Germán Cano: um oásis no deserto vascaíno

Mesmo em um time pouco inspirado, Cano tem sido bastante acionado, e, consequentemente, correspondido com gols. O que falta para que suas atuações se traduzam no coletivo?

Mesmo demonstrando boa reação em 2019, o Vasco não carregava consigo muitas expectativas para 2020. Talvez pelo baixo número de jogadores que brilham os olhos no elenco — ou, também, pela falta de confiança no comando técnico. E um pouco disso foi visto no primeiro pedaço da temporada, antes da paralisação por conta do Covid-19. Um jogador, no entanto, tem entregue esperança ao afligido torcedor vascaíno: trata-se do argentino Germán Cano.

Os cinco gols em 11 partidas, tão somente, não explicam a capacidade do atacante. No entanto, apontam uma clara debilidade do Vasco: o argentino só não marcou três gols do time, que fez oito em 14 jogos no ano. Se produzir gols é difícil, criar com qualidade para quem os marca tem sido uma tarefa ainda mais complicada. E Cano é um jogador que facilita a criação, já que é móvel e associativo, além de demonstrar um qualificado desmarque curto. Com a diminuição dos problemas coletivos da equipe, é bem possível que o argentino renda ainda mais.

Como Cano marca seus gols

Sem dúvidas, Germán Cano está no auge da sua carreira. Em 2019, marcou 41 gols em 47 jogos pelo Independiente Medellín. A maioria deles foi de dentro da área, não precisando mais de um toque. No Vasco, também tem sido assim. Dos cinco gols que marcou, deu mais de dois toques em somente um deles (contra a Portuguesa-RJ). Nos outros, graças ao seu posicionamento, no campo e corporal, pôde finalizar as jogadas rapidamente e de modo letal.

Com Talles recebendo em profundidade, Cano jamais para de correr em direção à área e marca o que foi seu segundo gol com a camisa do Cruz-maltino

Todos os tentos foram de dentro da área, e em situações de ataque rápido. Em nenhum deles, Cano ficou parado, esperando a bola chegar. Ele sempre se movimenta, procurando criar linhas de passe e boas condições de finalização. Se o passe chega ao atacante, nessas circunstâncias, a chance de gol é grande. Por isso, atuar ao lado de jogadores criativos, como Talles Magno, podem fazer bem ao jogador. Não à toa, o jovem já deu duas assistências para o argentino.

Cano sempre busca a área em contragolpes. Três dos cinco gols saíram em situações de transição ofensiva, o que sinaliza uma das armas a serem exploradas pelo Vasco em 2020. Mas não somente essa, claro. Caso contrário, o time pode ficar previsível, alertando os defensores adversários para cobrirem os desmarques do atacante. No gol contra o ABC, seu último, a defesa até marcou uma possível antecipação do jogador, mas, inteligentemente, ele segurou a corrida e finalizou atrás de todos.

Adaptação no Brasil

Ainda que Cano seja associativo recebendo de frente, fora da área, alimentá-lo próximo ao gol é crucial para que as chances apareçam. Estatisticamente, e em partes, isso tem ocorrido. Em 2020, sua média de toques na área por partida é de 5.18. No jogo em que recebeu mais de 10 passes quando próximo à meta, contra o Altos, na Copa do Brasil, finalizou quatro vezes a gol e marcou um, o que deu a classificação para o Vasco. Foi o jogo em que o argentino mais finalizou, ao lado da partida contra o ABC, quando deu nove toques na área (no total, foram sete chutes em cada).

Pelo Independiente Medellín, na temporada passada, os números são similares. A quantidade de toques na área, inclusive, foi menor: pouco menos de quatro por partida, contra os cinco toques em 2020. Outros valores similares são as ações totais por jogo e o número de arremates. A diferença fica por conta dos gols esperados (xG). No Vasco, a expectativa é de um gol a cada dois jogos, enquanto, na Colômbia, era de 1,5 gol a cada duas partidas.

Ao longo da carreira, Cano precisou de pouco mais de cinco chutes para marcar um gol. No Vasco, ele tem feito um gol para cada dez chutes.

Para que as chances sejam de melhor qualidade, a criação precisa ser melhorada. Essa era, inclusive, uma das principais críticas do torcedor vascaíno ao trabalho de Abel: a ausência de um meia mais criador no 4-3-3 implementado pelo técnico. Martín Benítez, recém chegado, pode ser esse jogador, ainda que atuasse mais aberto no Independiente. Outros nomes, como o do meio-campista Nicolás Oroz, também estão na mira da equipe, que claramente visa reforçar o setor para melhor municiar o atacante.

As boas atuações de Cano, no Brasil, podem ser explicadas justamente pela regularidade técnica do jogador. O trabalho de encaixá-lo parece ter sido bem feito, já que ele não parece perdido em campo — mas isso não foi suficiente para a consistência nos resultados. Além de melhorar a qualidade das oportunidades criadas para o jogador, o Vasco ainda depende de um bom funcionamento coletivo, o que será, certamente, a principal incumbência do novo técnico.

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  1. Cano era o único nesse time do Abel que se movimentava bem e tinha uma boa noção de ocupação de espaço. Os outros jogadores ao seu redor constantemente se confundiam sobre onde deveriam se posicionar ofensivamente, o que causou algumas vezes os pontas quase em cima dele, fazendo com que os marcadores tivessem nem que se preocupar, já que só um cobrindo eles já era o suficiente. Em diversos momentos ele fazia inversões de jogo e já se projetava na área esperando o passe, um reflexo de como os meias do Vasco não correspondiam caracteristicamente ao que o Abel gosta. Esse Vasco tem que procurar um treinador que saiba aproveitar os condutores de bola que esse time tem, pois no momento, comprar peças novas seria loucura, visto a situação econômica do time.

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