O coronavírus infectou a mente de quem comanda a Serie A italiana

Como o coronavírus estragou uma temporada que vinha sendo divertida dentro de campo, a base do caos de sempre dos dirigentes da Serie A

A epidemia de coronavírus que vem afetando o mundo e, especialmente no norte da Itália, faz com que todos os setores da sociedade italiana sejam afetados; e o futebol, obviamente, não ficou de fora. Não a toa desde o primeiro caso registrado, no dia 21 de fevereiro, diversos jogos foram adiados da primeira divisão e de divisões inferiores do futebol italiano.

Já seria um problema de remanejamento achar datas para os jogos da 25ª rodada que foram adiados, afinal de contas, entre eles estão equipes que terão seus jogos em copas europeias, como Atalanta e Inter, que já foram prejudicadas pelo inevitável adiamento de eventos esportivos proposto pelo governo.

Em uma semana de antecedência da rodada seguinte, decidisse o que decidisse, entre uma rodada de portões fechados, o mais óbvio, em vista a falta de tempo hábil para recuperar essas rodadas perdidas, ou mesmo adiar a rodada, o que seria justo para com o público.

Seria um problema simples de resolver, ou melhor, era uma questão resolvida, pra não ter problemas. Mas não é um problema simples de resolver se você tem a diretoria da Serie A que atende a diversos interesses, mas não os do espetáculo. A diretoria que parece ignorar o clima de caos vivido não apenas na Itália, como em uma esfera global sobre o coronavírus.

Depois de uma semana em que se definiu que as partidas do fim de semana seriam jogadas com portões fechados, as vésperas do início da rodada, no sábado, quando, por exemplo, a Fiorentina já estava no Friuli para enfrentar a Udinese, em uma região afetada pelo coronavírus, adiou a partida.

Já seria uma decisão controversa da medida em cima da hora em que se deu, mesmo sem uma decisão estatal como foi o caso da semana anterior. O problema é como a decisão originalmente se deu e a margem que se deu para que um clube fosse beneficiado: no caso, a Juventus.

A explicação sobre a decisão ter ocorrido no sábado, foi no mínimo, controversa, chegando a alegar que as imagens de um clássico como o de Juventus e Inter com portões fechados, trariam um sério dano a imagem do país no exterior.

Se questiona um benefício a Juventus muito por conta de uma reportagem do Corriere della Sera, que relatou na sexta-feira que os bianconeri não queriam jogar o clássico contra a Inter, importante na luta pelo Scudetto, com portões fechados, por temer que se perdesse o recorde de renda de cerca de 5 milhões, relativamente comum quando há um Derby d’Italia no Stadium ou em San Siro.

O adiamento do Derby gerou um problema ainda maior, devido a falta de datas disponíveis para jogos da Inter, envolvida em disputas de copas, e com o jogo diante da Sampdoria por fazer. O clássico não tem data pra acontecer, inicialmente cotado no dia 13 de maio, no momento em que se escreveu esse texto, era cotado pra próxima semana e talvez no momento em que esteja sendo lido, tenha outra data. 

O surto de Coronavírus traz tensão para torcida, jogadores e dirigentes na Série A (Divulgação)

A liga sugeriu que o Derby, que seria jogado no domingo, fosse jogado na segunda-feira, dia seguinte, em uma semana de Coppa para os dois, e justamente no dia seguinte a uma partida adiada por não poder ser jogada com portões fechados, como se o coronavírus fosse uma gripe e deixasse de existir do dia pra noite.

Tudo isso com direito a uma bagunça na realização entre Sampdoria e Verona, que seria nessa última segunda-feira, já que inicialmente se confirmou que a partida iria acontecer com portões fechados, chegou a se dizer em portões abertos, e por fim, após os gialloblù terem viajado a Gênova para a partida, a menos de 24 horas da bola rolar, em pleno domingo a tarde, o jogo foi adiado pela liga. 

Sem falar na perspectiva de realização de um jogo de Coppa Italia com portões abertos no Piemonte no meio do olho do furacão do coronavírus, embora com a bizarrice de se proibirem torcedores vindos da Lombardia, Vêneto e Friuli, como se o vírus soubesse distinguir entre o campeonato e copa. 

Em meio ao surto do coronavírus, troca de acusações entre dirigentes

Em meio a troca de acusações entre o presidente da Serie A, Paolo dal Pino, que reclamou da Inter não ter aceito as propostas da liga, e o presidente dos nerazzurri, Steven Zhang, que chamou o presidente da liga de palhaço, não se chega a uma decisão sobre o que fazer com as partidas restantes. 

A única coisa definida é a final da Coppa Italia, que antes seria no dia 13 de maio, e agora será no dia 20 de maio, mas não no Olimpico de Roma, palco comum as finais únicas da competição desde 2006, e que estará a disposição da organização da itinerante Euro 2020, e sim em algum campo distinto. Com o problema de que um San Siro, por exemplo, pode estar sediando uma partida de Serie A.

Uma coisa o diretor-esportivo da Inter, Giuseppe Marotta, tem razão: “não se pode jogar com portões fechados, já que seria absurdo usar um instrumento que apenas uma semana antes não era considerado adequado para lidar com a emergência de saúde”, como o próprio disse em entrevista a Gazzetta dello Sport. 

