GUIA DA CHAMPIONS: Barcelona e Napoli

Troca de treinadores, turbulência fora de campo e dúvidas; confronto entre as equipes pode determinar os rumos de Barcelona e Napoli

Crise. Uma palavra proferida diversas vezes nos corredores de Barcelona e Nápoles. Ambas as equipes trocaram de treinador em meio a temporada. De um lado, Ernesto Valverde deixou o clube para chegada de Quique Setién. Do outro, Carlo Ancelotti se despediu e viu Gennaro Gattuso desembarcar. As eliminações recentes dos culés trazem uma expectativa para os napolitanos e deixa o confronto com contornos de decisão para o futuro das equipes em 2019/2020.

Para buscar conhecer um pouco mais sobre as possibilidades de Barcelona e Napoli neste duelo, foram convocados Gabriel Corrêa e Caio Bitencourt, analistas e torcedores de ambos os clubes.


BARCELONA TENTA SE RECONSTRUIR EM MEIO A TEMPORADA TURBULENTA

A última vez que o Barcelona havia trocado um treinador em meio a um trabalho foi na distante temporada 2002/03. A mudança faz com que o clube tenha uma ruptura de organizações coletivas e precise se adaptar o quanto antes para recuperar o bom nível nas eliminatórias.

Não bastasse isso, um “surto de lesões” acabou afetando o time, sendo Sergi Roberto o último atingido. Além dele, o clube já não conta com Luís Suárez, Ousmane Dembélé e Jordi Alba. Indo mais a fundo, com apenas o reforço de Braithwaite, o elenco de Quique Setién conta com apenas 14 jogadores saudáveis – levando em consideração que Ansu Fati e Riqui Puig são jogadores da equipe B – para esta sequência de ano.

No mais, o clube catalão tem problemas internos, mas que aparentam ser mais externos do que nunca. O presidente Josep Maria Bartomeu recebe cada vez mais críticas pela forma como está gerindo a equipe, principalmente nas contratações. Não por acaso, há chances reais de se antecipar as eleições para o final da temporada. Problemas e mais problemas.

Dito isso, o Barcelona está vivendo o período de transição ao trabalho de Ernesto Valverde e a chegada de Quique Setién. Alguns testes foram feitos como a equipe atuando no 3-5-2, passando pelo 4-4-2 em losango e chegando ao 4-3-3 com Vidal de falso extrema esquerda.

A construção com Ter Stegen e a importância do “terceiro homem”

O enfrentamento com o Napoli será apenas o 10º de Quique Setién no comando do FCB. Dentre os principais aspectos de seu jogo, citado logo em sua chegada (e que você pode conferir aqui), a construção a partir do goleiro tem sido a mais notável e com boa margem para evolução.

No vídeo, poderemos perceber os critérios do alemão Ter Stegen tem sido fundamentais. Os exemplos são de duas equipes com marcação alta e muita intensidade: Getafe e Athletic Bilbao. Contra o clube da capital, o goleiro completou 65 passes, maior número da posição desde 2005. Na partida contra o bascos, o jogador sofreu com alguns erros, mas sempre buscava o passe longo para eliminar rivais (e neste caso dependia também de uma boa recepção do seu último homem) ou então encontrava Busquets e este passava ao homem livre, ou terceiro homem.

O impacto da ausência de Luis Suárez

Apesar dos números na Champions League não estarem ao lado do uruguaio – desde 2015 sem marcar fora de casa na competição -, sua saída por lesão trouxe benefícios e, também malefícios para a equipe blaugrana.

Em primeiro lugar, um sócio para Lionel Messi. A presença do camisa 9 permite que Leo tenha mais espaços na entrelinha e receba passes para chegar concluindo. O companheiro charrúa é ótimo nos desmarques curtos e, muitas vezes, atrai os rivais enquanto o 10 carrega a bola. Também como percebemos no vídeo de Ter Stegen, Suárez seria o homem ideal para receber o jogo direto e dar prosseguimento a jogada, algo que a equipe ainda está se adaptando.

Por outro lado, haviam debilidades na marcação a partir do 4-4-2 com a dupla na frente. Messi e Suárez tem 32 anos e não possuem o mesmo vigor para pressionar os rivais ou, quando a equipe estivesse postada atrás, percorrer muitos metros em alta velocidade um número alto de vezes. Sua saída – e Griezmann sendo movido mais ao centro – permitiu que Messi pudesse descansar mais, apesar de seguir fechando espaços, e deu um maior campo de atuação ao francês.

A Messidependência é ruim?

