O que se espera de João Félix?

Como a presença e o desempenho de João Félix impacta diretamente nas últimas temporadas do Atleti? O que se esperava dele foi de fato visto dentro de campo? São perguntas que parecem simples, mas que demandam uma compreensão muito maior do que vimos dentro de campo.

Hoje podemos dizer que João Félix virou uma espécie de problema para o Atlético de Madrid. O jovem português teve desentendimentos com Diego Simeone, passou a ser um dos atacantes com menos minutos na atual temporada e isso ocasionou uma discussão sobre o que se deve levar em conta na hora da análise.

João chegou ao Atleti como substituto de Griezmann e por um valor consideravelmente alto. O investimento era notório, pelo status que um jovem chegava a um clube que nunca investiu dessa forma e por todo o potencial evidente desde a base no Benfica. Seu papel como ponta ou atacante era o que mais intrigava na sua adaptação dentro do ataque de Simeone, que sempre optou por jogar com 4-4-2, mas que se tornou mais aberto a novos esquemas nos últimos três anos – o que acabou por gerar muita discussão sobre o sistema reativo.

Lesões atrapalharam sua regularidade no começo e cortava qualquer ilusão gerada por conta de boas performances, ainda que em uma escala muito menor do que se imaginava. Conforme foi superando os aspectos físicos, João conseguiu voar. A temporada 2020/21, quando o Atleti vence a liga nacional pela segunda vez sob comando de Cholo, é o começo do que João Félix poderia significar durante sua construção como colchonero. Aqui temos a certeza que a criação da expectativa não chega perto do que é a superação da mesma.

O camisa 7 vinha de desempenhos semanais espetaculares, ganhando jogos sozinho, fazendo gols como nunca e criando chances como sempre foi de sua característica no terço final. Ali o investimento se deu como certeiro. O jovem português construía sua linda história num primeiro título de expressão num clube como o Atleti, com um treinador tão significativo como Simeone e com uma torcida que abraça quem demonstra estar identificado com o clube.

Ainda que possa ser definido como craque antes mesmo de se consagrar como tal, João entregou tudo que se esperava de maneira racional. A abordagem dentro de campo finalmente se encaixou com tudo aquilo que Simeone pensa e tudo aquilo que o cholismo entrega. João nunca desistiu, até porque é um jogador inconformado com qualquer coisa que não seja vencer, e esse inconformismo é, de certa forma, excelente, traz a resiliência que é um dos motivos do cholismo vencer tanto, ainda que muitos discordem disso.

O grande problema vem quando isso tudo não significa mais nada. Experiência construída, um título nacional no bolso, mas agora um time sem nenhuma perspectiva de melhora no restante da temporada. O Atleti de Simeone se desmantelou de uma forma pouco vista desde que o argentino assumiu a função de treinador. Nada faz sentido. E nessa inconsistência coletiva, a necessidade do talento individual começou a gritar.

Na primeira metade da temporada, João faz partidas abaixo do ideal e não treina da maneira que Simeone gostaria, isso resulta em jogos no banco e cada vez menos minutos na equipe, o que acaba por revoltar João, que quer estar em campo independente disso, com base apenas no seu retorno técnico e o que pode oferecer por conta do seu talento. Entretanto, esse pensamento vai contra tudo que o cholismo acredita, não existe a possibilidade de se colocar acima do jogo em conjunto. Estamos falando de um treinador histórico que respeita o campo e a entrega do jogador além do individual acima da grande maioria das coisas. O grande incômodo disso é a narrativa bater diretamente com toda a questão envolvendo o Griezmann, por exemplo.

O retorno do francês começa a ser o ponto de reflexão e o que acaba jogando contra a posição de Simeone. É evidente que o jogador tem um talento acima da média, se transformou na carreira durante seu tempo no Atleti, mas todo o contexto da saída para o Barcelona e o retorno é ruim em vista daquilo que o próprio Cholo acredita. E como isso tem relação com João? Bom, o próprio Simeone trouxe essas questões para o campo quando precisou lidar com as idealizações do camisa 7.

Ángel Correa e João Félix tiveram momentos gloriosos durante o título da liga, e trouxeram todo aquele significado de que o Atleti não dependia de um jogador apenas. A equipe ter ganhado a liga sem precisar de Griezmann é chave aqui. Apesar disso, Simeone retorna com o francês na equipe titular independente de tudo que aconteceu nos últimos anos e isso é mais um problema – não é como se isso fosse um transtorno para João, mas sim no que se espera que Simeone faça numa situação como a do veterano.

O que Griezmann significa em campo é algo que realmente tem impacto direto no desempenho da equipe, podemos ver na temporada atual como isso é importante em meio ao caos que é o Atleti. Mas se Griezmann é tratado dessa forma, porque João, que sempre demonstrou vontade dentro das quatro linhas, não pode ser também? Aqui o jogo demonstra estar contrariado, porque ambos entregaram futebol e tiveram desavenças – em devidas proporções.

De qualquer forma, João segue recuperando seu espaço no Atleti nos últimos dois meses, por outro lado, resta saber se isso continuará até o fim da temporada. Tudo indica que o clube já busca uma transferência para o jogador que, aos 23 anos, deseja ser a grande peça chave de um grande clube.

O encaixe não é tão simples, mas também não é algo difícil de se fazer muito por conta da variedade do jogo do português. O atacante se tornou muito completo e tem tudo para ser um motorzinho em ascensão além do seu trabalho como atacante. Rende bastante quando é cercado pelos companheiros, como vimos com a seleção portuguesa durante a Copa do Mundo. Além disso, consegue impor seu estilo se bem orientado taticamente, ou seja, seria interessante ver o craque numa equipe com um treinador de ponta.

No quesito evolução há de criar uma maior regularidade em torno do seu futebol, aspecto tranquilo, mas que determina como a carreira irá seguir daqui em diante. Outro ponto interessante são os gols. Suas performances como criador são excelentes, sabe sair da pressão como poucos e municia bem seus companheiros, mas talvez seja necessário um número maior de gols e poder de finalização caso queira se estabelecer numa grande liga e chegue no auge como um atacante completo.

Por fim, o mental. Como o psicológico de João Félix pode interferir no seu futuro? Um jogador que sempre se demonstrou bastante inconformado dentro de campo é um jogador a se destacar pela resiliência, mas grande “porém” é até quando isso será algo positivo em suas atitudes dentro e fora de campo, já que no clube espanhol virou uma bola de neve.

O que se espera de João é exatamente aquilo que ele demonstrou em campo desde que chegou ao Atleti, oportunismo, poder de decisão e intensidade para ganhar partidas a partir do seu talento. A sorte de ter alguém como ele será definida nos próximos meses deste ano. Veremos.

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