Enquanto usa dois pesos e duas medidas para fazer (ou não) seu calendário, a liga abriu um precedente grave: na falta de datas para realocação de partidas, já que a única semana disponível daqui até o original fim do campeonato, em 24 de maio, há apenas uma semana de data FIFA, alguns times podem se recusar a entrar em campo caso o surto de coronavírus na Itália não seja controlado em uma semana.

Uma solução tentou ser mediada pelo presidente do Napoli, Aurelio De Laurentiis, adiando as semifinais da Coppa, e antecipando o clássico, mas apesar de Milan e Juventus terem topado junto ao clube napolitano, a Inter não topou adiar sua partida.

No atual momento, uma solução é tentada, e parece uma tão esdrúxula quanto. Simplesmente fazer no que seria o próximo fim de semana de rodada do Italiano, os jogos restantes da 26ª “giornata” e fazer com que os jogos da 27ª fossem adiados para a semana seguinte, e ir levando esse adiamento até uma rodada no meio de semana entre 12 e 15 de maio.

O surto de Coronvírus adiou diversas partidas da Série A (Divulgação)

Em resumo, em meio a uma crise de coronavirus que afeta as cidades de 14 dos 20 times da Serie A, querem prejudicar o calendário das 6 equipes que até o momento, não tem nada a ver com a história (Cagliari, Fiorentina, Lazio, Lecce, Napoli e Roma), o que prejudicaria o calendário e o planejamento das mesmas.

Com minha opinião pessoal, sigo a frase de Gennaro Gattuso após a partida do sábado, uma das raras jogadas na 26ª rodada, entre Napoli e Torino: “se uma partida [da rodada] se joga, todas devem ser jogadas também. Mesmo de portões fechados. Jogar hoje ou em dois meses não é a mesma coisa, tudo muda”.

Gattuso tem razão. O ritmo de preparação interfere. Um clássico encavalado entre jogos de competições europeias e copas nacionais interfere, ou mesmo uma sequência de três jogos entre quarta e domingo já tem suas interferências. E a Serie A não sabe lidar com isso.

Pior, apenas destrói um calendário, que, no momento atual, se o Campeonato Italiano tivesse a mesma suspensão que teve o Campeonato Suíço diante da epidemia de coronavírus, não seria surpresa. E se tiver o fim do Campeonato Chileno, em que, por motivos distintos relacionados a situação social do país andino, foi encerrado pela metade, não seria surpresa, tamanha a desorganização italiana.

Mesmo que se encontre uma solução, o quiproquó arrumado pela Serie A parece querer sempre destruir a competitividade do campeonato, gerando o máximo de suspeitas possível, e fazendo o possível para minar um campeonato que vinha sendo o melhor dos últimos anos dentro de campo com a grande disputa entre Juve, Inter e Lazio pelo Scudetto, além das outras disputas.

Compartilhe

Comente!

Tem algo a dizer?

Últimas Postagens

O caminho da Seleção, as mudanças de Tite e um norte para o Catar
Aurelio Solano

O caminho da Seleção, as mudanças de Tite e um norte para o Catar

0 Comentários
Cinco promessas africanas na base de clubes europeus
Caio Nascimento

Cinco promessas africanas na base de clubes europeus

0 Comentários
Pellegrini: a história dos romanos na Roma continua
Caio Bitencourt

Pellegrini: a história dos romanos na Roma continua

0 Comentários
A afirmação da Espanha e sua nova geração
Bruna Mendes

A afirmação da Espanha e sua nova geração

0 Comentários
Guto Ferreira coloca o Bahia para acelerar
Gabriel de Assis

Guto Ferreira coloca o Bahia para acelerar

0 Comentários
RAIO-X: De onde saem as assistências dos líderes do quesito na Série B
Douglas Batista

RAIO-X: De onde saem as assistências dos líderes do quesito na Série B

0 Comentários
Os destaques dos 8 classificados no Brasileirão Sub-20
Caio Nascimento

Os destaques dos 8 classificados no Brasileirão Sub-20

0 Comentários
A reinvenção de Brahim Diaz no meio-campo do Milan
Caio Bitencourt

A reinvenção de Brahim Diaz no meio-campo do Milan

0 Comentários
Maduro, o Red Bull Bragantino se aproxima de fazer história
Gabriel de Assis

Maduro, o Red Bull Bragantino se aproxima de fazer história

0 Comentários
Friendly #7 | O novo rico Newcastle, Sports Washing e a ‘era’ de clube-estado
Eduardo Dias

Friendly #7 | O novo rico Newcastle, Sports Washing e a 'era' de clube-estado

0 Comentários
Napoli: O impacto inicial de Anguissa com a camisa partenopei
Caio Bitencourt

Napoli: O impacto inicial de Anguissa com a camisa partenopei

0 Comentários
O Grande Norte e os grandes desafios: o que o futuro reserva para o futebol masculino do Canadá?
Caio Nascimento

O Grande Norte e os grandes desafios: o que o futuro reserva para o futebol masculino do Canadá?

0 Comentários
O agressivo América/MG de Vagner Mancini
Gabriel de Assis

O agressivo América/MG de Vagner Mancini

0 Comentários
O Botafogo/PB em busca de um acesso histórico na Paraíba
Douglas Batista

O Botafogo/PB em busca de um acesso histórico na Paraíba

0 Comentários
A disparidade entre Atlético de Madrid e Barcelona
Bruna Mendes

A disparidade entre Atlético de Madrid e Barcelona

0 Comentários