Jovens, futebol e manifestações no Rio de Janeiro em 2013 e 2014

“O que se iniciou em 2013, com os protestos e a mobilização dos estudantes, tem relação direta como que vemos no cenário político atual do Brasil”, analisa Camila Pereira, doutora em Comunicação pela UERJ

A realização de megaeventos esportivos como a Copa das Confederações de 2013 e Copa do Mundo de 2014 se deu junto a um cenário de efervescência política no Brasil. Após análise da relação de jovens e manifestações como a do #NãoVaiTerCopa, Camila Pereira elaborou a sua tese de doutorado em Comunicação, pela UERJ.

O propósito foi verificar quanto o futebol seria elemento simbólico construtor da identidade nacional durante os torneios. A pesquisa levou em conta os protestos de junho de 2013, que transformaram o panorama político do Brasil quando jovens foram para as ruas, também trazendo nas motivações o “gasto” excessivo com a Copa.


De forma resumida, do que se trata a tese?

A partir da ampla cobertura da mídia sobre os protestos e a realização do Mundial, o trabalho levou em consideração a participação da imprensa como fator determinante na construção identitária sobre o país do futebol. Logo, era preciso trazer os jornais como uma das frentes do trabalho, para verificar como seria a construção dessa identificação com a população, via notícias, num cenário adverso. Foram escolhidos dois veículos impressos de maior circulação do Rio de Janeiro, O Dia e O Globo.

E para entender se e como se deu essa identificação, pensando o público jovem como sujeito social em formação e principal agente dos movimentos políticos trazidos da rede digital para as ruas naqueles anos, fez-se a observação de 30 perfis no Facebook de jovens universitários fluminenses para verificar como se deu o envolvimento com futebol e manifestações. A questão central visou compreender como se deu esse processo por meio de histórias, imagens, textos e formas de consumo que podem alimentar as subjetividades que caracterizam o futebol como instrumento de identificação com o público jovem.

Qual foi o seu principal propósito ao escolher essa linha de pesquisa?

Além da pesquisa sobre o universo do futebol ser o motivador da vida acadêmica desde o mestrado, o cenário de declínio da pátria de chuteiras e a hipótese de pouco envolvimento da população com a seleção brasileira despertaram curiosidade. A ideia de que a festa do evento Copa do Mundo sobressaía ao “torcer pela seleção”, além da oportunidade de um Mundial em casa ser prato cheio para um trabalho levaram aos questionamentos. Pesquisa é dúvida, curiosidade.

O objetivo principal foi analisar se e como as narrativas midiáticas dos impressos cariocas e o discurso do jovem nas redes sociais operaram a identificação e envolvimento do brasileiro com o esporte durante os eventos futebolísticos. A pergunta principal visou responder se estes objetos se aproximavam ou eram dissonantes.

Por qual motivo este tema é importante?

Pesquisar questões identitárias e construções de subjetividades de sujeitos em formação são importantes para nos conhecermos, principalmente quando somos tão flexíveis e móveis com aquilo que pode nos representar.

Quando se tem alguns instrumentos reconhecidos como fatores dessa identificação de um povo, como o futebol (Da Matta, Simoni Guedes, Damo, Helal e outros autores nos ajudam a pensar isso) no Brasil, em momentos adversos ideologicamente na política e com oportunidade da realização de um grande evento esportivo como a Copa do Mundo – que mobiliza tantas questões (políticas, econômicas, sociais, culturais, da urbe, etc) – esses instrumentos devem ser testados, verificados. Houve manipulação?

O que se iniciou em 2013, com os protestos e a mobilização dos estudantes, tem relação direta como que vemos no cenário político atual do Brasil. O tema não se esgota e precisa continuar a ser repensado.

Quais as conclusões do estudo?

De fato, há um declínio no interesse geral dos mais jovens pela seleção brasileira, o que não significa uma falta de interesse pelo evento Copa do Mundo, pela festa que é promovida, muito menos pelo futebol praticado pelos clubes. O tipo do interesse e de representatividade do futebol foram ressignificados. Vale lembrar que essa é uma premissa a partir da investigação feita com uma pequena parcela de jovens, embora outras pesquisas venham contribuindo para essa reflexão.

Os jovens dos protestos diziam-se apartidários e a favor da democracia. Tanto que em determinado momento das manifestações, a mobilização transformou-se em uma celebração da democracia de uma parte da população enquanto a seleção brasileira avançou na Copa das Confederações. O caminho para a Copa do Mundo de 2014 refletiu um contexto de insatisfação e crítica inesperada ao megaevento.

Ponto forte identificado no trabalho foi de que os sentidos de nacionalismo e brasilidades para esses jovens ficaram mais aparentes nos protestos de 2013 do que nos eventos de futebol. Foi naquele ano que as cores verde e amarelo passaram a ser associadas a um movimento característico daqueles que se manifestaram contrários à política inaugurada pelo governo do PT. Assim, fica evidente que as mobilizações das jornadas de junho de 2013 inauguraram os movimentos sociais que reverberaram até 2016. Parte da população se mostrava insatisfeita com a política social do governo e a consequência daquelas manifestações culminaram com o impeachment da presidenta Dilma Rousseff.


POR DENTRO DA PESQUISA

Na tese, você aponta uma redução da mobilização comparando a Copa das Confederações em 2013 com a Copa do Mundo em 2014. Qual a explicação para essa queda durante o Mundial?

