Intensidade e associação no meio campo do Inter

Em Porto Alegre desde 2016, o volante Edenílson está presente no Inter em todos os momentos do clube neste período de reconstrução. Da Série B em 2017, passando pelo terceiro lugar no Campeonato Brasileiro de 2018 e chegando na final da Copa do Brasil de 2019. Assim como o clube se reestruturou e teve mudanças importantes, […]

Em Porto Alegre desde 2016, o volante Edenílson está presente no Inter em todos os momentos do clube neste período de reconstrução. Da Série B em 2017, passando pelo terceiro lugar no Campeonato Brasileiro de 2018 e chegando na final da Copa do Brasil de 2019. Assim como o clube se reestruturou e teve mudanças importantes, o jogador também não é o mesmo desde seu desembarque na capital gaúcha.

Surgido no Caxias, o camisa 8 sempre atuou como um volante puramente de transição. Cabia a ele puxar os contra-golpes numa equipe que pouco tinha a bola ao enfrentar Inter e Grêmio no estadual. Intensidade sempre uma palavra chave para seu sucesso nos clubes em que atuou.

No Corinthians de Tite, teve oportunidades maiores na lateral direita, sendo reserva de Alessandro na campanha do título da Libertadores e do Mundial de Clubes em 2012. No ano seguinte, substituiu Paulinho na função de “volante infiltrador”, mas sem a mesma capacidade artilheiro do colega, o Timão perdeu na força ofensiva e número de gols. O ciclo de um elenco campeão estava se encerrando naquele momento e o jogador rumava para Itália, onde seu jogo começaria mudar aos poucos.

Não foram muitas as oportunidades que Edenílson recebeu na Udinese, tampouco no Genoa. Com outras necessidades, o jogador acabou fazendo funções distintas e pouco habituais na sua carreira. Como um ala pelo lado direito num esquema de 3 zagueiros e, também como um mezz’ala¹. Num campeonato que, naquele momento, prioriza equipes bastante sólidas e com linhas baixas, sua capacidade de transição melhorou ainda mais. Afinal, a intensidade foi algo que nunca deixou de lado.

Seu retorno ao Brasil, mais precisamente no Internacional para disputar à Série B, começou a trazer outra característica pouco tradicional no seu jogo: a associação. Num campeonato onde o poderio técnico (e financeiro) de equipes como Inter, Palmeiras, Vasco, Grêmio, Atlético/MG e tantos outros é muito maior em relação as “tradicionais” equipes da segunda divisão do Brasil, o Inter treinado por Antônio Carlos Zago – e posteriormente Guto Ferreira -, precisava propor jogo e não havia tanto espaço para as transições de Edenilson.

A média de toques na bola aumentou bastante. Dos cerca de 40/45 para números próximos dos 70. Naquele momento, ainda em reconstrução, o Inter não tinha um lado direito tão consolidado. Foram alguns os nomes testados na lateral após a saída de William (Alemão, Cláudio Winck, Fabinho, etc). Porém, um parceiro de Edenílson ainda segue por aquele lado: Andrés D’Alessandro. O capitão do Colorado é com quem o jogador mais interage durante as partidas com troca de passes curtos para atrair a marcação.

O mapa de passes do volante Edenílson em 2019. (Dados: InStat)
O mapa de passes do volante Edenílson em 2019. (Dados: InStat)

No ano de 2018, já com Odair Hellmann, o Inter começou a consolidar um modelo com o tripé de volantes. Rodrigo Dourado, Edenílson, Patrick; Pottker, Damião e Nico López foram pilares de um Inter que esperava seu adversário e atacava em alta velocidade nos contragolpes. Foi assim que a equipe teve uma sequência de 20 jogos e apenas 1 derrota no Campeonato Brasileiro daquele ano. Apesar disso, os adversários começaram a entender seu jogo e começaram “entregar a bola” ao time que pouco sabia jogar construindo. Edenílson ainda não tinha aprimorado essa sua capacidade. Por isso, vamos pular para 2019.

Na atual temporada, onde o Inter chegou nas quartas da Libertadores, é finalista da Copa do Brasil e sexto lugar do Brasileirão; o modelo de jogo teve algumas alterações que fizeram o time propor mais o jogo e ajudar o camisa 8 neste quesito. Rodrigo Lindoso constrói mais (e melhor) que Rodrigo Dourado, D’Alessandro retornou ao time titular e também tem esta capacidade, Victor Cuesta tem ajudado pelo lado esquerdo e Paolo Guerrero segurado a bola para os companheiros “respirarem” na frente.

Desde então, Edenílson tem ajudado na saída de bola, mas pode ficar alguns valiosos metros mais à frente, já que Lindoso acelera esta troca de passes. O lado direito encaixou com Bruno-Edenilson-D’Alessandro. Um triângulo valioso, como podemos ver no mapa de passes e posicionamento médio da vitória sobre o Cruzeiro, na semifinal da Copa do Brasil.

Além de cada jogador estar no "seu quadrante", atenção para aproximação de Bruno, Edenílson e D'Alessandro.
Além de cada jogador estar no “seu quadrante”, atenção para aproximação de Bruno, Edenílson e D’Alessandro.

Ao lado de Patrick, é quem sobe a pressão para não deixar o adversário respirar e fazer com que o Inter roube a bola de maneira mais próxima do campo adversário. Algo que, aos 29 anos, e vivendo seu auge físico para manter a intensidade os 90 minutos, tem feito total diferença. Não por acaso, Tite pensou em chamá-lo para Seleção Brasileira. O jogador é a peça-chave neste atual momento do Inter.

Além disso, mesmo atuando numa posição onde a “troca de posse” é muito grande, sua média de perdas de bola é muito pequena: cerca de 10 por jogo. Se levarmos em conta que alguns jogadores tem média superiores a 16, Edenílson pouco expõe o sistema Colorado a contragolpes.

Existem jogadores sistema, assim como existem jogadores cumpridores e existem os jogadores que nunca mudam suas características. No Inter, um volante tem se mostrado capaz de atuar de diversas maneiras, em diferentes modelos e que será peça chave no sucesso e na busca pelo título da Copa do Brasil 2019. Edenílson é o símbolo do meio-campo Colorado com a palavra intensidade.


¹A expressão italiana é sobre o meio-campista que joga por dentro, mas ataca no espaço entre o lateral e o zagueiro adversário. Ou seja, entre o meio e a ala.

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Gabriel Corrêa

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