As perguntas e respostas que fazem evoluir o jogo

Luís Cristóvão leu o novo livro de Martí Perarnau e partilha connosco as suas dúvidas sobre a existência do falso 9 no início da história do jogo.

Depois dos excelentes Herr Pep e Pep Guardiola: La Metamorfosis, Martí Perarnau apresentou-nos em 2021 La Evolución Táctica del Fútbol – Descifrando el código genético de fútbol de la mano del falso 9. O subtítulo será aquilo que trai a obra do jornalista e antigo atleta olímpico espanhol, que caindo no erro de tentar escrever uma história do passado com as informações que obteve no futuro, acaba por não nos ajudar a entender a evolução da ideia do falso 9 através dos tempos. Mas isso não é caso para darmos por mal gasto o tempo a ler as 738 páginas deste volume.

A primeira sensação que tive ao entrar no livro de Perarnau foi a de alguma desorientação. O livro carece de revisão, com alguns dos temas a voltarem de forma recorrente à narrativa, repetindo-se sem acrescento à qualidade da história. Escrever este volume terá sido um longo trabalho de estudo, pelas inúmeras referências bibliográficas que faz, mas talvez precisasse de outro tanto para poder retirar delas o sumo daquilo que se pretendia alcançar. Nunca fica claro que a existência do falso 9, fosse de forma consciente, fosse de forma inconsciente, tivesse tido um papel preponderante na evolução tática do jogo. E o mais provável é que isso aconteça porque, na realidade, não teve.

Existem momentos preciosos na escrita de Perarnau. Dentro deste imenso livro, um outro livro se destaca. Aquele que que transposta o centro do pensamento futebolístico das ilhas britânicas para o coração da Europa, sobretudo na Hungria. As páginas que nos levam a perceber as luzes e as sombras do WM, a Escola Danubiana em Budapeste, a reflexão nascida dos cafés de Viena e o desenvolvimento e o ocaso do Wunderteam. Aqui está o melhor pedaço do livro. O segundo momento alto do livro surge na parte final, na forma como descreve a identidade do futebol argentino. Nestes dois espaços, Martí Perarnau encanta-nos ao nível da sua melhor escrita, da fineza da sua reflexão, da sua capacidade para nos levar aos lugares que descreve.

Noutros momento, o livro fica aquém daquilo que esperamos deste autor. As origens do jogo já foram descritas e pensadas por outros autores, ficando difícil criar um novo enredo para uma história que se fixou numa dualidade que é difícil de comprovar. O jogo de passe curto dos escoceses versus o jogo de passe longo dos ingleses. É bastante mais provável que o jogo se tenha desenvolvido a partir de debates bem mais complexos e realidades bem menos definidas do que esta, pelo que voltarmos a tentar dividir o mundo entre claro e escuro não beneficia a narrativa à qual se pretende chegar.

Pior, mesmo, é a tentativa de fundação no falso 9 daquilo que é a evolução tática do jogo. Para existir o falso 9 é preciso que exista um verdadeiro 9. Ou seja, teria que existir a fixação de um espaço formal para o aparecimento de um determinado tipo de jogador que, desfeiteando a sua aparência, possa transformar-se num perfil mais enganador. Ora, sem termos a possibilidade de vermos os vídeos para reposicionar leituras, nunca é fácil ler um livro de história onde o pretenso historiador critica pessoas do passado por não terem visto uma coisa que ele considera que já lá estava. Ao querer transformar-se em falso 9 um conjunto de perfis que se dividem entre um avançado móvel mais tradicional, um 10 com capacidade de finalização e um médio de características ofensivas, tende-se a tentar apagar mais do que a destacar algo na história do jogo.

Nos seus livros anteriores, Martí Perarnau levou-nos ao encantamento com tudo o que era processo no trabalho de treinador de Pep Guardiola. O mesmo Pep que continua a procurar, ao longo da sua carreira, entender as dúvidas e as respostas que muitos outros técnicos antes de si acabaram por encontrar no desenvolvimento dos seus processos pessoais. O caminho para encontrar uma fórmula que acabou por encaminhar para o fim o trabalho de mentes brilhantes é aquele que foi evitado por Guardiola no seu trabalho. Nunca se convencendo de que encontrou uma resposta final, sempre em busca de soluções para os problemas que continua a encontrar.

Neste livro, falta-nos o cumprir dessa promessa que sentimos feita em obras anteriores. Sempre que se foca em processos, em comparação de ideias de treinadores, em questionamentos que características de jogadores lançaram no jogo, Perarnau está próximo do seu melhor. Quando se afasta desse modo de desenvolver a sua narrativa, perde-nos um pouco. O que não coloca em causa a importância deste volume para pensarmos o jogo. Para percebermos, acima de tudo, que as ideias e os períodos não são fixos, nem fáceis de distinguir em datas certas. O processo de evolução tática do futebol foi um processo de concorrência de perguntas e respostas que continuam a ecoar na maneira como se pensa o jogo nos dias de hoje.

O livro La Evolución Táctica del Fútbol – Descifrando el código genético del fútbol de la mano del falso 9 é uma edição da Córner, marca da Roca Editorial, publicado em Barcelona em 2021.

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