Essa queda refere-se pontualmente à mobilização com os protestos que ocorreram durante esses dois eventos. Em 2013, os jovens estiveram nas ruas protestando, e daqueles que acompanhei, poucos se interessaram pela Copa das Confederações.

Em 2014, a mobilização política nas ruas diminuiu e aumentou o interesse pela festa promovida pelo Mundial: ruas e bares cheios, pessoas na Fifa Fan Fest celebrando.

Contudo, com os jovens investigados pouco foi identificado de interesse pelo futebol da seleção brasileira e dos demais países participantes.  A representatividade do esporte foi ressignificada. A vitória foi celebrada, mas ficou nítido que o interesse maior era pelo evento, pela festa, sair cedo do trabalho etc. E aí, entre os jovens investigados, poucos foram aqueles que manifestaram qualquer coisa com um viés político ideológico nas redes e nas ruas.

Havia uma ligação sentimental desses jovens com o futebol ou apenas utilizaram o evento esportivo como plataforma?

Os jovens que acompanhei nas redes sociais – cariocas, universitários, em sua maioria estudantes das áreas de ciências sociais aplicadas – num primeiro momento estiveram engajados com os protestos. Enquanto se aproximava a data da Copa do Mundo, questões ideológicas e políticas perdiam força nas ruas e em suas redes, cedendo lugar à expectativa pelo evento.

A escolha do Facebook para acompanhar esses perfis foi por conta de como se iniciou a jornada de junho de 2013, mas não tive contato mais direto com esses jovens, embora todos tenham autorizado “bisbilhotar” suas páginas.

Então, o que ficou claro com o conteúdo consultado é que a proximidade do evento promovia em suas redes festas, confraternizações para acompanhar o futebol como evento. Não havia qualquer vínculo mais forte com a seleção brasileira. Tudo era farra, meme e festa, sem qualquer análise sobre o futebol em campo, ou percepção do futebol como identidade, ainda que a celebração da vitória estivesse na rede.

Dentro do recorte escolhido, foi possível identificar qual a avaliação desses jovens acerca dos protestos que realizaram?

Dos jovens investigados, todos apoiavam os protestos. Alguns de forma mais direta, com fotos de participação nos movimentos, nas ruas; usando a rede para esclarecer fatos e denunciar. Outros compartilhavam apenas notícias, também uma forma de se envolver com o fato. Ficou claro que o grau de envolvimento dos jovens era representado de acordo com o que compartilhavam – foto no protesto era para legitimar apoio; sobre como reagiam às postagens, com as variações curtir, comentar e compartilhar demonstração quem mais se manifestava, etc.

Contudo, eram poucos os textos autorais desses jovens, o que sinalizou que poucos pareciam entender de fato o que acontecia. Tanto que muitos que apoiavam em 2013 se calaram em 2014, ou condenaram de alguma forma o movimento “Não vai ter Copa” e os atos próximos aos estádios. Os protestos de 2013 exerceram uma iniciação desses jovens em uma mobilização político ideológica.

Saindo dos megaeventos, você tem notado uma cobrança maior de torcedores em redes sociais por posicionamento político dos clubes em determinados temas? Ou isso é restrito a certos nichos de torcida?

Acredito que a cobrança por posicionamento sempre existiu a partir de nichos muito específicos. Com as redes sociais, essa cobrança, engajamento e as ações ganham mais visibilidade, voz. A cobrança e o posicionamento dos clubes aparecem mais, como também a denúncia, a crítica. Os torcedores hoje acreditam conhecer e acompanhar de “mais perto” a rotina dos times, logo cobram mais. Isso é fruto de ferramentas tecnológicas que temos acesso hoje, nos permitindo sentir “mais parte”, sensação de proximidade, pertencimento.

Os clubes, times, precisam se posicionar. O contexto não pede neutralidade, precisamos assumir posições: o Bahia tem feito isso, o Vasco, e alguns outros, menos; mas “falam” alguma coisa.


QUER SE APROFUNDAR NO TEMA?

DAMATTA, Roberto; GUEDES, S; NEVES, L. e VOGEL, A.  (Org.). Universo do Futebol: esporte e sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1982.

HELAL, Ronaldo; GASTALDO, Édison. Copa do Mundo 2014: futebol, mídia e identidades nacionais. Rio de Janeiro, Lamparina/CNPq, 2017.

MALINI, Fábio; ANTOUN, Henrique. A internet e a rua: ciberativismo e mobilização nas redes sociais. Porto Alegre: Editora Sulina, 2013.


Título da tese: #NãoVaiTerCopa: identidade, jovem e manifestações no Rio de Janeiro em 2013 e 2014
Autora: Camila Augusta Alves Pereira
Instituição de Ensino: Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

Camila Augusta Alves Pereira é doutora em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, com bolsa Capes, na linha de pesquisa Cultura de Massa, Cidade e Representação Social (2018). Mestre pela mesma instituição (2012). Possui experiência em pesquisa sobre marketing, idolatria, representação, identidade, publicidade, jornalismo, jovem, consumo, pesquisa de opinião, rádio e recepção em Copas do Mundo de Futebol. Graduada em Comunicação Social pela Universidade Estácio de Sá (2005), com habilitação em Publicidade e Propaganda. Professora das Faculdades Integradas Hélio Alonso – FACHA. Foi professora substituta da Escola de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro em 2014. Participa ativamente do Grupo de Pesquisa Esporte e Cultura (FCS/UERJ), cadastrado no CNPQ, e do Laboratório de Esporte e Mídia da UERJ.
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Eryck Gomes

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