Por muito tempo, se ouviu que depender de Messi era muito pouco para o Barcelona. Na atual temporada, o argentino participou de 30 (18 gols e 12 assistências) dos 62 tentos anotados pelo Barcelona. Uma participação de praticamente 50%. Aqui, me permitam fazer uma reflexão.

Ter o melhor jogador do mundo – para muitos da história – seria benção para qualquer treinador. Correto? Então, por que não utilizá-lo em seu máximo? O próprio Pep Guardiola afirmou que precisou se adaptar no Bayern e no City por não ter uma peça com essa e, assim sendo, criar mecanismos para todos decidirem.

Messi participou ativamente de 48% dos gols do Barcelona em La Liga (Arte/La Liga)

Fazer com que Messi tenha mais condições de finalizar seria o ideal. Se ele se sente mais confortável como criador (foram 6 assistências nas últimas 4 partidas), então fazer os movimentos de seus companheiros ajudarem nesta criação. Achar que é um problema ter Lionel Messi e depender dele me parece algo exagerado, como equipes sempre foram “dependentes” de todos os seus supercraques. A questão é saber tirar o melhor desta situação.

A falta de um “Iniesta”

Se no período com Ernesto Valverde o Barcelona sentia a falta de um lateral como Daniel Alves, e por isso a titularidade de Sergi Roberto – um meia reconvertido a lateral -, os comandados de Quique Setién sentem falta de um atleta parecido com Iniesta. Mas o que isso significa? Bem, o atual elenco do Barcelona, praticamente todos os meio-campistas não tem como característica principal atuar na entrelinha adversária, buscar jogadas mais próximas da meta.

Nas últimas partidas, Arturo Vidal esteve encarregado desta função. É o jogador mais familiarizado com situações mais ofensivas e que pode dar a profundidade necessária para Griezmann e Messi atuarem mais na entrelinha. Por outro lado, Frenkie De Jong tem evoluído nesta ideia. O jogador tem buscado receber os passes de Lionel Messi a todo instante, e pode ter se tornado uma arma importante.

Uma arma secreta chamada Ansu Fati

As crónicas lesões de Ousmane Dembélé e o início de temporada sem todas as peças, fizeram um jovem de apenas 16 anos surgir como futuro de La Masia. Anssumane Fati era o jogador de velocidade, drible e finalização que a equipe sentia falta em diversos momentos. Com um Jordi Alba sem dar tanta profundidade e pouco inspirado, coube ao garoto ser o receptor do jogo de Lionel Messi da direita para esquerda e, até o momento, ele não tem decepcionado.

Controlar, encaixar a pressão pós-perda e sofrer menos

O Barcelona tem buscado segurar o ritmo dos adversários a partir da posse de bola. O zagueiro Gerard Piqué mesmo afirmou que a equipe “voltou a acreditar que era possível atuar assim”, apesar de sempre ter deixado claro que jogava “de outra forma” porque se sentiam igualmente confortáveis.

Inclusive, quem mais agradeceu as mudanças foi Sergio Busquets. O camisa 5 é um atleta bastante contextual e precisa de uma equipe que “goste” da bola. Enquanto a equipe atuava com três zagueiros nas primeiras partidas, ele fazia a pressão alta e era que mais recuperava bolas (em média 10 por partida), agora sendo o homem da saída tem participado do jogo e ativado o terceiro homem após receber os passes de Ter Stegen. Está se sentindo bastante confortável.

Algo que precisa encaixar e pode levar tempo é a pressão após a perda da bola. O Barcelona ainda está se readaptando a este modelo para recuperar a posse já no campo adversário e precisar correr menos para dentro de sua área – algo que sofre desde sempre -. Por isso, cuidado redobrado contra equipes que possuam meio-campistas que saibam sair de forma rápida e escapar das marcações rivais.

Enfrentar o estádio San Paolo será a segunda grande missão sob o comando de Quique Setién, tendo em vista o sofrimento contra o Bilbao no hostil San Mamés. A equipe, é verdade, tem sofrido menos chutes dos adversários e ao que parece, vai aprimorando seu jogo a cada partida. Resta saber, se as eliminações para Roma e Liverpool não irão assombrar de novo a equipe no primeiro momento de instabilidade.


NAPOLI, A BIPOLARIDADE EM FORMA DE TIME

Essa é a pergunta de 1 milhão de dólares do torcedor do Napoli: como será o time que entrará em campo diante do Barcelona? Será algo irregular como o time da Serie A, ou forte como o time dos clássicos na Serie A e que venceu outros clássicos na competição como contra Lazio e Inter?

