Reestruturação do futebol, prospecção no mercado sul-americano, identidade cultural: o início da era Lucas Drubscky no Bahia

Em entrevista exclusiva ao Footure, o novo executivo de futebol, conversou sobre os motivos que fizeram aceitar o convite do Bahia, a necessidade de fortalecer laços com os jovens da região e o perfil de contratação adotado para a atual temporada

Com a incompatibilidade entre expectativa e realização, a temporada 2020 se tornou frustrante no que permeia o alcance dos objetivos competitivos. O que gerou inúmeros questionamentos e reflexões a respeito dos processos referentes a prospecção de atletas, montagem de elenco, representatividade e aproveitamento das categorias de base. Diante de um cenário de turbulência, o executivo de futebol Lucas Drubscky, foi contratado para conduzir um processo de reestruturação do departamento de futebol do Bahia.

Após chegar na reta final do Campeonato Brasileiro, o qual o Bahia lutou contra o rebaixamento até a última rodada, Drubscky aos poucos foi conhecendo a cultura organizacional, o fluxo dos processos e o novo ambiente de trabalho. Há quase 4 meses no comando do futebol do Bahia, o executivo conta como foi a transição entre as gestões.

“O Diego Cerri foi muito solicito e me ajudou bastante nessa transição no Bahia. E acredito que deva ser um comportamento a ser praticado por todos os executivos. Pois é uma ação fundamental para quem está iniciando o trabalho no novo clube. O executivo que está saindo auxiliar o profissional que está chegando com informações e garantir que tenha acesso a um “livro aberto” é muito importante para o fluxo das atividades no cotidiano. Ainda mais no meu caso, que cheguei ao Bahia com o campeonato brasileiro afunilando, tendo que conhecer muita gente e muitos processos para se adequar”, explanou Lucas Drubscky.

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Mesmo sendo impensável uma ruptura de processos tão visceral. É perceptível que as peças do tabuleiro começaram a ser movidas e foi iniciada uma reestruturação no futebol do Bahia. E um sinal claro foram as contratações de Júnior Chávare (ex-Atlético-MG) para ser o gerente de futebol e de Milton Costa para ficar à frente da coordenação técnica das categorias de base.

Analistas de Desempenho do Bahia em treinamento no CT do San Lorenzo de Almagro
Fotos: Felipe Oliveira / EC Bahia

E um dos setores que têm tido uma atenção especial neste início de gestão é o DADE. O Departamento de Análise de Desempenho é um dos setores estratégicos do departamento de futebol do Bahia, pois é responsável por alimentar a comissão técnica, jogadores e o executivo com informações a respeito do próprio time, adversário e jogadores mapeados no mercado.

“Esse processo de reformulação do DADE já está em andamento, pois foi uma promessa de campanha do presidente Guilherme Bellintani. O Júnior Chávare está encabeçando a reestruturação de pessoal e de processos. Atualmente o DADE possui em sua estrutura profissional 4 analistas distribuídos entre analista de mercado, analista de adversários e da própria equipe. E a ideia é aumentar a quantidade de analistas para expandir a prospecção no continente sul-americano”, explicou o executivo de futebol do Bahia.

E mesmo com um quadro de pessoal enxuto e com a reestruturação em fase inicial, o DADE tem sido primordial na prospecção e captação de atletas no mercado sul-americano. Os mais recentes a vestir a camisa do Tricolor de Aço são o argentino Conti e o paraguaio Óscar Ruiz. E de acordo com Lucas Drubscky não devem ficar restrito aos dois.

“O DADE tem sido fundamental na execução da estratégia de explorar o mercado sul-americano. Pois alguns jogadores são de fácil conhecimento, mas outros tantos não. E por isso, faz-se necessário ter uma estrutura robusta de avaliação de jogadores para ter uma maior assertividade. Ano passado iniciou-se essa mudança com a contratação do Ramírez e, em 2021 o Bahia está consolidando a entrada no mercado sul-americano ao trazer Conti e Óscar Ruiz. O Conti mesmo estando no Benfica é um jogador argentino que teve uma passagem no Colón. E o nosso olhar continua mapeando jogadores nesse mercado como forma de resolver as carências do elenco e trazer uma maior diversificação”, concluiu.

