Knappenschmiede: a histórica forja do Schalke 04 em meio a turbulência existencial do clube

Com 260,368 mil habitantes, Gelsenkirchen é apenas a 25ª cidade mais populosa da Alemanha. Ela está localizada no centro do famoso Vale do Ruhr, no estado da Renânia do Norte-Westfalia, porém, os moradores da cidade, sarcasticamente, irão te dizer que não há muito para se ver por lá.

Gelsenkirchen é historicamente famosa por duas coisas muito importantes para a cultura regional: as minas de carvão e o Schalke 04. E é impossível distinguir as duas coisas. Antigamente, a cidade dependia exclusivamente da mineração, mas hoje em dia a indústria tomou conta das atividades empregatícias. De tempos em tempos ela ficou vulnerável em momentos de crise econômica, com a população estremecida e amedrontada. Entretanto, a vida nos ensinou que o futebol é a melhor válvula de escape para a realidade.

O Schalke 04 possui a terceira maior torcida na Alemanha, mesmo sendo originário de uma cidade com menos de 300 mil habitantes. Segundo uma pesquisa de mercado realizada pela Spiegel, os “Azuis Reais” têm o apreço de 24 milhões de alemães acima dos 14 anos, sendo 7 milhões de “pessoas cujo interesse pelo clube é muito especial”. É um número significativo, sobretudo em um país cuja população é de pouco mais de 83 milhões de habitantes. Apenas Bayern de Munique e Borussia Dortmund possuem mais torcedores do que os “Mineiros”.

A torcida do Schalke 04 sempre lotou a capacidade máxima do seu estádio, a Veltins-Arena, que ultrapassa a capacidade de 60 mil. O fanatismo dos adeptos ganhou ares ainda mais sentimentais devido ao rebaixamento durante a pandemia, quando ninguém pôde ir ao campo para alentar a equipe. Esse é o quarto descenso do clube (1981, 1983, 1988 e 2021) na era da Bundesliga. Antes da criação da versão moderna do campeonato alemão, em 1963, o clube de Gelsenkirchen havia levantado o caneco sete vezes. Entretanto, após a criação da Bundesliga, o Schalke jamais tornou a ganhar um campeonato sequer.

Além do amor, outra coisa continuou inabalável nesses tempos difíceis para os Azuis Reais: a revelação de grandes jogadores. Passaram pela base do clube alemão nomes do calibre de Manuel Neuer, Mesut Özil, Leroy Sané, Julian Draxler, Weston McKennie, Benedikt Howedes, Olaf Thon, Jens Lehmann, Joel Matip, Sead Kolasinac, Ilkay Gundogan (sim, ele jogou na academia do Schalke antes de ir para o rival) e, mais recentemente, Ozan Kabak, cedido ao Liverpool.

A Knappenschmiede, a “Forja da Mina” em alemão, é a renomada academia do S04, que abastece a equipe principal há muitos anos. Ao contrário do que acontece no profissional, a molecada azulina ganha títulos importantes, sobretudo com bons desempenhos na Bundesliga Sub-19 (quatro títulos e sete vice-campeonatos) e Sub-17 (dois títulos e quatro vices). Os números agradam, apesar de que a grande função, a de revelar grandes atletas, o clube já exerça com maestria ano após ano.

Pelo nome da academia fica evidente a importância das minas de carvão para o clube. No entanto, essa é apenas a pontinha do iceberg para entender os motivos que levam o Schalke 04 a revelar tantas pratas da casa. Para enxergar o panorama geral, é necessário viajar rapidamente ao passado.

Gelsenkirchen foi quase dizimada durante a Segunda Guerra Mundial, porque era um local de produção em larga escala de combustíveis e materiais bélicos. O bombardeio da cidade era considerado uma manobra estratégica dos aliados. Após o término da guerra, e com a derrocada do regime nazista, muitas famílias polonesas, italianas, dos Bálcãs e turcas chegaram a Gelsenkirchen para trabalhar nas minas e nas fábricas que iriam prosperar. A Alemanha, de uma maneira geral, é um grande caldeirão cultural e a cidade, pela proporção habitacional, se beneficiou disso para se reconstruir.

