Glamour, expectativa e talento: a vida de Hannibal Mejbri

Eleito o melhor jogador sub-23 do Manchester United na temporada 2020/21, Hannibal Mejbri já coleciona momentos impactantes dentro e fora dos gramados com apenas 18 anos de idade. Transferência milionária aos 16, briga entre países, superagente de futebol e comparações com lendas de Old Trafford. Conheça a grande promessa do Man Utd.

Um salão reservado para um número restrito de pessoas, que vestiam trajes de gala. Todos encarando o palco cujo cenário é uma grande construção cartaginesa, com grandes colunas e um nome escrito na fachada. Em meio ao gelo seco e embalado pela trilha sonora medieval de “O Fortuna”, Hannibal Mejbri sai dos bastidores para se revelar como a grande salvação do futebol tunisiano.

A pomposa apresentação da joia do Manchester United pela Federação Tunisiana de Futebol representa um grande feito para o país, que viu vários jogadores com dupla-nacionalidade optando pela seleção francesa. A Tunísia fez parte do território da França até a independência, em 1956, e tendo até hoje uma grande dificuldade para montar equipes competitivas.

Ver um jogador promissor, que nasceu em Ivry-sur-Seine (comuna de Paris), e que defendera as seleções de base dos Bleus até o sub-17, fazendo o caminho inverso de gente como Hatem Ben Arfa, por exemplo, é muito importante para a Tunísia.

“Eu acho que essa foi a melhor decisão para minha família e para mim. Estou muito orgulhoso dessa decisão. A Tunísia é o meu país, o país dos meus pais, então é claro que existe uma cumplicidade”, declarou a joia à RMC Sports.

Hannibal Mejbri fora convocado por Mondher Kebaier para a seleção principal, que terá três amistosos nos próximos dias contra República do Congo (sábado, dia 5), o superclássico contra a Argélia (sexta, dia 11) e Mali (terça, dia 15). O meio-campista tem apenas 10 minutos como profissional do Manchester United, tendo estreado contra o Wolverhampton, na última rodada da Premier League, na vitória por 2×1. Para completar, ele é o mais jovem dentre os selecionados para defender a Águia de Cartago.

É importante ressaltar que a Tunísia fica na região do Magrebe, fazendo fronteira com Argélia e estando bem próxima de Marrocos e Egito, com as quais ela tem rivalidade cultural e futebolística. Ao contrário das Águias, esses três países encontram maior facilidade para montar seleções competitivas, especialmente por também contarem com jogadores que atuam em equipes grandes do cenário europeu.

A Argélia é a atual campeã do Campeonato Africano de Nações (CAN), tendo também emplacado uma geração que conta com Aissa Mandi (Betis), Ramy Bensebaini (Monchengladbach), Yousef Atal (Nice), Said Benrahma (West Ham), Rachid Ghezzal (Besiktas), Sofiani Feghouli (Galatasaray), Islam Slimani (Lyon) e, o maior de todos, Riyad Mahrez (Manchester City). O Egito já conquistou a CAN sete vezes e possui nada mais nada menos que Mohamed Salah a disposição. O Marrocos, tem a mesma quantidade de CANs que a Tunísia, porém, vê em sua formação mais jogadores desempenhando em alto nível, como Bono (Sevilla), Romain Saiss (Wolves), Zouhair Feddal (Sporting), Sofyan Amrabat (Fiorentina), Achraf Hakimi (Inter de Milão), Hakim Ziyech (Chelsea), Adel Taarabt (Benfica), Youssef En-Nesyri (Sevilla) e Munir (Sevilla).

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A última grande festa do povo tunisiano com a seleção nacional foi em 2004, quando as Águias de Cartago conquistaram pela primeira e única vez a CAN, em casa, contra o rival Marrocos. Em Copas do Mundo, a melhor campanha foi o nono lugar na Argentina, em 1978.

Por isso, é compreensível a euforia da federação e da crônica esportiva pela escolha de Hannibal Mejbri em representar o país de sua família. Para contribuir com o hype, ele fora eleito o melhor jogador sub-23 dos Diabos Vermelhos na temporada que se encerrou, levando para casa o troféu Denzil Haroun.

Ao todo, foram 21 jogos na Premier League 2, registrando quatro gols e nove assistências com a equipe que terminou na oitava posição. Inclusive, Mejbri é companheiro geracional de Shola Shoretire e Anthony Elanga, que são outras duas grandes promessas dos Diabos Vermelhos, mas que curiosamente estrearam como profissionais algumas partidas antes do meio-campista.

Shoretire fora utilizado por Ole Gunnar Solskjaer na vitória por 3×1 sobre o Newcastle, em 21 de fevereiro. O ponta-esquerda substituiu Marcus Rashford, outro oriundo da academia, aos 89 minutos de jogo. Elanga ganhara sua primeira chance na partida contra o Leicester, na antepenúltima rodada, quando fora titular na derrota por 2×1 para os Foxes. Apesar do placar, o ponta sueco ganhou outra chance como inicial, na última rodada, contra o Wolves, tendo marcado um gol aos 13 minutos de partida.

Historicamente, o Manchester United modelou suas equipes vencedoras com jogadores produzidos em casa. Os “Busby Babies” e a “Classe de 92” são grandes cases de sucesso do passado, porém, há jogadores atuais vindos da base que são fundamentais para a equipe titular, como Scott McTominay, Marcus Rashford e Mason Greenwood.