A necessidade de ampliar o DADE e ter uma musculatura capaz de mapear atletas em todos os países do continente sul-americano é crucial para a sustentação do modelo de negócio adotado pelo Bahia. Ainda mais ao observar e analisar a complexidade de toda cadeia que envolve a contratação de um atleta. Um processo que tem a complexidade elevada a enésima potencia ao se deparar com transações envolvendo atletas e empresários de outros países.

Lucas Drubscky
Lucas Drubscky caminhando no gramado do estádio Castelão antes da final da Copa do Nordeste 2021
Fotos: Felipe Oliveira / EC Bahia

“A contratação de um jogador estrangeiro para o Bahia gera um tempo de dedicação e pesquisa muito maior em comparação com atletas que estão no mercado nacional. E as negociações também estão inclusas. Não à toa as negociações do Óscar Ruiz e do Conti, foram as que mais me tiraram noites de sono. Pois é uma outra cultura de negócio. Vou lhe dar um exemplo: a negociação com o Conti atrasou em uma semana porque o empresário não entendia o que era FGTS e por qual motivo tinha que despender um percentual dentro do pacote que foi acordado. E o empresário me questionava o porquê do atleta não ter acesso ao dinheiro. Então, percebe-se que há uma diferença de cultura e de leis que afetam a negociação de um atleta. Por isso, é um trabalho muito mais complexo que imagina-se”, ilustrou Lucas Drubscky.

Mesmo com pouco tempo no novo clube, Lucas Drubscky, se deparou com uma identidade cultural muito presente e arraigada nos soteropolitanos. A representatividade do Bahia com a Bahia vai desde carregar as cores do estado no escudo, a utilização de expressões regionais e até mesmo a forma de se posicionar em determinados temas de grande relevância para a comunidade local. Esse sentimento de pertencimento foi algo muito debatido entre os torcedores do Bahia. Os quais não conseguiam enxergar representatividade no elenco. Não à toa, um dos pilares da reestruturação do futebol leva em conta formas de como despertar o sentimento de baianidade nos atletas para criar a tempestade perfeita entre torcida e elenco.

“O ser Bahia está intimamente ligado a baianidade. Os laços de ser baiano estão muito arrigados ao ser Bahia e ao torcer pelo Bahia. E no museu que está em fase de finalização na Fonte Nova, os atletas puderam fazer essa miscigenação da história entre ser da Bahia e do Bahia. E tenho buscado incutir nos atletas essa noção de representatividade que se tem ao vestir a camisa do Bahia. No processo de negociação, por exemplo, envio um vídeo institucional para que possa ter a magnitude do que é o Bahia. O que é a torcida do Bahia, que ao mesmo tempo que torce para o clube existe um pertencimento de Estado. E isso torna a relação do torcedor com o clube muito mais visceral”, afirmou.

E completou, “essa mudança de perfil que foi traçada passa por contratar um jogador e ele saber onde está pisando. Passa por saber o que representa vestir a camisa tricolor. Passa por ter a noção do ato que está fazendo ao colocar a camisa, entrar no campo e jogar. E a mudança de mentalidade já tem ocorrido nos jogadores que permaneceram, pois foi possível observar um aumento de performance em comparação com momentos anteriores. E os que chegaram nesta temporada também, uma vez que se apresentam em altíssima rotação”.


Você confere outros trechos da entrevista abaixo.

A sua saída do Sport pegou muita gente de surpresa. Ainda mais por se transferir para o Bahia, um rival direto – naquele momento – na briga contra o rebaixamento e também por se tratar de uma rivalidade histórica na busca pela hegemonia do Nordeste. Passado alguns meses, como você avalia essa transferência?

Enxergo de maneira muito tranquila. Porque ela foi feita com muito profissionalismo, idoneidade, transparência e ética. Lembro-me que estava concentrado para o jogo contra o Corinthians, em São Paulo. Recebi o telefonema do presidente Guilherme Bellintani. E foi feito o convite para assumir o cargo de executivo de futebol do Bahia.

Por tudo que o Bahia representa no futebol brasileiro, o crescimento orgânico que tem tido ano após ano e por apresentar uma estrutura administrativo-financeira sólida é uma instituição que muitos querem trabalhar. E comigo não foi diferente. Uma prova disso, é que em momento nenhum usei a proposta ao qual o Bahia me fez como moeda de barganha para me valorizar no Sport. A partir do momento que aceitei o convite não tinha chances de voltar atrás. E de imediato comuniquei aos seis diretores estatutários.