As famílias se estabeleceram e criaram raízes profundas na sociedade. A classe trabalhadora ajudou a reerguer Gelsenkirchen e os filhos dos pais que estavam em busca de uma vida melhor nas minas de carvão encontraram na academia do Schalke 04 um lazer. A pluralidade em Knappenschmiede é bastante nítida, com os exemplos já mencionados de jogadores revelados pelos Azuis Reais de diversas culturas, contrastes e mentalidades.

Você percebeu a palavra “lazer” no parágrafo anterior? Pois bem, isso é muito importante dentro da filosofia do clube. Com camadas que vão do sub-9 até o sub-19 – além da equipe B, que disputa jogos profissionais em divisões amadoras -, o departamento das categorias de base determina aos treinadores que as táticas não são importantes até que as crianças atinjam os 14 anos.

Saber o momento de impor um conceito tático é primordial na formação de um atleta, mas antes de tudo é necessário compreender que o futebol também é diversão. Foto: Schalke 04

Peter Knäbel, atualmente diretor de esportes do Schalke 04, foi por três anos o coordenador das divisões menores e responsável pela Knappenschmiede. Knäbel deu uma declaração para o jornal The Guardian, em 2019, que resume muito bem o processo de formação dos jovens atletas:

“Nós sempre falamos sobre timing aqui e queremos que as crianças pensem ‘quando’ e ‘o que’. Então o 442 e 352 não importam até os 14. As crianças devem aprender a entender o jogo por conta própria. Nós as deixamos jogar e, confie em mim, o resultado é sempre parte da nossa educação – se o treinador do sub-9 disser que vencer não importa, então apenas olhe nos olhos das crianças. Eles ficam desapontados quando perdem, mas o treinador não deve nunca, jamais ficar mais triste do que as crianças.”

Outro pilar da formação em Knappenschmiede é a valorização dos treinadores e ex-jogadores que, de certa forma, marcaram seu nome. O clube parte do preceito de que para cada técnico bom, o clube ganha 18 jogadores bons. Eles dispõem de plano de carreira, promoção (Knâbel era treinador antes de virar diretor), capacitação e muita confiança no trabalho inserido em contextos específicos.

Nos treinamentos, sempre é priorizado as rodinhas com no máximo dois toques por jogador, algo que está presente desde o sub-9 com o intuito de aprimorar a técnica – assim como os famosos rondos com quatro jogadores contra dois, por exemplo. A valorização da posse e a procura pelo drible também são estimulados desde o início. A repetição diária das sessões é vista como fundamental se for iniciada cedo.

Do sub-17 ao sub-19 todas as atividades são cronometradas, intensas e, o mais importante, sempre feitas com a bola. Ao contrário do que acontece com jogadores mais infantis (abaixo dos 14 anos), é nesse momento que a abordagem tática começa a ganhar mais ênfase, com treinadores rigorosos e competitivos. A variedade de atividades técnicas e táticas entre o sub-17 e sub-19 é vista como fundamental e as instalações de Knappenschmiede vem a calhar por conta da grande estrutura do centro. O local conta com campos de vários tamanhos e pré-determinados para algum tipo de exercício específico.

Também é nesse nível que o preparo físico ganha destaque, justamente pela intensidade requerida no estilo de jogo não apenas do clube, mas como do futebol alemão em geral. A missão do S04 é revelar anualmente um jogador de alto nível para a Bundesliga, o que faz com que o corpo de scouting observe apenas talentos com passagens pelas seleções de base da Alemanha, haja vista que a Mannschaft exige alta intensidade e jogadores ambidestros.

