Joshua Kimmich e sua temporada de melhor do mundo

Joshua Kimmich tem feito uma temporada fantástica e hoje senta na mesa dos melhores do mundo

O futebol é um esporte que consiste em marcar gols, por isso é tão comum termos a valorização, muitas vezes exagerada, de quem faz muitos deles ou participa diretamente. Porém, pouco se valoriza os jogadores que estão por trás da construção desses gols, e é esse o caso de Joshua Kimmich.

Nascido na região sudoeste da Alemanha, próximo à cidade de Freiburg, Kimmich iniciou cedo no futebol, e não demorou muito a se destacar. Foi captado aos 12 anos pelo Stuttgart, lá jogou dos deus 12 até seus 18 anos, onde foi vendido ao RB Leipzig, então na 3º divisão. 

Nos touros, foi importante no vice-campeonato da 3.Liga, no qual levou a equipe ao acesso para a segunda divisão, foram 26 jogos, 1 gol e 2 assistências pro então volante de 18 anos. Na temporada seguinte, foi novamente importante na campanha que manteve o RB na 2.Bundesliga, e por pouco não veio o acesso. Terminaram a campanha em 5º lugar com Joshua fazendo 27 jogos, 2 gols e 2 assistências. Surge então o interesse do atual tricampeão alemão (à época), o Bayern München.

O Stuttgart, inteligentemente, havia colocado uma cláusula de recompra por um valor baixíssimo (€1,5M) quando vendeu a Red Bull, ativando-a após duas temporadas de destaques e revendendo sua joia por €8,5M ao gigante alemão.

Em sua primeira temporada, impressionou Pep Guardiola e foi logo alçado como um coringa dentro da equipe então tricampeã alemã. Atuou de zagueiro, lateral-direito, volante e médio-centro, sempre com regularidade e boa produção. Na temporada 15/16 foram 36 jogos somando todas as competições, além de duas assistências.

Conforme foram passando as temporadas, Joshua só evoluiu. Assumiu a difícil missão de substituir um dos maiores laterais-direito da história, não só do Bayern mas também do futebol mundial, Philipp Lahm que se aposentou em 2017. Então na temporada seguinte, foi efetivado na posição, fez atuações sólidas e conseguiu repor a altura a perda de uma das bandeiras de um Bayern ultra-vencedor.

Mesmo sendo o melhor jogador da posição no planeta, o Bayern acreditava que o potencial de Kimmich não era 100% explorado com ele na lateral, por isso para a temporada 19/20 foi atrás do defensor francês Benjamin Pavard, realocando o alemão para o meio-campo, onde substituiu Thiago Alcântara, então lesionado. A equipe como um todo teve uma evolução notável após a demissão de Nico Kovac e a chegada de Hans-Dieter Flick, que trouxe o “DNA Bayern” de volta ao clube, um estilo de jogo bem alemão moldado para os tempos modernos, próximo a Jupp Heynckes. 

Flick trouxe de volta aquele 4231 clássico dos tempos de Heynckes, com muitas jogadas pelas laterais, os extremos desequilibrando por fora e trazendo pro centro, encaixes individuais e muita (mas muita) pressão na bola. Porém, com a volta de Thiago, e a instabilidade de Pavard, Kimmich foi novamente colocado na lateral-direita para a reta final da Champions League na bolha de Lisboa. A dupla de volantes do Bayern acabou sendo formada por Thiago e Goretzka, que tinham a função de:

  • criar superioridade na saída de bola e permitindo a projeção dos laterais
  • sair da pressão com inversões longas para os pontas em situação de 1×1 que abriam o corredor para os laterais
  • verticalizar o jogo por dentro achando Lewa oferecendo apoio e ativando os meias nas costas da pressão 

Thiago chamou todo o protagonismo para si nesse período, pois era o principal responsável pela articulação das jogadas e o que mais tinha protagonismo com a bola, deixando Leon apenas como um infiltrador. Foi determinante no título europeu, tendo uma exibição na final feita por poucos.

Ao fim da temporada, Alcântara foi vendido ao Liverpool. Flick resolveu novamente confiar em Benjamin para assumir a lateral-direita, e com isso, Kimmich pode voltar a sua função de origem, e aí que começamos a ver seu potencial sendo 100% aproveitado semanalmente, e não só na seleção, onde Low sempre o viu como uma peça central no meio-campo.

Hoje, o Bayern atua em um 4-2-3-1, com Kimmich sendo um dos médios mais recuado ao lado de Goretzka, fazendo a saída e conectando a defesa com o ataque. Na saída de bola, Joshua ora afunila entre os zagueiros para gerar superioridade no setor, ora se porta às costas da pressão dos atacantes rivais, para gerar uma linha de passe ou deslocar algum volante adversário e liberar a entrelinha para os atacantes explorarem. 

Com o time progredindo, um dos laterais se projeta no corredor enquanto o outro ajuda mais na construção por dentro, varia de acordo com os jogadores escalados. Os pontas têm total liberdade, podem receber por dentro nas costas dos volantes ou esperam abertos, recebem no pé e cortam pro meio, abrindo o corredor e deixando os laterais em situações de 1×1. Lewa evoluiu muito seu jogo nos últimos anos, sobretudo fora da área, e hoje é uma arma muito eficiente no apoio, abrindo espaços e ativando homens livres. Muller segue sendo o raumdeuter de sempre.