Ao comunicar a minha decisão de deixar o cargo de executivo do Sport, foi decidido que continuaria com o grupo para o jogo contra o Corinthians e voltaria a Recife para realizar a transição com calma. E de repente houve um movimento pelo qual ficou definido que a minha presença não era mais necessária. Porque foi subtendido que não estaria 100% com a cabeça no clube por ter aceitado outra proposta. O que é uma grande inverdade, pois sou profissional. Nunca abandonei a concentração do Sport. Pelo contrário, recebi ordens dos meus superiores para deixar o hotel.

Lucas Drubscky no CT Evaristo de Macêdo pela primeira vez
Fotos: Felipe Oliveira / EC Bahia

Além do crescimento orgânico de representatividade e dos aspectos de infraestrutura, o que lhe motivou a aceitar a proposta do Bahia?

A modernidade do clube na forma de gerir. Pois apresenta um organograma enxuto, onde há apenas o presidente e o vice-presidente. E logo abaixo está a figura do executivo de futebol. Então, há poucas pessoas para deliberar e as decisões são tomadas com celeridade. O processo que leva à tomada de decisão é mais criterioso e profissional. Outro ponto chave é a autonomia para trabalhar e, com isso, ter o poder decisório.

Você assumiu um cargo que durante a temporada 2020 foi alvo de muitas críticas pelo perfil de contratações e também pela ausência de comunicação com o torcedor em momentos chaves. De que forma esses dois assuntos serão tratados na sua gestão?

Do ponto de vista da comunicação institucional existem algumas diretrizes a serem seguidas para que haja a comunicação com a torcida. E essas diretrizes são definidas principalmente pelo presidente e o vice-presidente. É algo que já está estabelecido e os profissionais que chegam têm que se adaptar.

Em relação ao perfil de atleta e a remontagem de elenco, foram assuntos que na conversa com Guilherme Bellintani foi expresso o desejo de realizar uma reformulação profunda diante das expectativas geradas que não se confirmaram ao longo da temporada. E nessa temática tenho despendido um grande esforço para trazer jogadores no perfil idealizado. E qual é esse perfil? Jogadores que ainda não estão satisfeitos na carreira. Jogadores os quais não chegaram ao topo não só pela idade, mas também pelas conquistas. E os quais enxerguem o Bahia como sendo um clube importante para alcançar objetivos individuais na carreira. Somando-se aos demais esforços individuais, alcançar um grande afã coletivo. E isso já está em execução. Repare que até os jogadores mais renomados, como é o caso de Conti e do Oscar Ruiz, são profissionais que ainda não alcançaram o ápice de suas carreiras. E por isso, não vêm com o objetivo de passar férias. Vêm focados para realizar uma temporada melhor que a anterior.

Durante a negociação faço questão de falar pessoalmente com todos os atletas e explicar o planejamento do Bahia em 2021. Trato também sobre a expectativa do torcedor em 2020 e como isso vai impactar na atual temporada. E pergunto se o atleta está apto para encarar os desafios de vestir a camisa do Bahia. Explico também que o Bahia é um um sentimento que se mistura com Estado da Bahia, fazendo com que a representatividade não fique restrita aos torcedores e, sim, seja símbolo de um povo. E temos tido um bom retorno dos jogadores em campo. Até mesmo os que não atravessavam bons momentos nos clubes anteriores, têm mostrado um futebol comprometido com o coletivo. Ainda é cedo para cravar algo, pois a principal competição é o Brasileiro. Mas já observamos um resultado positivo e temos tudo para manter ao longo do ano.

Renê Marques e Lucas Drubscky comemorando a conquista da Copa do Nordeste 2021
Fotos: Felipe Oliveira / EC Bahia

Nessa reformulação o Bahia criou o cargo de coordenador de futebol e contratou Renê Marques para ser um elo entre a diretoria e os atletas no cotidiano. Geralmente, o executivo é que fica responsável por essas relações internas. Como você analisa a inversão de atribuições? E como será a dinâmica entre os cargos?

Na verdade não há inversão. Essas atribuições ainda são de responsabilidade do executivo. O cargo de coordenador de futebol, ocupado pelo Renê, é um braço dentro do departamento de futebol responsável por me auxiliar. No Sport não tinha ninguém para me auxiliar nas tarefas. E a criação deste cargo no Bahia é de suma importância para que haja uma melhor divisão. O Renê é um profissional que é muito participativo nas reuniões técnicas e de treinamento dando um suporte a comissão técnica.