Por outro lado, o trio formado por Mejbri, Shoretire e Elanga difere um pouco do modus operandi do Man Utd, que ficou caracterizado anos atrás. Tal como o tunisiano, o inglês e o sueco foram captados de outras academias em 2015. O primeiro veio do Newcastle e o segundo do Malmo-SUE. Esse estilo predador na base foi crescendo ao longo dos anos, como nos casos de Dillon Hoogewerf que chegou do Ajax, Matej Kovar do Slovacko, Álvaro Fernandez do Real Madrid, Ethan Galbraith do Linfield, Joe Hugill do Sunderland, Willy Kambwala do Sochaux, Marc Jurado do Barcelona, Isak Hansen-Aaroen do Tromso e Charlie McNeill do Manchester City. Todos eles com atuações de destaque em partidas de base pelo Man Utd, mas que ainda não estão no mesmo nível de Mejbri, Shoretire e Elanga.

Ainda há os exemplos de Tahiti Chong, que fora comprado do Feyenoord em 2016 e emprestado para o Brugge e posteriormente para o próprio Feye; Facundo Pellistri, que fora contratado junto ao Peñarol e rapidamente emprestado ao Alavés; e Amad Diallo, que chegou por 20M de euros da Atalanta. Por enquanto, apenas o último conseguiu se manter na equipe principal comandada por Solskjaer.

Todavia, antes de assinar com o Manchester United em agosto de 2019 por €10 milhões, Mejbri esteve perto de vestir a camisa de outros dois rivais dos Diabos Vermelhos: Liverpool e Arsenal. Em 2017, quando tinha apenas 14 anos, Hannibal passou quatorze dias treinando na academia dos Gunners e recebera uma oferta do Liverpool.

Com passagens por Paris FC e Boulogne-Billancourt, o garoto optou por permanecer na França, mas longe da Cidade Luz. O meia aceitou a proposta do Monaco, em Monte Carlo, e passou dois anos numa das mais prolificas academias do mundo. Foi nesse período que, o até então jogador francês, representou assiduamente a seleção nacional, atraindo os olhares famintos dos scouts do Man Utd.

Após desentendimentos da família com o clube, e o interesse latente do gigante do norte da Inglaterra em seu futebol, Hannibal conseguiu fazer a transição que tanto ansiava. Com a ajuda do empresário Jorge Mendes, o famigerado “superagente” de Cristiano Ronaldo e José Mourinho, o meio-campista aterrissou novamente na ilha, mas dessa vez para ficar.

Extremamente técnico, Mejbri começou a carreira como extrema-esquerda, mas após a chegada na Inglaterra ele se converteu num meio-campista completo. Não é costumeiro nas divisões de base do Manchester United dar muita liberdade criativa para os atletas, sendo um clube notabilizado por revelar jogadores fortes, altos, velozes e taticamente obedientes. Entretanto, o camisa 46 possui carta branca para desfilar por todas as linhas do campo.

As nove assistências pela equipe sub-23 na PL2 denotam o perfil de garçom do garoto. Com liberdade para cair pelos lados, mas sempre partindo do centro, Mejbri é um dos jogadores jovens mais associativos do futebol inglês. Sempre perto da bola, o tunisiano é destro, porém, encontra facilidade para atuar pelos dois lados do campo, revelando uma bilateralidade crucial para um criador de jogadas moderno.

No entanto, engana-se quem pensa que a joia do United está limitada as jogadas ofensivas. Inquieto, o tunisiano costumeiramente busca a bola na primeira linha com os defensores e vai costurando jogadas com dribles ou passes de três dedos, rasgando a marcação adversária. Aliás, Hannibal tem um apetite insaciável pelo drible. A promessa do United possui um cartel de truques impressionante, sendo capaz de descolar jogadas individuais em espaço curto ou até mesmo parado. O passado de extrema ajuda nessa questão.

Controle de bola, passe e drible. Tá faltando alguma coisa? Pois bem, por mais que Mejbri seja um excelente criador de jogadas, o meio-campista também sabe finalizar, especialmente da intermediária. A joia geralmente opta pelo chute colocado, buscando o ângulo adversário.

A exigência física do futebol inglês, sobretudo no futebol profissional, é grande. A expectativa do Man Utd era alçar Hannibal Mejbri junto com Shoretire em fevereiro, porém, uma lesão no joelho acabou atrasando os planos. Embora os atletas das academias britânicas aprendam sobre intensidade e compromisso sem a bola desde cedo, esse fator pode pesar para um jogador tão criativo e diferente do modelo da Premier League.

O que pode jogar a favor do tunisiano nesse momento é um traço importante de sua personalidade: a liderança. Elogiado Nicky Butt e Neil Wood, ex e atual treinador na categoria, Mejbri é uma referência para os companheiros por ser exigente e estar sempre focado no confronto. Butt, inclusive, já chegou a compará-lo com Roy Keane nesse aspecto.

Apresentação extravagante em Tunis, empresário famoso desde muito cedo, disputado por clubes gigantes e países que hoje não se bicam, um pai que é ex-atleta e bastante exigente, uma cabeleira que se torna alvo dos torcedores rivais, comparações com deuses mancunianos como Keane e Beckham. Tudo isso para um garoto que recém-completou 18 anos em janeiro. Seu 1,82m de altura pode enganar de longe, mas a cara de criança nos faz questionar a quantidade exorbitante de acontecimentos em sua vida.

Outros jogadores já ganharam o Denzel Haroun Award antes de Mejbri, porém, o talento descomunal faz com que tudo pareça normal, mesmo não sendo, para a grande promessa de um dos times mais acompanhados do planeta.

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1 comentário

  1. Grata surpresa um jogador tão jovem optar por defender seu país natal. Aparentemente, detém as valências necessárias para prosperar na Premier League. Tomara que ganhe minutagem.
    Baita matéria, muito rica em informações e detalhes de maneira organizada 👏

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