Coppa Italia: meu bem ou meu mal?

A segunda competição mais importante do futebol italiano é frequentemente questionada; afinal, qual seu valor?

Pela primeira vez desde 1965, Inter e Juventus farão com seu Derby d’Italia a grande decisão da Copa da Itália, a famosa Coppa Italia. Uma final entre as duas maiores torcidas do país, e que por sua vez, dará o valor a uma competição que frequentemente tem seu valor aumentado, mas também desprezado dentro do Belpaese.

O formato do torneio é constantemente criticado. Vale lembrar as críticas feitas por Maurizio Sarri antes da partida de quartas de final diante do Milan: “Lamentamos que a Copa da Itália seja um dos eventos mais antidesportivos do mundo, com um sorteio que ninguém sabe quem o faz, quando faz, onde faz, e está claramente desenhado para levar certas equipes a jogos ao vivo pela televisão”. 

Vale ressaltar que a estrutura do torneio é projetada para levar as oito melhores equipes do campeonato para as quartas de final, de modo a criar uma espécie de “Final Eight” que expressa o máximo do produto futebol italiano. 

As equipes de menores pretensões da Serie A e as equipes das divisões inferiores têm que jogar várias rodadas preliminares, então têm uma clara desvantagem em relação às grandes (os oito melhores da anterior edição do campeonato), que entram em jogo apenas nos oitavas-de-final, e que só têm de disputar cinco jogos para ganhar o título. 

Além disso, os grandes jogadores das grandes equipes sempre jogam em casa contra formações mais fracas, pelo menos no papel. O formato das rodadas também é discutido: há vários anos, a Coppa Itália é um torneio de eliminação direta com partidas únicas até as duas semifinais, que são disputadas em uma distância de 180 minutos. O problema é que os jogos de volta são disputados um mês após o jogo de ida, depois que tudo se esfria.

O resultado acaba sendo um efeito cascata: a última vez que uma equipe fora das grandes forças históricas e maiores torcidas do país (Juventus, Inter, Milan, Napoli, Roma, Lazio e Fiorentina) teve seu time campeão da Coppa, foi o Parma, na temporada 2001–02. 

A Coppa Italia já é uma competição tradicionalmente “anti-azarões”, tanto que apenas uma equipe fora da primeira divisão foi campeã: o Napoli, na temporada 1961–62, em uma temporada fora da elite que teve o título da Coppa e o retorno a Serie A.

Neste modelo em que os oito melhores da Serie A já entram nas oitavas de final, foram raras vezes que alguma destas grandes forças históricas, ou mesmo forças mais recentes, como o caso da Atalanta, não entraram diretamente nas oitavas e acabaram por permanecer anos na competição.

Todas essas lógicas fazem com que a Copa da Itália vá na direção oposta em relação às copas nacionais de outros países europeus: em outros lugares, de fato, eles preferem ter mais surpresas e, portanto, resultados mais aleatórios, em que o mais fraco pode desbancar o mais forte.

Uma explicação para o formato ser diferente em relação a outras copas nacionais, é que a Coppa Italia é organizada pela Lega Serie A, e não pelas federações nacionais, como acontece em Inglaterra, França, Espanha e Alemanha, por exemplo.

Neste caso, a liga que pensa em termos de negócios e, portanto, visa criar o produto mais dispensável do mercado. Daí a decisão de privilegiar as equipas mais fortes e maiores. “A verdade é que na Itália, 80% dos torcedores se definem como torcedores dos cinco grandes, Juventus, Inter, Milan, Roma e Napoli” , disse à revista Undici Giovanni Armanini, coordenador do One Football.

Vale lembrar como é a dinâmica da FA Cup inglesa: desenhada com a lógica de colocar todos no mesmo patamar, para que seja representativo de todos e facilite a construção de uma boa história do futebol nacional. Também porque então a Federação — com as receitas do torneio — tem o dever e o interesse de desenvolver o futebol em todo o território, neste caso o que a FA considera como futebol de base. 

“Então, quando há Inter-Juventus, o derby de Milão ou outro confronto de ponta, milhões de pessoas assistem aos jogos, e isso faz com que todos os interesses dos clubes e dos organizadores do torneio, mas também das emissoras compram os direitos de transmissão”, completou para a revista.

Essa ideia acaba por ser elitista em uma competição que entrou por um caminho ainda maior de segregação as equipes que não estão entre as grandes forças do futebol italiano, já que das 44 associações que iniciaram a competição, são 20 clubes de cada entre Series A e B, mais apenas 4 clubes da Serie C1.

No fim das contas, para o torcedor que espera histórias diferentes, ou mesmo equipes titulares, a Coppa pode ser mais tediosa. Mas, financeiramente, a história é outra: o modelo atual da competição é visto como rentável pelos seus organizadores.

Esses números, que se repetem ano a ano, fazem da Copa da Itália uma pequena exceção no futebol europeu, pelo menos do ponto de vista econômico: para o triênio atual, de fato, os direitos de transmissão do torneio foram adquirido pela Mediaset por 48 milhões de euros em relação ao ciclo 2018–21, com aumento de 27% em relação ao ciclo anterior.

O fato é que o futebol italiano está lutando para crescer no fluxo de receita de direitos televisivos e, portanto, as receitas geradas pela Copa da Itália são indiscutivelmente positivas. “Temos que considerar que nossa copa traz para os clubes italianos mais do que a FA Cup para os clubes ingleses. Pode não gostar, mas já que os interesses de quem organiza o torneio são os mesmos de quem chega nas quartas de final e nas semifinais, fica difícil sugerir uma mudança”, diz Armanini a Undici. 

Aqui estão alguns números para fazer as comparações necessárias: para a Copa da Liga Inglesa, a EFL arrecada cerca de metade em relação à Copa da Itália; a equipe vencedora da Copa da Inglaterra ganha quatro milhões por seis jogos disputados de janeiro a maio, uma quantia em dinheiro superior à arrecadada pelo clube que conquista a Copa da Itália (cerca de três milhões), diante de um jogo a menos. A eles, então, mais 3,5 milhões devem ser adicionados, pela participação na Supercopa da Itália.

Segundo dados colhidos pela revista Undici, mesmo os primeiros jogos de semifinais, que tem menos apelo que os decisivos, geram audiência local: além de estádios lotados em San Siro e Artemio Franchi, cerca de 6 milhões de espectadores geraram uma audiência em share de 24,7% dos televisores ligados no clássico entre Fiorentina e Juventus no jogo de ida das semifinais, mesmo não sendo o “maior” jogo desta fase, perdendo apenas para o Derby della Madonnina entre Inter e Milan.

Além disso, financeiramente para as equipes menores não há o valor de jogar em casa, afinal de contas, todas as rendas da competição são divididas entre os dois clubes em campo, o que faz equipes de divisões inferiores ou mesmo outras forças da elite preferirem jogar fora de casa para, assim, garantir lucro. 

Enquanto isso, a Coppa segue sendo o bem-me-quer e o mal-me-quer dos grandes clubes italianos e de suas torcidas, e por conta disso, com frequentes discussões sobre como poderia ser reformada, ou não, seja pela liga Serie A ou seja pela FIGC.

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