É importante ressaltar que do sub-9 até o sub-12 o recrutamento do Schalke é voltado apenas para os jovens da região de Gelsenkirchen. Isso faz parte do regimento interno, visando fortalecer o sentido de pertencimento da cidade com o S04. O clube só começa a expandir a observação para outras áreas do estado, como Westfalia e Renânia do Norte, no sub-16. Um grande exemplo é Leon Goretzka, que chegou para a equipe sub-19 mesmo tendo sido profissionalizado anteriormente no Bochum.

Outra particularidade é o envolvimento da equipe sub-19 com os jogadores profissionais. Quando há partidas internacionais, as promessas da casa viajam juntas com os famosos atletas da equipe principal, dormem no mesmo hotel e recebem os mesmos privilégios. É comum os garotos do sub-19 ficarem nas arquibancadas assistindo um confronto entre Schalke 04 e Milan pela Champions League, por exemplo. Faz parte do aprendizado e, acima de tudo, a valorização da formação.

Além das partes técnicas e táticas, o mental é demasiadamente importante para a agremiação, que tem como missão interna o desenvolvimento não apenas de jogadores, mas de pessoas educadas e independentes. Knappenschmiede tem um consórcio com uma escola local, que atende as crianças dentro do clube enquanto eles estão em treinamento.

Sem embargo, o exemplar trabalho feito nas categorias de base entra em contraste com a situação da equipe principal, que sacramentou seu destino na derrota por 1×0 perante o Arminia Bielefeld, culminando no rebaixamento com quatro rodadas de antecedência. Todo o cuidado que o clube tem nas camadas menores não foi visto por parte dos executivos responsáveis pelas atividades profissionais nas últimas temporadas.

“Doeu ainda mais que o esperado. Droga”, diz o tweet.

A promoção de Peter Knäbel para cuidar das questões profissionais, em fevereiro, era o prelúdio de uma situação que parecia irreversível e pensando no futuro. Agora, mais do que nunca, o Schalke 04 precisa pensar estratégica e cuidadosamente, como faz na base, para se recuperar na segunda divisão.

Em meio a pandemia, tiros nos pés pelos diretores, negociações de jogadores importantes, contratações de medalhões e QUATRO treinadores diferentes, os jovens foram lançados aos lobos na equipe principal. Foi nesse cenário que o Schalke 04 apareceu em quinto lugar no relatório do CIES Observatory, que listou o maior aproveitamento de jogadores sub-21 da famigerada “cinco grandes ligas”, ficando atrás do arquirrival Borussia Dortmund e dos franceses Nice, Monaco e Rennais.

Jogadores como Mehmet-Can Aydin, Kerim Çalhanoglu (primo de Hakan Çalhanoglu do Milan), Malik Thiaw, Valerios Pavlidis, Levent Mercan, Florian Flick, Can Bogdogan, Matthew Hoppe e Nassim Boujellab debutaram na equipe profissional. Todos eles são jogadores sub-21 que tiveram minutagem considerável na Bundesliga, alguns mais (Bogdogan, Hoppe e Thiaw, por exemplo) e outros menos. O melhor jogador, por mais que não seja revelado no clube, na campanha foi Amine Harit, que tem apenas 23 anos. Suat Serdar, revelado no clube, tem a mesma idade.

Mehmet-Can Aydin, 19 anos, que atuou em cinco jogos do Schalke 04 na Bundesliga até o momento, é o clássico exemplo de como funciona Knappenschmiede. O extrema-direita chegou à academia em 2015 para reforçar o plantel de juniores vindo do Borussia Monchengladbach. Aydin resume os conceitos aplicados na base, sendo veloz, agressivo (para atacar e pressionar), adepto dos dribles objetivos e com boa finalização. Ao lado de Matthew Hoppe, que já chamou a atenção do grande público com seus gols, Aydin será fundamental nesse processo, especialmente por se tratar de um jogador bem avaliado no mercado.