Muitas vezes o executivo está realizando atividades externas e não tem como está presente full time no dia-a-dia. No Sport, enquanto estava tratando de assuntos externos as demais atividades ficavam estagnadas por não ter ninguém para auxiliar. E a presença do Renê é imprescindível para o funcionamento do clube. Além do mais, é um profissional que já tem uma vivência de atleta e agrega bastante ao Bahia.

A criação do cargo de coordenador de futebol acarreta numa “liberação” de algumas atividades e faz com que como executivo de futebol do Bahia, você fique responsável por lidar com o mercado, incluindo o relacionamento com clubes e jogadores. Uma atuação um pouco mais específica em relação ao trabalho no Sport. Essa especialização é positiva?

Vejo de forma positiva sim. Pois como você colocou na pergunta a especialização me libera. E dessa forma, consigo realizar as tarefas com uma maior qualidade ao ter mais tempo. Mas vale ressaltar que a especialização de algumas tarefas não é um passe-livre para relegar. É preciso delegar e ficar monitorando os acontecimentos para que aconteçam de maneira complementar. Porque se não corre-se o risco de fragmentar o trabalho.

Nesses primeiros meses à frente do Bahia, o que mais chamou atenção na cultura organizacional?

De uma maneira muito simples é que tem um estrutura que funciona. É incrível! Os departamentos são muito bem estabelecidos, interligados e coordenados. Isso quer dizer que não há problemas? Lógico que não. Todo e qualquer clube do Brasil enfrenta algum tipo de dificuldade. Mas no Bahia não existe espaço para o jeitinho. O profissionalismo é inegociável. E sendo um indivíduo que preza pela idoneidade, transparência e um trabalho bem feito, tenho me encontrado no Bahia de uma maneira singular.

O Bahia é um clube pelo qual tem se notabilizado por realizar uma gestão muito equilibrada e que busca respeitar os limites financeiros. Como é a estrutura formal das atividades do Bahia? Qual é o tipo de organograma? Como funciona o fluxo de informações em cada departamento?

O Bahia não tem cargos estatutários distribuídos em departamentos profissionais. É um organograma muito enxuto. O próprio presidente e vice-presidente são remunerados e têm que abrir mão das atividades profissionais para se dedicar integralmente ao Bahia. Ou seja, são estatuários profissionais. E isso passa uma credibilidade muito grande aos atletas e profissionais, pois estão acompanhando de perto o funcionamento do clube no dia-a-dia. E por ter esse organograma enxuto as informações circulam com celeridade. O que facilita a tomada de decisão.

Nas últimas temporadas, o Bahia tem buscado realizar algumas contratações a custo zero, por meio de empréstimos ou de baixo volume monetário. Esse perfil continua para esta temporada?

A tônica vai permanecer. O Bahia não pretende realizar grandes investimentos, fazer grandes compras ou pagar vultuosos salários. A ideia é dar um passo do tamanho que a perna pode dar. E isso é o diferencial da gestão do Bahia, pois existe compromisso na montagem do elenco ao criar uma folha capaz de ser paga rigorosamente em dia.

No entanto, é necessário ser mais criterioso e assertivo na prospecção para chegar antes que todos os demais clubes para seguir construindo uma equipe forte e com baixo custo. Pois o Bahia não vai conseguir competir financeiramente com alguns clubes do sul e sudeste.

Júnior Chávare (E), Lucas Drubscky (C) e Renê Marques (D) acompanhando a sessão de treinamento
Fotos: Felipe Oliveira / EC Bahia

No mercado, o Bahia tem adotado uma estratégia de prospectar atletas de baixo custo e com alto potencial técnico e de revenda. Qual o papel do DADE (Departamento de Análise de Desempenho) do Bahia? E como funciona o processo de contratação de atletas no Bahia?

Dentro do DAD existe um setor responsável pela análise de mercado que tem sido preponderante nas contratações realizadas neste início de temporada. Mas a indicação do jogador não fica restrita ao DADE, ela pode ocorrer por meio do presidente, do técnico e do executivo. Entretanto, o DADE é o grande filtro que temos utilizado para termos uma maior assertividade na avaliação.

E essa avaliação é realizada de forma colegiada tendo como participantes ativos nessa mesa de discussão: presidente, vice-presidente, executivo de futebol, técnico, analista de mercado, gerente de futebol e o coordenador de futebol. E assistimos em média 5 partidas do atleta na sala da comissão técnica para bater o martelo sobre iniciar ou não a negociação. E depois de chegar a decisão de que o atleta atende às necessidades do clube, inicia-se o processo de negociação que é totalmente conduzido pelo executivo de futebol.

