Como o coronavírus afetará as finanças dos clubes italianos?

Clubes italianos se preparam para os prováveis prejuízos em meio a crise do coronavírus pelo país

Os efeitos do coronavírus são assunto de 9 entre 10 pautas sobre qualquer coisa envolvendo política, esporte, religião, finanças, e nossas vidas pessoais. Não seria diferente com o futebol, ainda mais em um dos países afetados como é o caso da Itália. Uma hora, queira Deus, isso terá de cessar.

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O que podemos fazer por agora é um exercício de imaginação. No final das contas, as perdas financeiras só poderão ser sentidas após a pandemia. Mas poderemos tentar prever essas situações, e é o que os clubes italianos tem feito nas últimas semanas.

Os impactos nas finanças dos clubes

Como primeiro impacto financeiro da parada por coronavírus, obviamente pensamos no que foi a grande razão de discussão e que se atrasou a parada da parte do governo aos jogos da Serie A: a renda dos clubes envolvidos na partida por meio das bilheterias. 

Começamos com o jogo que gerou essa discussão entre adiar ou não: o Derby d’Italia entre Juventus e Inter, que originalmente daria uma previsão de renda de cerca de 5 milhões de euros, possivelmente a maior renda da temporada, mas que com os portões fechados, não aconteceria, isso sem falar na renda ao redor de uma partida, o chamado “matchday”. 

Em seguida vem a outra ponta da discussão, por meio dos direitos de televisão. Em alguns campeonatos, como na Ligue 1 francesa e na Premier League inglesa, detentoras dos direitos, como a Canal+ e a BeIN Sports na França, e a Sky Sports e BT Sport na Inglaterra, suspenderam pagamentos.

finanças
Juventus e Inter seria a maior renda da temporada, caso fosse disputada com portões abertos (Vincenzo Pinto/AFP)

Era a intenção da Sky Sport italiana e do Perform Group, dono da DAZN. Mas por incrível que pareça, a demora da Serie A em suspender o campeonato acabou sendo “vantajosa”, e devido ao fato de que foi suspensa por determinação governamental, Sky e DAZN continuarão tendo que pagar aos clubes, o que dará garantia financeira a eles.

Para se ter uma noção em outros campeonatos, segundo matéria da revista Kicker alemã, com uma eventual suspensão dos pagamentos, 13 dos 36 clubes que compõem as 3 principais divisões da Bundesliga alemã, estariam sob risco financeiro, dentre eles um da primeira divisão, que só pode garantir seus pagamentos até maio. Se estendida até junho, vira um problema para mais três da primeira e mais dois da segunda divisão. 

Não é difícil de se imaginar que algo parecido poderia ocorrer com clubes italianos. Especialmente na Serie B e na Serie C, onde as dificuldades financeiras serão bem maiores, especialmente se levar em conta que a soma do faturamento dos clubes da C chega a 100 milhões com todos os 60 clubes. E nem todos tem Berlusconis e De Laurentiis como donos, como é o caso de Monza e Bari, respectivamente.

Financeiramente até clubes como Roma e Juventus podem sofrer. Ambos apertados pelo Fair Play Financeiro (embora deva ser afrouxado na próxima temporada), não só perderam dinheiro na bolsa, sendo dois dos três clubes italianos, juntos da Lazio, a terem capital aberto na bolsa de valores. Perderam dinheiro com ações nas últimas temporadas.

Mais especialmente a Roma em meio a mudança de dono para o americano Dan Friedkin, que tem uma dívida líquida de cerca de 264 milhões de euros, muito maior ao possível faturamento, que já deve ser reduzido. É bem verdade que patrocínios como os da Betway, que patrocinava uniformes de treino romanistas, antes descartados pelo decreto governamental que proibia patrocínios de apostas, não serão mais descartados, após nova permissão do governo para propagandas da atividade.

A Juventus, por sua vez, embora apresente vermelhos, paradoxalmente pela situação do coronavírus pode se ver livre temporariamente de um problema com fair play financeiro. E nesse caso, a postura agressiva dos bianconeri no mercado contribuiu para balanços negativos, que poderiam colocar a Juve na mira da UEFA. 

Mas que por conta do coronavírus, por ora, um clube que teve um passivo de 50,3 milhões no último semestre, já referente a 2019–20, a Juve poderia ter menos problemas com o fair play financeiro e podendo arrumar a casa. Embora se a Juve, que mais fatura no futebol italiano sofrerá com os efeitos de fuga de dinheiro pós-COVID-19, imagine os outros. 

Talvez alguns do grupo dos grandes como Napoli e Lazio, que tem suas contas no azul, ou Milan, Inter e a própria Juventus, com presença e aporte financeiro dos donos, especialmente os interistas, possam sofrer menos em relação a um período incerto, em relação a quem já está no vermelho como a Roma, ou quem vai ficar, como os bianconeri. 

Em tempos sem dinheiro, é inevitável pensar em maneiras de como reduzir os gastos para sobreviver. Uma das reações imediatas é o corte nos salários, rapidamente aprovado pela Juventus, e posteriormente aprovado no resto da liga, em meio a contestação de alguns atletas e funcionários de clubes com menor poder financeiro. 

Possivelmente, a liga definiu um corte salarial de 15% em caso das partidas voltarem a acontecer, e um corte de 30% em caso de temporada suspensa, que pode ocorrer e ainda fazer o campeonato terminar nos tribunais. Aqui nessa última imagem do Corriere dello Sport, estão os valores somados da folha salarial dos 20 clubes da Serie A, e os possíveis valores com corte de 2 mensalidades (15% do salário anual) e 4 mensalidades (30% do salário anual).

Os valores da folha salarial economizados em caso de suspensões salariais. (Foto: Corriere dello Sport)

Para cobrir essas situações salariais, muitos clubes dependem da renda de transferências. Mas com baixo faturamento, é de se imaginar que os valores de jogadores baixem cada vez mais. Já tem acontecido na avaliação do quanto valem esses atletas. No último levantamento da CIES, foi estimado que haverá uma queda em cerca de 28% dos valores de jogadores em toda a Europa.

Evidentemente, como Andrea Agnelli disse em reunião da Associação dos Clubes Europeus (ECA), agora a predominância pode ser de negociações a base de trocas, e de um meio do futebol um pouco mais racional. Em um exercício de imaginação, podem continuar se dando bem aqueles que sabem aproveitar o dinheiro, ou quem sabe apostar em categorias de base, em trabalhos sólidos como os da Atalanta no aproveitamento de jovens.

Voltando às finanças, em um momento como esse, um instrumento de controle como o Fair Play Financeiro da UEFA precisaria ser no mínimo afrouxado, como deve ser até a próxima temporada. Para que situações como a descrita por Rocco Commisso, presidente da Fiorentina, possa acontecer, já que o dono do clube viola e da Mediacom, teria de investir “cerca de 300 milhões na mesa”, como citou em entrevista a Radio24 nessa semana.

Afinal, para muitos clubes, ou a ajuda vem de maneiras externas, com aportes de donos ou algo parecido, ou se pode temer efeitos piores que o da crise mundial de 2008, ou mesmo da grande quebra de clubes italianos entre 2002 e 2005, que vitimou naquele período clubes como Fiorentina, Napoli, Parma e Torino, e quase vitimou Lazio e Roma, embora talvez os donos atuais tenham mais credibilidade que os Cragnottis, Corbellis e Cecchi Goris da época…

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Caio Bitencourt

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