Falando agora do jogador, sua melhor qualidade é sem dúvidas o passe, fundamento que domina com maestria. Gosta sempre de estar atrás da linha da bola, saindo da pressão e colocando-a em situações onde os jogadores estejam em vantagem para duelos 1×1 ou finalizarem a gol. Tem boa precisão para inversões de jogo e lançamentos em profundidade, consegue romper as linhas com passes espetados e ser muito associativo em passes curtos, sempre se apresenta para o jogo e da opção.

É muito refinado tecnicamente, possui um primeiro toque fantástico, ambidestria satisfatória, quebra marcações facilmente devido a excelente recepção orientada e o bom repertório de dribles curtos. Sempre tem a bola próxima ao corpo, boa coordenação, troca de direção com facilidade, além de conduzir bem tanto por dentro quanto por fora. Outra qualidade é a finalização de longa distância, possui muita força e precisão nos arremates. Também é um bom cobrador de bolas paradas, normalmente é quem bate os escanteios e as faltas laterais.

A mentalidade é a de um típico jogador alemão, extremamente concentrado durante os 90’, não se assusta ou se esconde em jogos importantes, pelo contrário até gosta de jogar esses confrontos. Tem uma boa tomada de decisão, sempre encontra as melhores soluções mesmo pressionado, sua velocidade de raciocínio é tão grande que parece jogar adiantado, está sempre antevendo os movimentos. 

Defensivamente talvez seja sua maior fragilidade, tem boa técnica de desarmes e consegue pressionar muito bem, o que explica a produção razoável para a função. Porém, até por uma questão de formação, não tem boa leitura para fechar as linhas de passe e defender a entrelinha, é um jogador que busca mais o encaixe devido ao estilo de jogo do Bayern.

Na parte física, consegue se destacar mesmo não sendo um atleta privilegiado nesse sentido. Jogador mediolíneo e ectomorfo, não é tão veloz porém consegue manter a intensidade da corrida durante uma boa distância e amplia bem o corpo para disputas. Tem boa impulsão e tempo de bola, que o faz ganhar disputas pelo altos com jogadores um pouco maiores.

Seus números nesta temporada são completamente absurdos para um volante, são 22 jogos, 4 gols e 13 (!) assistências. Além de liderar a Bundesliga em passes para gol, com 10, é o 3º jogador com mais key pass por 90’ (2,95), o 8º em grandes chances criadas por 90’ (0,57) e o 3º em bola longas certas por 90’ (8,6 sendo o 1º entre os jogadores de linha). (fonte: sofascore)

Kimmich não só substituiu Thiago Alcântara a altura, como também melhorou o time. É um jogador muito completo, que tem todas as ferramentas técnicas, físicas e mentais da elite, e depois dessa temporada senta na mesa dos grandes. Se isso vai se materializar em prêmios individuais, é difícil saber pois a posição de volante não é muito valorizada, mas que sua temporada é digna de entrar na conversa, isso não tenha dúvidas.

Compartilhe

Comente!

Tem algo a dizer?

Davi Neto

Últimas Postagens

Atlético-MG vive seu melhor momento na temporada
Gabriel de Assis

Atlético-MG vive seu melhor momento na temporada

0 Comentários
A onda tecnicista na função do auxiliar técnico de futebol
Jonatan Cavalcante

A onda tecnicista na função do auxiliar técnico de futebol

0 Comentários
Friendly #1 | Imaginar e construir o futuro, a habilidade fundamental do século XXI
Footure

Friendly #1 | Imaginar e construir o futuro, a habilidade fundamental do século XXI

0 Comentários
Surpresa e tradição: os classificados para as quartas do futebol masculino na Olimpíada
Caio Nascimento

Surpresa e tradição: os classificados para as quartas do futebol masculino na Olimpíada

0 Comentários
Osimhen, Simy, e a problemática das narrativas sobre jogadores africanos
Caio Bitencourt

Osimhen, Simy, e a problemática das narrativas sobre jogadores africanos

0 Comentários
O que esperar do Real Madrid para os próximos anos com Carlo Ancelotti?
Bruna Mendes

O que esperar do Real Madrid para os próximos anos com Carlo Ancelotti?

0 Comentários
O que explica as goleadas do Flamengo com Renato Gaúcho?
Gabriel de Assis

O que explica as goleadas do Flamengo com Renato Gaúcho?

0 Comentários
Como o Vojvodismo transformou o Fortaleza em protagonista no futebol brasileiro?
Jonatan Cavalcante

Como o Vojvodismo transformou o Fortaleza em protagonista no futebol brasileiro?

0 Comentários
God Save the Game #34 | A janela de transferências da Premier League 21/22
Gabriel Corrêa

God Save the Game #34 | A janela de transferências da Premier League 21/22

0 Comentários
Felipão chega entregando o de sempre: segurança e resultado
Gabriel de Assis

Felipão chega entregando o de sempre: segurança e resultado

0 Comentários
Guia do futebol masculino na Olimpíada de Tokyo 2020: parte 2
Caio Nascimento

Guia do futebol masculino na Olimpíada de Tokyo 2020: parte 2

0 Comentários
A Itália ainda pode crescer após o título da Euro?
Caio Bitencourt

A Itália ainda pode crescer após o título da Euro?

0 Comentários
Guia do futebol masculino na Olimpíada de Tokyo 2020: parte 1
Caio Nascimento

Guia do futebol masculino na Olimpíada de Tokyo 2020: parte 1

0 Comentários
O complicado início de Diego Aguirre no Internacional
Gabriel de Assis

O complicado início de Diego Aguirre no Internacional

0 Comentários
Rodrigo De Paul: o meia com DNA de Simeone e Atlético de Madrid
Bruna Mendes

Rodrigo De Paul: o meia com DNA de Simeone e Atlético de Madrid

0 Comentários