O Bahia adotou uma estratégia de mercado de prospectar jogadores Sub-23. A exemplo do volante Flávio e do atacante Gustavo. Ambos negociados na temporada passada com o Trabzonsport (TUR) e Incheon United (COR). Como você avalia a utilização do Sub-23 como uma categoria para dar minutagem a jogadores mapeados no mercado?

Acredito que o Sub-23 tem que existir por dois motivos: o primeiro de ser uma etapa final de formação do atleta que tem uma maturação tardia. Afinal, a formação brasileira não se resume aos jogadores extraclasses como Neymar, Vinicius Jr, Rodrygo, que com 16 e 17 anos já estão prontos mentalmente, fisicamente, tecnicamente e taticamente para atuar na equipe profissional. E paralelo a isso, existem jogadores que chegam no último ano de Sub-20 e não estão prontos. Isso não quer dizer que o atleta não poderá alcançar a equipe principal daqui a seis meses ou um ano. E quando o clube não tem essa categoria, perde um degrau importante de desenvolvimento do atleta. Pois muitas vezes a solução encontrada, é emprestar o atleta para outro clube ou esperar o término do contrato para encerrar o vínculo por falta de uma amostragem maior.

E o segundo, que depende das condições financeiras do clube, de ser uma espécie de canteiro de prospecção interna. Ou seja, acontecem situações que contrata-se atletas pelo potencial de crescimento e com uma perspectiva de que possa jogar no profissional. No entanto, ao não ter a certeza, insere-se o atleta no time de transição para que possa se desenvolver e observar o comportamento ao vestir a camisa do Bahia. E dependendo da performance individual, pode ou não ser alçado ao profissional. Esse tipo de atuação no mercado barateia os custos de uma possível contratação. Uma vez que, o clube não precisa ir no mercado prospectar porque já consta um atleta com as características almejadas na equipe de transição.

Lucas Drubscky conversando com Dado Cavalcanti e membro da comissão técnica do Bahia
Fotos: Felipe Oliveira / EC Bahia

Com as recente vendas na gestão Guilherme Bellintani, o Bahia tem construído uma imagem de clube vendedor no mercado internacional. Na sua concepção, o que será preciso corrigir ou implementar para que haja uma consolidação da marca e um aumento dos valores nas vendas?

Para o Bahia consolidar um imagem de clube vendedor, no qual o mercado absorva a mensagem de que os atletas formados no clube têm uma boa inserção em contextos competitivos distintos é preciso aumentar a produção. E o Bahia está nesse caminho. A marca Bahia está em um processo de consolidação. Para se ter uma ideia, apenas com as vendas do Gregore e Thiago, o clube já alcançou a meta estabelecida para as vendas no ano. E ainda podem ocorrer outra negociações ao longo da temporada.

Mas também é preciso ter outros atributos: uma boa cultura de gestão para que se desenvolva um relacionamento muito próximo com o mercado nacional e internacional e, claro, aliar com a performance esportiva nas competições disputadas. Um exemplo, ao ser campeão da Sul-Americana é natural que haja uma valorização dos ativos que fazem parte do elenco. E isso gera dois desdobramentos importantes: aumento do valor de revenda e maior exposição da marca no cenário internacional.

E em um contexto histórico, os quais os clubes nordestinos não possuem o costume de vender os atletas para o mercado internacional e, sim, de atuar no mercado nacional negociando os ativos para as equipes do Sul-Sudeste. O Bahia tem conseguido reescrever a história nos últimos anos, ao ser essa porta final de saída para o mercado internacional. E dessa forma, o Bahia deve continuar esse processo de afirmação da marca como um clube vendedor.

O Bahia tem vendido muitos jovens antes de ter o retorno técnico. Como você avalia a dicotomia entre retorno técnico e financeiro? E qual será o caminho na sua gestão?

Acredito que não deva existir uma dicotomia. Ou seja, deva ser algo complementar. A gente sabe que o clube de futebol vive de conquistas. E para isso, é preciso ter bons jogadores no elenco para dar o retorno técnico. Mas ao mesmo tempo, é preciso pagar as contas. Por isso, é preciso avaliar as possibilidades para pagar as contas sem abrir mão do retorno técnico. Um exemplo prático é o Gregore. Um atleta que passou três temporadas no Bahia, ofereceu retorno técnico, conquistou títulos, tornou-se ídolo e gerou retorno financeiro.

