Gerson: um mérito de Jorge Jesus

Após passagens apagadas por Roma e Fiorentina, o meio-campista formado no Fluminense reencontrou seu futebol sob o comando do português

O caso de Gerson é um exemplo de como um treinador capacitado que entenda o futebol de seus jogadores resulta fundamental para o desenvolvimento dos mesmos como atletas no esporte de bola redonda. O jovem formado no Fluminense caracterizou-se nas seleções de base do Brasil como um armador, partindo habitualmente aberto pela direita para aproveitar as diagonais de seu habilidoso pé esquerdo e chegou a Itália para defender as cores da AS Roma com a imagem de um camisa 10 sul-americano clássico com o talento suficiente para evoluir no futebol europeu e alcançar outros patamares.

No entanto, Gerson sente o jogo de outra maneira. Como um autêntico jogador brasileiro. Gosta de intervir, manter relação com a bola nos pés constantemente e arriscar passes que estão ao alcance apenas dos privilegiados tecnicamente no futebol. A imaginação e inventividade estão presentes na sua cabeça antes de execuções de uma dificuldade altíssima. Seu fracasso na primeira experiência no velho continente pode ser explicado de diversas formas: por rendimento abaixo do esperado, questões táticas que apenas seus treinadores durante a passagem no Calcio são capazes de responder, até mesmo adaptação a um país com cultura totalmente diferente ao Brasil em vários aspectos sociais que influenciam na introdução do indivíduo em um novo ambiente… A verdade é que Gerson trata-se de um talento único que não foi compreendido fora de seu país natal. Como dito no parágrafo anterior, inclusive no próprio futebol brasileiro o jovem de 22 anos acabou subaproveitado. Vamos contextualizar isto com estatísticas:

No Fluminense em 2015, sua temporada de estreia na elite do futebol tupiniquim, Gerson somou em média 18.7 passes por jogo em 29 jogos realizados no Campeonato Brasileiro. Na Itália, por Roma e Fiorentina, estes números aumentaram relativamente, para 21.6 e 31 tentativas de passe em 60 partidas disputadas, respectivamente. Podemos concluir dois fatos concretos através destes números: primeiro, o meio-campista do Flamengo era utilizado em outras funções que não ofereciam o peso no jogo que o futebol de Gerson necessita ou, segundo, por conceitos do futebol italiano, em que os interiores são caracterizados por mais intensidade e físico e os volantes recuados que possuem qualidade no passe, o jogo de Gerson foi mal interpretado e prejudicado. Sem ir muito longe, atualmente como meio-campista, o garoto formado em Xerém realiza em média 51.7 passes por jogo, prestações brutalmente superiores a seu primeiro ano no futebol adulto.

A DEFINIÇÃO ESTILÍSTICA COM JORGE JESUS

Em seu 4-1-3-2\4-2-3-1 utilizado habitualmente, o português Jorge Jesus solicitou a contratação de um segundo volante com capacidades técnicas e físicas para resistir a pressões, somar a nível associativo com a bola nos pés e marcar diferenças no campo de ataque em fases de organização ofensiva. Para estas funções, chegou Gerson, que anteriormente nunca havia sido um meio-campista de fato apesar de uma série de jogos como interior relacionado aos últimos metros e ao jogo entre linhas na Itália. O caso é que a resposta do ex-jogador do Fluminense está sendo brutal. Na estrutura ofensiva do Flamengo, que posiciona sua saída de bola com o volante Willian Arão entre os zagueiros Pablo Marí e Rodrigo Caio, Gerson serve como um apoio em uma segunda altura do centro do campo para dar continuidade as jogadas através do passe, com visão de jogo para lançar companheiros em profundidade ou ativar os movimentos entre linhas do extremo Éverton Ribeiro que parte aberto da direita para a zona central.

Em fases de pressão alta, outra marca registrada do treinador luso, o papel de Gerson também é decisivo: avança no terreno de jogo e pressiona de forma individual um dos meio-campistas rivais no sistema de vigilâncias defensivas ao homem na hora de pressionar a saída de bola do adversário.

Contra o River Plate na final da Copa Libertadores, com um Gerson em um dia inspirado, as possibilidades do Flamengo ganhar o título de campeão da América aumentam consideravelmente.

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Higor Leonardo

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