Duas rodadas para o fim: o que um título de La Liga significa para Atlético, Barcelona ou Real Madrid

A temporada foi longa e a reta final não será diferente. Como foi a caminhada dos três candidatos ao título e que significado a taça tem para cada um deles?

Enquanto o Atleti disparou com números incríveis, Barcelona e Real Madrid sofriam com a falta de consistência. O nível dos blaugranas era estranho, mas compreensível pelo contexto atual do clube. O Madrid buscava renovar suas energias depois do título na temporada passada e conseguiu resultados importantes nos confrontos diretos. Faltando duas rodadas, como foi a caminhada dessas três equipes e o que o título significaria para elas?

Cholismo e partido a partido

Simeone colocou todas suas cartas na mesa e algumas mais. Desde o último título espanhol na 2013/14, o Atleti vem se reforçando conforme perde peças importantes e nas mãos do treinador argentino esses reforços são peças fundamentais de um possível título na atual temporada.

Marcos Llorente chegou em 2019 e se firmou como a joia do time. Durante a 2020/21, tem diversas participações em gols e é fundamental no setor criativo da equipe. Resumido a primeiro volante no Real Madrid, Llorente se transformou no famoso todo-campista, recuperando a bola, avançando em velocidade, pisando na área como poucos e dessa forma facilitando a grande maioria das jogadas no último terço.

Outra contratação recente, Luis Suárez resolveu os problemas do centroavante sem gol. O grande diferencial é que grande parte deles foram em momentos oportunos e vitais ao conseguir pontos para se distanciar na tabela, fazendo a gordurinha no começo para a metade do campeonato e que pode dar o título para a equipe.

Dos 19 gols, nove tiveram impacto direto que garantiu pontos para o Atleti na La Liga.

Além dos dois jogadores, podemos citar Carrasco, que desde que voltou da China cresceu ainda mais de produção do que já era na sua primeira passagem, e no sistema atual é excelente em transição – função fundamental no estilo reativo.

Fora os “novatos”, não podemos esquecer de Oblak e Koke, medalhões que já estão a muito tempo no clube e seguem entregando. O meia espanhol sempre foi fundamental na circulação da bola e fiel escudeiro quando o jogo se torna mais vertical. Assim, vem exercendo essa função na temporada atual e mantendo a equipe nos trilhos com regularidade. Oblak é uma muralha. Um dos melhores da posição, o esloveno é fundamental para resolver lá atrás, ainda mais se pararmos para pensar que o Atleti já não é mais uma fortaleza defensiva como foi durante a década passada.

O surto de COVID-19 no elenco foi um dos motivos para tantos pontos perdidos em 2021. Além disso, a equipe sofreu com lesões e alguns dos jogadores infectados não conseguiram voltar no mesmo nível de antes. Outra grande questão é que os rivais cresceram de produção justamente nessa mesma época, e, obviamente, se você perde pontos e os outros ganham, a diferença, mesmo que grande, vai diminuir.

Entre opções acertadas, Simeone revolucionou seu estilo abandonando o 4-4-2 e aderindo ao sistema com três zagueiros. Fora o esquema, Cholo conseguiu manter o famoso partido a partido nessa reta final e vem forte com vantagem em pontos para os rivais – apesar de perder no confronto direto para o Real Madrid.

O que significa o título para eles? Uma forma de coroar a temporada que foi tão boa em termos de mudanças feitas nas últimas temporadas. Boas contratações mesmo perdendo peças chaves nas últimas janelas, como Griezmann e Thomas Partey, e também vem superando o contexto de renovação do elenco com novas peças e uma nova estrela (João Félix).

Simeone entregou a diversidade ofensiva que era tão pedida desde o título da Europa League e crava seu nome como o principal motivo do Atleti conseguir competir por coisas grandes ao fim da temporada.

Messi e os jovens

Depois do desastre na temporada passada, o Barcelona veio firme com ideias de reformulação no elenco. Koeman foi o escolhido para liderar os medalhões que ficaram, além de inserir e evoluir jovens jogadores dentro da equipe titular.

Fisicamente abaixo do que alto nível, foi preciso mudar bastante para competir na La Liga. O título da Copa do Rei tem impacto positivo por toda a narrativa de superação dentro da competição, mas a La Liga é diferente, ainda que o time tenha acostumado a vencê-la.

Derrota para o Granada e empate contra o Levante são situações que tiram o clube da melhor posição para levantar a taça, mas não se pode ignorar o pior início de campeonato em 30 anos que, querendo ou não, condiciona e ilustra a verdadeira base do que o Barcelona pode oferecer hoje.

O trabalho de Koeman corresponde muito bem com o contexto atual, o clube ser tão abaixo fisicamente (e mentalmente) é o fator mais condicionante para qualquer coisa. Quando tem nas mãos um placar adverso, tende a conseguir desempenhar melhor do que quando tem nas mãos uma vantagem, cenário recorrente desde as eliminações para Roma e Liverpool na Champions League.

