Eriksen: o doce mistério da Inter de Antonio Conte

O dinamarquês foi contratado como uma oportunidade de mercado para a Inter; Antonio Conte moldará o seu jogo de acordo com ele?

A grande pergunta dos últimos tempos na Inter de Antonio Conte é “como encaixar Eriksen no esquema nerazzurri?”, o que parece uma pergunta simples se olhando as qualidades do meia dinamarquês, mas complicada se considerada a rigidez tática do técnico italiano.

Para entender toda a curta história do dinamarquês Christian Eriksen na Internazionale, é preciso voltar no tempo até o fim da Champions League de 2018–19, quando o Tottenham foi para a final — com o camisa 23 como um dos destaques da equipe — e ele não quis renovar seu contrato, o que gerou meses do meia com o corpo em Londres, e a cabeça em outro lugar.

A Inter aproveitou a situação e convenceu, em janeiro de 2020, o meia a assinar com os nerazzurri e ser um dos centros do projeto da Suning, de Giuseppe Marotta e de Antonio Conte, de trazer a Beneamata de volta ao topo do futebol italiano. 

Quando se contratou o meia, muitos interistas imaginaram-o como o primeiro trequartista da equipe desde a chegada de Sneijder, em 2009, em que desde o início, com um Derby vencido por 4–0 diante do Milan e uma grande atuação, já se vislumbrava a idolatria que seria eterna com o não mais eterno Triplete de 2009–10.

A estreia de Eriksen foi menos arrebatadora. Foi vencedora, é verdade, com vitória de 2–1 sobre a Fiorentina na Coppa Italia, mas foi mais discreta. Na estreia, taticamente não parecia adaptado, mas em termos de passes, conseguia sempre encontrar seus companheiros, e até deu um passe pra Lautaro marcar um gol, que seria anulado pela arbitragem.

Mas as jogadas dele naquela partida deram um possível sinal de como poderia utilizá-lo, tendo em vista que muitas vezes, Eriksen partia da esquerda pra dentro, buscou trocas curtas e teve como objetivo administrar a posse em zonas intermediárias, limitando a saída direta nas pontas e tornando a subida ao campo mais drible. Com a bola no terço final, então, a qualquer momento ele poderia colocar os atacantes na frente do goleiro.

Isso gerou um grande mistério a Conte: encaixar Eriksen no 3–5–2, ou criar uma variação do 3–5–2 como um trequartista no 3–4–1–2? A senha poderia estar na sua estreia diante da Udinese, seu primeiro jogo como titular no Campeonato Italiano.

Eriksen foi o meio-campista ofensivo na fase defensiva, para pressionar a defesa de três homens da Udinese em igualdade ou para proteger a passagem para o zagueiro, e na fase de posse foi o meia pelo lado esquerdo, que alternou movimentos para ampliar para ajudar a circulação e criar espaço do meio para a esquerda.

Mas naquele momento não agradou tanto, e em um contexto de “time que está ganhando, não se mexe”, foi ficando no banco. Na época, Conte explicou os motivos de sua calma: “Ele vem de um estilo de jogo muito livre. Os meias precisam de mais tempo para aprender as duas fases, precisam de encontrar o ritmo e entrar nessa ideia de jogo, mas [ele] têm uma boa leitura e está se inserindo”, disse após o clássico do returno diante do Milan.

No contexto antes da parada da pandemia, Conte testou em diversos modelos e situações onde o uso descontínuo e os problemas de resultados não auxiliaram na adaptação do meio-campista junto ao time interista, o que fazia Eriksen ser sempre discreto.

Até que após o retorno da pandemia, Conte resolveu ser mais flexível. O seu 3–5–2 tradicional, virou um 3–4–1–2 para abrigar o meia dinamarquês. No seu primeiro jogo, Eriksen respondeu com gol no clássico diante do Napoli na Coppa, apesar da eliminação e de ter sido um belo gol olímpico.