Mas também temos o caso do Thiago que realizou poucos jogos com a equipe principal, foi vendido ao New York City, e nos deu um retorno financeiro muito bom. E a venda depende muito de alguns fatores como a análise de grupo e de mercado, tendo em vista o que o clube possui em mãos e o que tem disponível no mercado como opção de reposição. São várias questões que se coloca na balança ao tomar a decisão de vender. Além disso, não pode-se esquecer da necessidade do clube em vender jogadores para equalizar as contas. Pois assim como todos no Brasil, o Bahia também não está tranquilo financeiramente.

Muito pelo contrário, às vezes passa essa imagem muito em caráter da excelência na gestão. A pandemia por Covid-19 tem afetado bastante as receitas do clube. Afinal, o Bahia concentra no torcedor a maior parcela das receitas seja através de compra de ingressos, sócio torcedor ou até mesmo assinatura de pay-per-view. E se o torcedor é atingido na ponta, o efeito-chicote é sentido pelo clube. Porque o torcedor com pouco recurso passará a ser mais criterioso com o dinheiro que tem em mãos. Algo natural em um momento de crise sanitária e financeira. Por isso, o Bahia não pode descartar nenhuma negociação. E o caminho que o Bahia tem adotado é o mais correto. Porque realizamos as vendas que são necessárias, sem abrir mão da competitividade.

Ao mesmo tempo que o Bahia tem tido sucesso na prospecção e recrutamento de atletas sub-23, o oposto tem ocorrido na consolidação de jogadores formados nas categorias de base. Como exemplo, pode-se citar Ramires e Marco Antônio. Quais processos podem ser adotados para que o potencial desses jogadores se concretize em retorno técnico?

É preciso levar em conta o fator da individualidade de cada atleta. Estava até debatendo sobre isso no treinamento. Vou lhe dar um exemplo: Thaciano. Era um jogador super contestado no Grêmio, veio para o Bahia e em 4 jogos fez dois gols e uma assistência. E é o mesmo jogador. As vezes um atleta tem mais facilidade para desenvolver o futebol em uma equipe do que em outra. Não é necessariamente um erro de formação do clube. Mas pode acontecer? Pode. E o Bahia está atento para preencher essas lacunas formativas.

Além disso, é um assunto de grande complexidade. Não há uma receita para responder essa pergunta. Afinal o futebol é feito por pessoas. E a afirmação de um jovem depende de “n” fatores como a cultura, a estrutura organizacional e os métodos realizados. As vezes a mudança de estrutura organizacional pode fazer bem. O Ramires foi para o Red Bull Bragantino e tem uma possibilidade boa de se tornar um grande ativo. Já Marco Antônio foi para um contexto que irá lhe oferecer mais minutagem para exercer um protagonismo que no Bahia não ocorria. E consequentemente se desenvolver e retornar um jogador mais pronto para encarar o desafios do profissional.

Douglas Borel fazendo sinal de positivo
Fotos: Felipe Oliveira / EC Bahia

A globalização trouxe soluções e problemas para a sociedade. A equipe Sub-20 do Bahia, a qual disputou a última temporada, tinha apenas dois jogadores (Douglas Borel e Lucimário) que estão no clube desde a escolinha. Quais as dificuldades do Bahia em construir laços e fortalecer uma identidade com os jovens da região? E como isso pode ser modificado?

Fazendo uma captação mais robusta e mais presente. Porque os locais que mais revelam jogadores são: Rio de Janeiro, Bahia e interior de São Paulo. É incrível. Cada enxadada que se dá, retira-se 3 ou 4 jogadores de qualidade. E tendo a Bahia como um ponto estratégico na revelação de atletas, o Bahia não pode perder os talentos para outros mercados. Sendo que hoje o Bahia fornece uma estrutura igual ou melhor no âmbito da formação, condição de trabalho e de possibilidades de disputas de competições. Por tudo isso, o Bahia já se coloca como um destino atrativo para o atleta da região.

E visando evoluir o processo de captação no estado, Milton Costa foi contratado para ser o coordenador técnico e ao lado do Júnior Chávare, vão conduzir essa estruturação para que se torne mais agressiva e o Bahia não perca os talentos para equipes do sul e sudeste do Brasil.

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