Devido à péssima situação financeira, e pelos movimentos realizados na diretiva, subentende-se que o Schalke 04 vai depender novamente da forja, mas agora na segunda divisão. Além dos nomes que já foram experimentados, provavelmente o torcedor Azul Real verá outras promessas compondo o elenco principal em busca da reconstrução.

Olhando por esse prisma, os dois jogadores mais habilidosos oriundos de Knappenschmiede, e que devem figurar na equipe principal num futuro próximo, são Juan Ignacio Cabrera e Elias Kurt, ambos com 18 anos.

Cabrera é uruguaio, mas vive na Alemanha desde os 9 anos de idade, porque o pai recebera uma oferta de emprego na região de Münster. Ele, inclusive, morou por cinco anos no Brasil antes de se mudar definitivamente para o país germânico. O jovem começou em clubes pequenos da região até chamar a atenção do Schalke, em 2016, aos 12 anos. Desde então, Cabrera é a grande referência técnica em Knappenschmiede, sempre vestindo a camisa 10.

O charrua é o organizador da equipe, atuando muitas vezes como meia-ofensivo, mas que também pode desempenhar a função de falso 9 por conta de sua altura (1,83m) e capacidade de finalização. Habilidoso e consciente, a pérola uruguaia é fatal no último terço, sendo decisivo em várias partidas, seja em bolas paradas, jogadas individuais ou em passes milimétricos. Por conta disso, o inevitável acontece: as comparações. Cabrera é muitas vezes chamado de “o novo Diego Forlán” pelos treinadores. Talvez a cabeleira loira e esvoaçante ajude nisso.

De cabeça erguida e com passadas largas, Juan Cabrera vai escalando níveis de notoriedade em Knappenschmiede. Apesar de ter nacionalidade alemã, o camisa 10 da Forja diz que se sente uruguaio mesmo sem uma convocação para a seleção charrúa. Foto: Schalke 04.

Elias Kurt é outro exemplo do trabalho de observação dos scouts. Com formação quase toda feita no Eintracht Frankfurt e com histórico de seleção nacional, o volante defensivo chegou ao Schalke 04, em 2020, para integrar o sub-19. Ambidestro, Kurt atua a frente da linha defensiva produzindo bons passes, bons lançamentos, bons deslocamentos e, obviamente, com um grande senso de marcação. Kurt se assemelha muito ao estilo de Florian Flick, que começou a carreira como zagueiro, mas devido a qualidade na saída de jogo fora adiantado para a segunda linha. A principal diferença entre os dois é o tamanho, pois Kurt mede 1,75m e Flick tem 1,89m.

Aydin, Cabrera e Kurt são os jogadores mais competitivos abaixo dos 20 anos vindos da base, embora o primeiro já tenha ganhado oportunidades na equipe de cima. Entretanto, ainda existem outros nomes promissores, como o goleiro irlandês Daniel Rose (17 anos, ex-Everton), os zagueiros Arbnor Aliu (18 anos) e Ardy Mfundu (18 anos e nascido na Bélgica) e o meio-campista Louis Köster (18 anos). Esses garotos fazem parte da equipe sub-19, sendo Aliu o capitão e Köster um dos mais promissores, ganhando comparações com Leon Goretzka pela movimentação em campo.

O rebaixamento do Schalke 04, que por muito pouco não bateu o recorde negativo do Tasmania Berlin de pior campanha, não foi apenas mais um capítulo negativo na história do clube por conta dos números. Os diretores e executivos colocaram em risco uma safra de jogadores promissores num contexto de grande desamparo.

Retornar à elite não será fácil, haja vista o exemplo do Hamburgo, que falhou na missão em seu primeiro ano na segunda divisão na temporada passada. Todavia, o primeiro passo é olhar para dentro do próprio clube, onde é possível encontrar exemplos de organização e, claro, de um futuro promissor.  

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