tempos. Uma equipe que precisou que seu craque tocasse na bola apenas uma vez a cada dois minutos na final, e que fez o planeta conhecer, pela primeira vez, qual país seria o maior ganhador de Copas do Mundo dali em diante.

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Henrique Letti

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