De Iñaki para Nico: a revolução fraternal no Athletic Club

A conquista da Supercopa da Espanha pelo Athletic contra o Barcelona eleva o nome de Iñaki Williams ao panteão dos heróis dos Leões de San Mamés. Idolatrado pela torcida, Iñaki é a principal referência técnica da equipe principal enquanto o irmão mais novo tem despontado como a principal arma da equipe B.

Uma das histórias mais conhecidas do futebol espanhol é a do Athletic Club, muitas vezes chamado (erroneamente) de Athletic Bilbao para desespero do torcedor. O clube de Telmo Zarra nos primórdios do futebol espanhol e que formou nomes importantes como Andoni Goikoetxea, Aritz Aduriz, Andoni Iraola, Fernando Llorente e Aymeric Laporte. Cujo elenco principal é recheado de jogadores formados na base, tendo os nomes de Iker Munian e Iñaki Williams como destaques.

Também é de conhecimento popular que o clube “só tem jogador basco” no elenco, restringindo suas opções de mercado. Entretanto, o que é ser basco? Essa é uma pergunta que vai muito além das divisões territoriais, que já são complicadas por si só, e que se alastraram por muito tempo.

O próprio Athletic já se viu envolto a mudanças na filosofia ao longo dos anos. O clube fora fundado por britânicos em 1898, em Bilbao, na efervescência do nacionalismo basco, que buscava sua independência. A contratação de somente jogadores do País Basco começou em 1911 e a exclusividade na formação do elenco por jogadores da região se instaurou em 1919.

O clube, mesmo sendo mais novo que o movimento separatista, já era a principal fonte de conexão entre o futebol e a comunidade oprimida pelas ditaduras de Primo de Rivera e Francisco Franco. Terrivelmente perseguidos, o Athletic se tornou antagonista ao regime, assumindo para si a luta que estava em voga sendo um time completamente formado por jogadores nascidos e criados na região. Foi entre as décadas de 1930, 1940 e começo de 1950 que o clube conquistara seus principais títulos.

Após os anos de ditadura, a globalização foi se tornando cada vez mais presente no futebol espanhol. Ainda pautado pelos ideais patrióticos e de independência, o Athletic, ao mesmo tempo, se separava cada vez mais do nacionalismo antigo. O clube fora alterando detalhes na idiossincrasia de 1919, muito pelo medo de perder o protagonismo. Jogadores que não nasceram no País Basco, mas que tinham descendência basca, como Vicente Burruin, de São Paulo, vestiram a camisa dos Leões. Ou de territórios franceses que fazem parte do conceito de País Basco.

Entretanto, a recepção aos jogadores negros fora determinante para a diversificação do clube que representa o amor basco. Por mais que ainda dê para contar nos dedos a quantidade de jogadores negros que vestiram a camisa rojiblanca na história, é difícil afirmar que o Athletic, institucionalmente, compartilhava de todos os ideais de raça do nacionalismo de outrora, porém, a relação ficou mais íntima com a abertzale, um viés nacionalista e separatista que é mais aberto do ponto de vista social.

E esse fenômeno não só ajudou a abrandar o conceito de “cidadão basco”, haja vista que todos nasceram lá, como trouxe Iñaki Williams para o clube, que sustentara a carreira em alto nível de um jogador que é vítima de racismo de outras torcidas, inclusive, da região. Uma minoria de torcedores da Real Sociedad, histórico rival do Athletic, chegou a insultá-lo dizendo que ele não era basco por conta da cor de sua pele.

Antes de Iñaki, o Athletic tentou profissionalizar Miguel Jones, na década de 1950, sem sucesso. Jones nasceu em Guiné Equatorial e estava radicado no País Basco desde criança, porém, o fato de não ter nascido em solo basco acabou atrapalhando a regulamentação. O ex-jogador assegura que não houve racismo por parte do clube na época. Jonás Ramalho, zagueiro do Girona, nascido em Baracaído, no País Basco, fora o primeiro jogador negro, formado em Lezama, notória academia de futebol dos Leões, a estrear pelo clube, em 2011.

Em 2014 foi a vez Iñaki Williams, nascido em Pamplona – capital da comuna de Navarra, no País Basco – e filho de pais ganeses, estrear pelo time de San Mamés. Em 2015, o herói do título da Supercopa de 2021, entrou para a história ao ser o primeiro jogador negro a marcar um gol com a camisa rojiblanca. Desde muito jovem nas divisões de base, Williams é o retrato perfeito do atacante formado em Lezama.

Como dito antes, a cantera dos Leões é muito famosa pelas joias que revela. E por pertencer a um clube cuja ideologia é restritiva, a academia precisa ser – acima de tudo – eficiente. É importante ressaltar que o Athletic mantém relações com vários clubes amadores e pequenos da região basca, especialmente o CD Baskonia, para ampliar a captação de atletas. Por muito tempo, houve um convênio entre Osasuna e Athletic, mas devido a animosidade gerada pela rivalidade entre os clubes a parceria diminuiu apesar de existirem alguns acordos por atletas – caso de Aléx Berenguer, revelado pelo time da região de Navarra, que fora vendido ao Torino no passado e que atualmente defende as cores do Athletic. No contrato, o clube de Bilbao teve que pagar uma cláusula de €1.5 milhão aos Rojillos.

Iñaki poderia ter se convertido em jogador do Osasuna caso os olheiros do Athletic não o tivessem percebido no CD Pamplona, clube da mesma cidade. Desde o sub-19 em Lezama, e com passagem curta pelo CD Baskonia, o motivo por Williams ser o clássico jogador produzido na academia bilbaína é por conseguir aliar a capacidade goleadora – exigida desde os primórdios do clube – com versatilidade ofensiva. Iñaki começou a carreira como extremo por conta da velocidade e explosão, mas várias vezes jogou como segundo atacante ou até como centroavante (na função de falso nove), haja vista a facilidade em balançar as redes.