É complicado em um fato só linkar o que mudou do Napoli da primeira fase para o time azzurro que entrará em campo no San Paolo e no Camp Nou para as oitavas-de-final. Pra começar, um time que deve ser modificado da maneira de jogar que foi praticada na primeira fase.

Mas se você pensa que os fatos que ocorreram no Barcelona foram o de uma enorme crise, talvez os do Napoli lhe deem a impressão de que tudo aquilo foi uma mera briga de adolescentes. O clima na temporada do Napoli já era de altos e baixos até a derrota pra Roma. Ali, o presidente Aurelio De Laurentiis, recomendou que o time entrasse em regime de concentração para as partidas contra Salzburg pela Champions League, e Genoa, pela Serie A.

O provável 4-3-3 do Napoli para enfrentar o Barcelona (Arte/Tactical Pad)

Uma concentração que só “seria perdoada”, caso vencessem o Salzburg na quarta-feira. Empataram por 1–1 com uma quantidade incrível de gols perdidos, algo que mesmo com Gattuso permaneceu como tônica em alguns jogos. 

A atuação, apesar das críticas da torcida, foi vista como “boa”. Por conta disso, os jogadores resolveram desertar a concentração, ao contrário de Ancelotti, que chegou a dizer durante a semana que não apoiava o regime de concentração, mas acabou acatando a sugestão presidencial, assim como sua comissão técnica.

Em meio a tudo isso, na temporada do Napoli houve quase dois meses de paralisia tática e futebolística. A equipe não evoluía e alguns jogadores pareciam em fim de ciclo, já esperando a hora inevitável do fim de temporada para ir embora. 

Pra piorar, na atual temporada, por vezes o Napoli sofreu com problemas de lesões que não aconteciam com frequência nas últimas temporadas. Para se ter uma noção, do atual elenco, apenas Callejón não ficou de fora por alguma partida por lesões.

Em meio a tantas confusões, o confronto contra o Barcelona foi visto como mais um sinal de azar para uma torcida que se sente azarada quando joga Champions League, e que nos últimos anos, já teve de enfrentar na competição PSG, Manchester City, Borussia Dortmund, Real Madrid e Liverpool. 

A DEFESA

As lesões tanto afetam, que uma das estrelas do time e da primeira fase, o zagueiro Koulibaly, não deve jogar o confronto diante do Barcelona. Mas como Gattuso tem reagido a falta do senegalês, que vem acontecido com frequência desde a virada do ano?

A defesa era um dos principais problemas do Napoli na temporada. Ela que tanto foi bem no primeiro ano de Ancelotti e durante o período de Sarri, sucumbiu a tal ponto que no campeonato, só em 3 de 24 partidas o time não sofreu gols. 

Mas como isso aconteceu? É bem verdade que ao longo da temporada, o Napoli só repetiu a dupla de zaga em poucas oportunidades. Manolas e Maksimovic, a possível dupla titular, só jogou junta em 2 rodadas de campeonato e na semifinal da Coppa Italia. 

Por muito tempo, devido a falta de jogadores e de confiança em Luperto, Gattuso já chegou a adaptar Di Lorenzo, lateral em ambos os lados, como zagueiro nos primeiros jogos de 2020. Naquela ocasião, tentando cobrir a lacuna com a velocidade do lateral, ele conseguiu tornar a perda da bola inofensiva, cobrindo os desequilíbrios na fase de posse de bola.

As transições defensivas após a bola perdida no ataque, no entanto, permaneceram frágeis e, além disso, o fato de Di Lorenzo no meio da defesa também criou problemas para o esquema, justamente por uma questão de movimentos na dupla com Manolas, que chegaram a ser corrigidas nos últimos jogos. 

Aos poucos a tentativa de circular a bola em linhas muito baixas entre os defensores, e principalmente, com participação do goleiro, o que faz Gattuso preferir Ospina em detrimento a Meret, foi virando tendência nos últimos jogos dos napolitanos. 

A questão do meio-campo melhorou com a chegada de dois meias que auxiliam na marcação: Demme foi contratado junto ao RB Leipzig, e Lobotka veio junto ao Celta de Vigo, que serviram para auxiliar na marcação ao lado de Allan, quando este está em campo, ou mesmo entre eles, quando a dupla é escalada. 

Uma tendência que pode ser aplicada na Champions é a que deu certo no clássico diante da Juventus: orientada ao controle dos espaços em frente à sua área, com alto nível de atenção. O 4–3–3, na fase sem a bola, tornou-se um 4–5–1 ou 4–4–2. 