Atrás no confronto direto, a equipe precisa torcer para o tropeço dos dois rivais para conseguir ganhar o título.

Por fim, os destaques são, sem dúvidas, os jovens que formam o agora e o futuro do clube. Por outro lado, não podemos ignorar como o sistema com três zagueiros fez o Barcelona superar buracos específicos vistos na temporada passada – como a fragilidade do sistema defensivo e uma melhora considerável na pressão pós-perda, situação em transição que gerava a maioria das chances dos adversários.

De Jong finalmente conseguiu se encontrar em campo e vive seu melhor momento desde que o treinador holandês chegou, e entender o jogador foi o principal fator para esse sucesso. Além dele, temos Ronald Araújo se firmando como zagueiro titular mesmo em um sistema diferente do que seria o ideal para o uruguaio. Pedri potencializa o lado esquerdo com Jordi Alba e tende a liberar Busquets, que fica mais à vontade na base, e De Jong mais firme no meio-campo conseguindo infiltrar mais.

No ataque, temos uma melhora interessante de Dembelé, que teve maior confiança mesmo em posições e funções diferentes, além de Ansu Fati que, antes de sua lesão, conseguiu demostrar como é diferente de qualquer outro garoto da sua idade. Adições e minutos para Mingueza, Trincão e Moriba também são fatores importantes no que podemos dizer ao futuro, já que os dois últimos não são titulares sempre, mas entram e participam ativamente.

Messi continua em grandíssimo e alto nível. Artilheiro do campeonato com 29 gols, lidera o melhor ataque da competição e sua magnitude é inexplicável. O argentino abraçou o projeto da atual temporada após não conseguir liberação do contrato.

A introdução e principalmente a evolução que os jovens tiveram são fatores que condicionam o futuro, e ignorar tudo isso num possível “fracasso” em relação ao título é retrocesso. O título teria um significado enorme dentro do elenco, como forma de superação, mas não é o fim do mundo não ganhar. Koeman é vítima do próprio sucesso? Diria que sim. Levou seus jogadores a um estágio que não era esperado no inicio da temporada.

Dessa forma, a base do julgamento vira o quase perfeito mês de março, e não o início da temporada, aonde tudo era muito difícil e a consistência inimaginável. Manter o nível é pesado, mas os problemas, que sempre estiveram por ali, deram a cara nos jogos finais, e a frustração caso não ganhe a liga deve ser natural.

La Flor de Zidane ou Benzema e Courtois?

Depois de ser campeão na última temporada, o Real Madrid chegou com a obrigação de ganhar novamente. Melhor elenco do país e jogadores pontuais em todos os setores do campo. Mesmo assim, o começo foi bastante conturbado e a reta final de 2020 teve impacto direto para o clube não depender de si mesmo para conseguir ser bicampeão faltando duas rodadas.

Derrotas para Cádiz, Valencia e Alavés fizeram a diferença na pontuação que poderia deixar o clube a frente dos rivais na tabela, mesmo com o empate com o Sevilla na semana passada. Enquanto o time dependeu ofensivamente de Karim Benzema, a equipe teve poucos momentos para apresentar repertório de campeão e deixou a desejar no último terço. Lá atrás, Courtois foi perfeito do inicio ao fim e é uma das razões pelo qual o time ainda compete pelo título.

Courtois é o melhor jogador do Real Madrid na temporada. (Denis Doyle/Getty Images)

Sem ambos, o Real Madrid inexiste e caso termine em primeiro lugar podemos colocar o título na conta deles. A dependência nesses dois jogadores trouxe Zidane até aqui e manteve o time brigando, mas não podemos ignorar a crescente de Fede Valverde que em campo muda o ritmo da equipe completamente.

O grande ponto de virada e importante na hora de avaliar a reta final é o desgaste físico e lesões enfrentadas nos últimos dois meses. Toni Kroos demonstra estar esgotado e mesmo assim é um jogo brilhante toda semana. Casemiro segue sendo peça fundamental para os 90 minutos e Luka Modric, aos 35 anos, parece mais intenso do que nunca.

Mesmo sofrendo nesse sentido, a equipe manteve uma bela sequência sem perder na liga desde o fim de janeiro. Zizou sabe que poderia ter feito melhor desde o início, até deixa isso claro em algumas situações quando corrige tudo e faz partidas brilhantes como o último El Clásico e as eliminatórias contra Atalanta e Liverpool na Champions League.

Ganhando o confronto direto contra Atleti e Barcelona, o Madrid precisa torcer para o Atleti tropeçar contra Osasuna e Real Valladolid enquanto precisa vencer Athletic e Villarreal. O título significaria redenção de uma defesa destroçada por lesões na reta final e uma superação física absurda dos medalhões que estão ali.

Merecer é algo muito subjetivo, mas a equipe brigou bastante no ano de 2021 e seguiu atrás a todo momento, levantar a taça com tantos problemas e deficiências seria uma definição perfeita de como funciona La Flor de Zidane –ou melhor, uma batida de martelo entre Courtois e Benzema como pilares disso.

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