Mais do que aparência - mito e realidade no futebol em Portugal

Para uma redefinição do mito e da realidade no futebol em Portugal, as dúvidas lançadas pelos pensadores Vítor Frade e Manuel Sérgio deveriam ter criado uma rede de conhecimento onde a partilha servisse para alimentar um aprofundar do entendimento do jogo (e o que o rodeia). Mas uma cultura empedernida pode acabar por limitar as visões que se nos oferecem a cada partida de futebol.

Portugal sempre se alimentou de mitos e a entrada no século XXI não é propriamente um tempo para grandes novidades no que ao empedernimento cultural diz respeito. Ora, essa cultura sempre encontrou nas mais diferentes áreas modos de se manifestar, umas vezes de forma clara, associada a grandes movimentos, outras vezes de forma mais difusa, tomando apenas parte de um discurso, de maneira a plantar, no fragmento, a expressão última que encontrará noutro campo o seu brilhar.

O futebol não está imune a estas ondas de contaminação cultural. Pelo contrário, até se transforma em campo aberto para que isto aconteça. A história é longa. Desde a luta pelo poder nos clubes, entre as forças que defendiam a ordem do antigo regime e os sócios que lutavam por um poder popular, à forma de relação entre clubes e atletas, que acabaram por conquistar a liberdade de decidir o seu futuro em lugar de ficarem presos a contratos quase vitalícios, à maneira de se falar do jogo fora das quatro linhas.

Resiste uma ideia de que o futebol é um campo sujo, onde se exprime a baixeza da sociedade, ignorando-se que o campo de futebol sempre foi território de igualdade, de conquista de relevância social, de transformação de habilidade e emoção em voz, clara e precisa, de novas vontades e organizações. Mas nem sempre essa expressão encontra a liberdade para acontecer. Por vezes, novas ondas nascem para demarcar fronteiras, debaixo de uma curiosa veste de especialização.

Quatro grandes frente ao espelho

A Final Four da Taça da Liga permitiu-nos voltar a ver, frente-a-frente, as quatro mais fortes equipas do futebol português. Sublinho a palavra fortes porque, como me é claro, o jogo não acontece apenas naquilo que vemos jogado. Falar do jogo é sempre falar de muito mais e, tanto no FC Porto e no Sporting, como no Benfica e no SC Braga, são bem mais do que as ideias dos treinadores aquilo que transparece no jogo perante a concorrência. Os quatro clubes conjugam o talento, a capacidade financeira, o domínio do espaço mediático de que carecem todos os restantes concorrentes.

Na vertente desportiva influem de forma muito clara todos estes princípios. Para o FC Porto, a figura de Sérgio Conceição como elemento dominante da estrutura para o futebol tem permitido uma gestão de mercado a partir de compras de baixo valor que são transformadas em peças úteis para o enquadramento competitivo da equipa. Para o Sporting, a capacidade de Rúben Amorim resgatar em jovens jogadores o valor que a equipa procurava é central para a boa temporada que vem fazendo. Para o Braga, o discurso de Carlos Carvalhal valoriza, de forma cada vez mais clara, os objetivos de grandeza do clube. No Benfica, Jorge Jesus vem corporizando o esforço particular da estrutura para regressar a um passado dominador, apesar das exigências desta época particular.

Os jogos das meias-finais permitiram emoção até ao final, valorizando estruturas de espelho entre as equipas, alimentando duelos entre setores do terreno facilmente identificados como promotores de diferenciação. Mas, perante a oportunidade de ouvir os comentários em direto de um treinador, centrados exclusivamente na leitura tática do jogo e com largo foco na correção de princípios e subprincípios que este técnico defende, muitos terão ficado com a ideia de que o jogo jogado não teve mais interesse do que servir de exemplo para a sua aula falada.

A voz da consciência

Regressemos à questão cultural, central na forma como se podem enquadrar estes acontecimentos. As diferentes escolas do futebol português tendem a ter, na sua base, grandes elementos promotores de dúvidas, nas figuras do Prof. Vítor Frade, a norte, e do Prof. Manuel Sérgio, a sul. Promovendo a dúvida sobre os conhecimentos fixos e empedernidos, buscando influências e leituras fora do jogo, de maneira a promover um outro futebol, que nasce do homem-jogador e se expande como ferramenta social. Em ambos os casos, é o elemento humano que surge no centro do debate e a partir dele que se encontram respostas possíveis para um jogar melhor.

Acredito que todos os alunos destes dois pensadores tiveram uma excelente oportunidade de aprendizagem ao serem expostos aos seus ensinamentos, mas a voz da consciência do futebol português veste-se dessa outra tentação para construir o mito e os mitos, bem se sabe, por muitos pés de barro onde venham a assentar, querem-se plenos de certezas. A oportunidade da aula falada oferecida pela televisão acabou por nos demonstrar a possibilidade de se fazer o mal, fazendo o bem. Porque a certeza sobre como seria melhor que cada uma das equipas se apresentasse a jogo, tornou a alimentar-nos da ideia do “génio tático”, que resolve todos os problemas através da sua ação de demarcação do jogo.

Esse trabalho surge aos meus olhos como um mero resultadismo (sim, precisamos de encontrar melhores conceitos para definir as palavras que muito utilizamos). Resultadismo como forma de olhar apenas para a aparência do que é jogado, no foco exclusivo no resultado tático, ignorando o processo que deve ser levado em conta para o atingir. Quando um treinador ocupa o espaço público para afirmar “eu faria diferente”, tomando por exemplo apenas o que acontece perante os seus olhos, não valoriza o processo de treino, de adaptação, de conhecimento, de envolvimento, que está sempre presente em todas as equipas. Esse ganho que muitos acreditam chegar com a substituição do comentador pelo treinador não acontece. O conhecimento e a experiência de um bom técnico merecem melhor palco, num contexto onde se possa alcançar toda a eficácia que uma aula pode ter.

A importância de sublinhar a forma como os treinadores atingem determinados momentos, conhecendo as formas como se vêm apresentando ao longo dos meses da temporada, entendendo cada opção perante o quadro em que ela é tomada, valoriza bastante mais esse entendimento do futebol como um campo de ciência, onde a especialização desejável evolui de mão dada com a exigência da dúvida predicada pelos grandes pensadores do jogo. Ficar satisfeito com a aparência (no jogo ou no discurso), infelizmente, é um sorriso breve como um sol de pouca dura.

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Luís Cristovão

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