Os momentos em que os comandados de Gattuso naquele jogo sofreram pressão alta da rival foram poucos, ajudou o fato da Juventus não ter driblado muito perto de sua área, mas as linhas não era tão baixas, mostrando boa agressão na área da bola nas duas linhas defensivas.

Gattuso prefere colocar apenas um meio-campo em frente à defesa, em relação aos dois que Ancelotti colocava. Na fase com a bola, este meia cuida da primeira circulação ampliando o jogo de preferência nos lados e equilibrando quando o time perde a bola. 

A ascensão do Napoli em campo com a bola ocorre principalmente pelos lados, os espaços atrás do meio-campo do adversário não são ocupados continuamente e a bola avança nos triângulos formados pela movimentação de laterais, zagueiros e jogadores ofensivos.

O 4–5–1 do Napoli sem a bola no clássico diante da Juventus, que pode ser executado diante do Barça (Foto: L’Ultimo Uomo)

O ATAQUE

Havia um certo racha dos jogadores com Ancelotti. E uma das razões, além da questão dos jogadores para com a força dos treinamentos sob o comando de Carletto, era tática. Os jogadores não gostavam da maneira de jogar com a formação em 4–4–2, e preferiam o retorno do 4–3–3, tão consagrado na era Sarri, o que foi prontamente atendido na chegada de Gattuso. 

Gattuso aprofundou em várias ocasiões sua preferência pelo 4–3–3, seja nos tempos de Milan, ou novamente no Napoli, como o sistema que ele considera o mais adequado para expressar suas ideias de jogo, pois permite impedir a posse do oponente através da formação de muitas linhas em diferentes alturas e facilita a criação de triângulos nas faixas nas quais circular a bola.

Para esse 4–3–3 funcionar, era necessário algumas contratações que faltavam na era Ancelotti. Especialmente de um setor que era necessário na época de Sarri, e que não havia peças no elenco, com as saídas de Jorginho, Hamsik e Diawara. O de regista.

Para isso, embora muitas vezes alternem com um papel de mezzala quando necessário, as chegadas de Demme e Lobotka, além dessa questão, cumpriram a lacuna deixada pelos registas do passado para fazer a distribuição de jogo ao lado de Zielinski, titular absoluto no meio.

Nesta função, até as chegadas de Demme e Lobotka, Gattuso procurou, em vão, reparar os erros com duas peças do elenco. Primeiramente, com Allan diante do Parma, em seguida, com Fabian com algumas partidas, algumas razoáveis e outras desastrosas, como a diante da Inter no San Paolo. 

Fabian, aliás, vem se adaptando ao 4–3–3 jogando como mezzala no lado direito. Não se adaptou a função de regista principalmente pela falta de agressão. De um jogador acostumado a ser uma referência na criação do jogo, foi posto naquela posição de campo para aumentar as jogadas individuais, mas reduziu as jogadas da equipe.

Allan, como uma espécie de mezzala, está mais acostumado a atacar do que para manter a posição e dar cobertura a seus companheiros de equipe, uma tarefa essencial para equilibrar as linhas na frente da defesa e, além disso, ele é melhor em avançar com a bola nos pés e criar espaços no ataque, do que em dar ordem para a circulação de bola, visto a imprecisão nos passes.

É bem verdade que nos últimos jogos, Gattuso tem preferido adaptar Demme ou Lobotka para cumprir a função de Allan, que não tem agradado nos treinamentos, embora nos últimos dias, o treinador e o jogador brasileiro tenham feito as pazes. 

Um dos que pediram de volta o 4–3–3 foi Insigne, o capitão da equipe, que queria sua vaga de ponta-esquerda de volta. Algumas vezes na reserva de Ancelotti, o capitão napolitano não se agradava com o esquema de 4–4–2 que ou lhe obrigava a jogar como segundo atacante, ou como meia-esquerda. 

De fato, a função de ponta-esquerda dá mais campo e ângulo para que Insigne trabalhe seus chutes de longa distância, ou mesmo cruzamento, acionando a clássica jogada para a ponta direita, onde chega Callejón, embora essa jogada só tenha sido executada poucas vezes na temporada.

Nesse aspecto, no ataque segue a alternância entre Milik e Mertens, com Gattuso podendo preferir o belga em caso de uma partida em que se necessite de construção mais atrás, como foi o caso do jogo contra a Inter em San Siro, ou de um jogo mais direto, como foi com Milik na maioria das partidas.

Em caso de substituição, Gattuso costuma optar por Politano no lado direito, em detrimento a Lozano, sob o qual acha que joga no lado esquerdo, mas mesmo assim, foi preterido em relação ao improvisado Elmas nas duas últimas partidas na posição.

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