Eriksen atuando como trequartista nas entrelinhas diante da Sampdoria. (Foto: CalcioNews24.com)

Vale destacar o trecho do texto de Federico Aquè para L’Ultimo Uomo sobre a adaptação do meia:

Com um novo sistema e a adição de Eriksen, o jogo da Inter mudou significativamente. A presença do dinamarquês derrubou de fato a ideia sobre a qual foi construído o desenvolvimento das ações, que é esvaziar o centro do campo para chegar de maneira vertical às pontas. Eriksen como meia ofensivo ofereceu uma solução alternativa, aumentou o drible, ocupou os espaços entre a área de construção e os atacantes, reduziu as suas combinações e empurrou-os para os lados. Na verdade, o dinamarquês não recebia [a bola] em uma área definida, mas tinha a liberdade de se mover continuamente em direção a bola, chegando mesmo a recebê-la diretamente dos zagueiros na posição do meio-campo, causando uma série de rotações que deveriam ter tornado o desenvolvimento da jogada menos previsível. 

Paradoxalmente, Aquè cita que a chegada de Eriksen fez a Inter se sobrecarregar em termos de jogadas pelas pontas, mas que tinha o fator positivo que a passagem dos outros meias sem a bola fazia criar espaço para que o dinamarquês ache seus passes e tome decisões com mais espaços.

Além disso, o meia também colaborava com a movimentação dos atacantes, tanto de Lukaku, quanto de Lautaro Martínez, e que ambos colaboram para as infiltrações do meia em profundidade, uma vez que os dois são especialistas em atrair zagueiros, adversários, como o caso de Koulibaly na imagem do clássico contra o Napoli na Coppa:

Lukaku se movimenta, e Eriksen infiltra: uma grande virtude do modelo 3-4-1-2 interista. (Foto: CalcioNews24.eu)

Por outro lado, mesmo com essa variação tática, Eriksen não foi titular até o fim da temporada da Serie A, e nem mesmo na reta final da Europa League, muitas vezes variando sua vaga de trequartista com Borja Valero ou Brozovic, ou mesmo quando Conte optou por retornar com o 3–5–2.

Um dos fatores que faz Conte ser relutante com Eriksen é a baixa contribuição na fase defensiva. As rotações e a baixa presença do dinamarquês na marcação fazia com que a Inter sofresse defensivamente, especialmente nas transições, o que foi uma das razões para Conte retornar com o seu esquema preferido. 

Apesar disso, na estreia do campeonato jogou como titular na sua função de trequartista, embora não agradou em termos de atuação, e foi substituído por Sensi ao longo da segunda etapa. O meia italiano agradou muito na última temporada e pode ser um forte concorrente para Eriksen. 

Não bastasse isso, a Inter vive um de seus momentos mais fortes recentemente com o meio-campo, uma vez que se dá ao luxo de ter no elenco jogadores talentosos como Brozovic, Sensi, o próprio Eriksen, e agora tem no elenco o retorno de Nainggolan após uma temporada no Cagliari, e a contratação de Vidal, o grande pedido de Antonio Conte.

A contratação do chileno propriamente pode ser um caso a parte na disputa com Eriksen, embora ele tenha entrado no lugar de Brozovic diante da Fiorentina, a intensidade do meia chileno pode fazê-lo ganhar espaço contra um meia dinamarquês que por vezes é criticado justamente pela falta de intensidade. 

Nesse contexto, Eriksen pode virar para a Inter de Conte um reserva de luxo, um jogador que pode mudar o time em um segundo tempo, ou em vencer certos tipos de jogo no campeonato italiano, mas que não está no centro do projeto, justamente porque o contexto não lhe valoriza e prefere outros tipos de jogadores como Vidal, que não precisam se adaptar a ele.

E em meio a isso, Eriksen pode virar um “bode na sala” interista, uma vez que era uma oportunidade de mercado importante para os nerazzurri, com o talento que o time precisava, mas que nunca foi exatamente bem quisto por Conte e seu estilo, e por conta disso, deixado de lado pelo treinador. 

Como Antonio Conte irá resolver o “doce” mistério para os interistas de ter um jogador como Christian Eriksen no elenco? Será que o dinamarquês vai se adaptar ao estilo do treinador, o treinador vai se adaptar ao estilo do meia, ou nada acontecerá e ele será apenas um reserva de luxo? Acompanharemos nas cenas dos próximos capítulos.

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