As equipes nas camadas inferiores do Athletic atuam sobre o mesmo sistema de jogo da equipe principal, sendo basicamente o 4-2-3-1 ou o 4-4-2. A naturalidade faz com que o jogador suba de patamar sem sentir a pressão, provando a eficiência das divisões de base.

E se a torcida já ama Iñaki, então ela pode esperar grandes coisas de outro Williams muito em breve. Nicholas, mais conhecido como Nico, é o irmão mais novo de Iñaki, que com apenas 18 anos já chama a atenção como o principal jogador da equipe B do Athletic na terceira divisão.

Nico passou pelo mesmo processo, tendo atuado pelo Bilbao Athletic, CD Baskonia e agora na equipe B. Ao contrário do irmão, o jovem de 18 anos não chegou a jogar por nenhuma equipe de Navarra. Foi direto para as divisões inferiores do Athletic.

Seguindo o padrão de jogador ofensivo produzido em Lezama, Nico tem demonstrado faro de gol apesar de atuar mais como extremo nesse processo de formação. Até o momento, o jovem Williams tem quatro gols na Segunda División B. Tal como o irmão, ele é destro e tem ótima estatura (1,80m enquanto o irmão de 26 anos tem 1,86m).

Embora compartilhem algumas similaridades, é perceptível que Iñaki e Nico são jogadores diferentes pelo comportamento em campo. Enquanto o irmão mais velho se destaca pela velocidade e finalização, o mais novo – apesar de ser vice-artilheiro do campeonato – ainda precisa melhorar a pontaria para aproveitar as chances que ele mesmo cria na individualidade. Habilidoso e mais cadenciado, Nico é imprevisível no espaço curto por conta dos dribles mirabolantes que tira da cartola.

Além disso, Nico Williams se associa bem ao jogo, procurando espaços e criando oportunidades pelas beiradas. Ele pode ser fatal em espaço aberto por ser veloz, tal qual o irmão mais velho, porém, essa diferença é justamente o complemento necessário para que os dois joguem juntos no futuro.

Graças aos desempenhos recentes, que vão melhorando gradativamente, não seria uma surpresa vê-lo em campo com Iñaki. Os Williams podem ser os primeiros irmãos a atuar com as cores rojiblancas no século XXI.

Para jogar no Athletic é necessário, muitas vezes, ter mais personalidade do que habilidade. Não que haja uma predileção pela garra, mas pela situação inserida. Felizmente, os irmãos Williams possuem tanto habilidade quanto personalidade. Seja para decidir campeonatos, como fizera Iñaki, ou para bater um pênalti contra jogadores profissionais durante sua formação futebolística, como acontecera com Nico.

O sentimento de pertencimento que a comunidade do Athletic desenvolveu ao longo dos anos, tanto como clube quanto como torcida, vai muito além de fronteiras ou da cor da pele.

Compartilhe

Comente!

Tem algo a dizer?

Últimas Postagens

Cinco promessas africanas na base de clubes europeus
Caio Nascimento

Cinco promessas africanas na base de clubes europeus

0 Comentários
Pellegrini: a história dos romanos na Roma continua
Caio Bitencourt

Pellegrini: a história dos romanos na Roma continua

0 Comentários
A afirmação da Espanha e sua nova geração
Bruna Mendes

A afirmação da Espanha e sua nova geração

0 Comentários
Guto Ferreira coloca o Bahia para acelerar
Gabriel de Assis

Guto Ferreira coloca o Bahia para acelerar

0 Comentários
RAIO-X: De onde saem as assistências dos líderes do quesito na Série B
Douglas Batista

RAIO-X: De onde saem as assistências dos líderes do quesito na Série B

0 Comentários
Os destaques dos 8 classificados no Brasileirão Sub-20
Caio Nascimento

Os destaques dos 8 classificados no Brasileirão Sub-20

0 Comentários
A reinvenção de Brahim Diaz no meio-campo do Milan
Caio Bitencourt

A reinvenção de Brahim Diaz no meio-campo do Milan

0 Comentários
Maduro, o Red Bull Bragantino se aproxima de fazer história
Gabriel de Assis

Maduro, o Red Bull Bragantino se aproxima de fazer história

0 Comentários
Friendly #7 | O novo rico Newcastle, Sports Washing e a ‘era’ de clube-estado
Eduardo Dias

Friendly #7 | O novo rico Newcastle, Sports Washing e a 'era' de clube-estado

0 Comentários
Napoli: O impacto inicial de Anguissa com a camisa partenopei
Caio Bitencourt

Napoli: O impacto inicial de Anguissa com a camisa partenopei

0 Comentários
O Grande Norte e os grandes desafios: o que o futuro reserva para o futebol masculino do Canadá?
Caio Nascimento

O Grande Norte e os grandes desafios: o que o futuro reserva para o futebol masculino do Canadá?

0 Comentários
O agressivo América/MG de Vagner Mancini
Gabriel de Assis

O agressivo América/MG de Vagner Mancini

0 Comentários
O Botafogo/PB em busca de um acesso histórico na Paraíba
Douglas Batista

O Botafogo/PB em busca de um acesso histórico na Paraíba

0 Comentários
A disparidade entre Atlético de Madrid e Barcelona
Bruna Mendes

A disparidade entre Atlético de Madrid e Barcelona

0 Comentários
Tuchel, Solskjaer, tropeços e realidades diferentes
Lucas Filus

Tuchel, Solskjaer, tropeços e realidades diferentes

0 Comentários